terça-feira, 21 de janeiro de 2020

A descoberta sobre o sistema imunológico que pode ajudar a combater todos os tipos de câncer



James Gallagher - @JamesTGallagherRepórter de ciência e saúde
 tratamento de diversos tipos de câncer
Uma recente descoberta sobre o nosso sistema imunológico pode se tornar uma arma para tratar todos os tipos de câncer.
Uma equipe de cientistas da Universidade de Cardiff, no País de Gales, desenvolveu um método em laboratório que destrói o câncer de próstata, mama, pulmão e outros tipos.
Os achados, divulgados na publicação científica Nature Immunology, ainda não foram testados em pacientes, mas têm um "enorme potencial", afirmam os pesquisadores.
Para especialistas que não participaram da pesquisa, ainda que o trabalho esteja num estágio inicial, ele é bastante promissor.
O que eles descobriram?
Nosso sistema imunológico é a defesa natural do corpo contra infecções, mas ele também ataca células cancerosas.
A equipe da Universidade de Cardiff estava em busca de maneiras novas e "não convencionais" de fazer com que o sistema imunológico atacasse naturalmente tumores.
Eles encontraram uma célula-T (ou linfócito T) com um novo tipo de "receptor" que identifica e ataca células cancerosas, ignorando as saudáveis.
A diferença nesta célula imunológica é que ela pode escanear o corpo em busca de ameaças que devem ser eliminadas e atacar uma ampla variedade de cânceres.
"Há uma possibilidade de que ele possa tratar todos os pacientes", afirmou o professor Andrew Sewell à BBC. "Antes ninguém acreditava que isso fosse possível."
Como ela funciona?
As células T têm "receptores" na superfície que permitem a elas "enxergar" em um nível químico.
Os pesquisadores da Universidade de Cardiff descobriram que a célula T e seu receptor podem encontrar e destruir uma gama de células cancerosas no pulmão, na pele, no sangue, no cólon, na mama, nos ossos, na próstata, no ovário, no rim e na coluna cervical.
E fazem isso deixando intocados os tecidos "normais".
ancerosas
O modo exato como que isso acontece ainda está sendo pesquisado.
Esse receptor da célula T em particular interage com uma molécula chamada MR1, presente na superfície de todas as células do corpo humano.
Acredita-se que a MR1 seja a responsável por sinalizar ao sistema imunológico o metabolismo disfuncional em curso dentro de uma célula cancerosa.
"Somos os primeiros a descrever a célula T que encontra o MR1 nas células cancerosas — isso não tinha sido feito antes, foi a primeira vez", disse à BBC o pesquisador Garry Dolton.
Por que essa descoberta é relevante?
Terapias com células T já existem e o desenvolvimento de imunoterapias contra o câncer tem sido um dos avanços mais empolgantes nesse campo.
O mais famoso exemplo é o chamado CAR-T, uma droga viva produzida por meio de engenharia genética em células T para procurarem e destruírem o câncer.
O CAR-T pode trazer resultados incríveis que levam alguns pacientes do estágio de doença terminal para a completa remissão.
Essa abordagem é, no entanto, extremamente específica e funciona com apenas um número limitado de cânceres onde há um alvo claro para treinar a "mira" das células T.



E também enfrenta dificuldades em combater "cânceres sólidos" — aqueles que formam tumores em vez de sangue canceroso como a leucemia.
Já os pesquisadores da Universidade de Cardiff afirmam que o receptor da célula T pode levar a um tratamento de câncer "universal".
Mas como isso funciona na prática?
A ideia é extrair uma amostra de sangue do paciente em tratamento contra o câncer.
As células T seriam extraídas e modificadas geneticamente a fim de reprogramá-las para constituir o receptor que encontra o câncer.
Essas células aperfeiçoadas seriam cultivadas em largas quantidades em laboratório e depois reinseridas no paciente. É o mesmo processo usado na terapia CAR-T.
No entanto, essa pesquisa da Universidade de Cardiff foi testada apenas em animais e células em laboratório, e testes em humanos demandam mais etapas de segurança.
O que dizem outros especialistas?
Lucia Mori e Gennaro De Libero, da Universidade de Basileia, na Suíça, afirmam que essa pesquisa tem um "enorme potencial", mas ainda é cedo para afirmar que ela poderia funcionar para todos os tipos de câncer.
enfermo são reprogramados para reconhecerem as células cancerosas
"Estamos muito empolgados com as funções imunológicas dessa nova população de células T e o uso potencial do receptor na terapia de células tumorais", dizem.
Daniel Davis, professor de imunologia da Universidade de Manchester, na Inglaterra, afirmou que "por ora, ainda é uma pesquisa em estágio bastante inicial e nem perto de se tornar um tratamento real para pacientes".
"Mas não há dúvidas de que é uma descoberta bastante empolgante, tanto para o avanço do nosso conhecimento sobre o sistema imunológico quanto para o desenvolvimento de novos tratamentos."


quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Ablação percutânea é alternativa para tratamento do câncer


https://www.einstein.br/especialidades/radiologia-intervencionista/noticias/ablacao-percutanea-e-alternativa-para-tratamento-do-cancer

Recurso permite destruir células tumorais por aplicação de calor ou frio, preservando os tecidos adjacentes

​O uso de métodos de imagem para guiar intervenções tem permitido ampliar a gama de procedimentos minimamente invasivos no tratamento de câncer, dentro de um novo campo da Medicina conhecido como Oncologia Intervencionista.

A ablação percutânea, que envolve a destruição de células tumorais por meio de aplicações de energia térmica, é um desses recursos. Indicada para alguns tipos de tumores do fígado, rins, pulmões e ossos, tanto primários como secundários (provenientes de outros órgãos), a ablação se apresenta como uma alternativa nos casos em que a cirurgia convencional não pode ser realizada ou é recusada pelo paciente.

É feita através da aplicação precisa de energia geradora de calor (radioablação) ou de frio (crioablação) no interior da lesão, evitando que tecidos saudáveis adjacentes sejam afetados.

Com apoio de recursos de imagem como Ultrassonografia, Tomografia Computadorizada, Ressonância Magnética e PET-CT, o médico ( Radiologista Intervencionista) introduz um delgado instrumento pontiagudo (probe) através da pele e o direciona ao interior da lesão.

Na radioablação, o probe é acoplado a um gerador que emite pulsos de radiofrequência, produzindo calor local em torno de 80°C, suficiente para induzir a necrose das células neoplásicas.

Na crioablação, o probe gera no interior da lesão uma bola de gelo a baixíssimas temperaturas ( da ordem de -140oC), que por meio de ciclos sucessivos de congelamento e descongelamento, promove a destruição das células tumorais.

A escolha do tipo de ablação depende da natureza e localização do tumor, sempre visando ao máximo de eficácia no procedimento. Os dois tipos são adotados no tratamento de neoplasias de pulmões  e rins. Já os tumores de fígado apresentam excelente resposta à radioablação. Para tumores ósseos indicam-se as técnicas ablativas no controle local da doença e para o tratamento de dor no caso de metástases. Os procedimentos podem ainda ser realizados durante um ato operatório, acrescentando recursos adicionais à cirurgia oncológica.

Minimamente invasiva, a ablação percutânea é um procedimento seguro, com baixas taxas de complicações (2% a 3%). Na maioria dos casos, não requer internações prolongadas, nem anestesias profundas, e é bem tolerada pelos pacientes, que podem retornar às suas atividades rotineiras em pouco tempo - em alguns casos, até no dia seguinte. Cerca de 40% dos pacientes apresentam reações passageiras, como febre baixa, desconforto, fadiga e prostração, que costumam durar de dois a três dias após o procedimento e são facilmente controladas com medicações.

A menor invasividade permite que o procedimento seja repetido, caso necessário, em situações como recidivas ( surgimento de novas lesões) ou tumores residuais. Também é indicado para redução de tumores muito grandes, a fim de viabilizar uma remoção cirúrgica posterior. Pode, inclusive, ser combinado a outros procedimentos como radioterapia e quimioterapia.

No caso de tumores hepáticos, a ablação desempenha um importante papel como ponte para quem espera um transplante e é portador de um hepatocarcinoma ( tumor primário do fígado). No Brasil, como na maioria dos países, pacientes com uma lesão maior do que cinco centímetros ou com mais de três lesões com até três centímetros tornam-se inelegíveis ao transplante ( Critérios de Milão). Nesses casos, a ablação percutânea torna-se uma opção de tratamento, contribuindo para reduzir o tamanho dos tumores ou evitar que cresçam e excedam os critérios excludentes.

As indicações dos procedimentos ablativos são bastante amplas dentro do cenário oncológico, no entanto seu emprego deve ser amparado por ampla discussão multidisciplinar entre todos os especialistas envolvidos no tratamento do câncer: oncologistas, cirurgiões, radioterapeutas e radiologistas intervencionistas.

Adotada nos principais centros mundiais desde a década de 90, a ablação percutânea de tumores é uma técnica com alto potencial de desenvolvimento. Outras formas de produção de energia para a ablação, como laser , micro-ondas, ultrassom focado de alta intensidade (HIFU) e eletroporação definitiva, estão em crescente desenvolvimento e poderão em breve somar-se às possibilidades hoje oferecidas. Além disso, há estudos em andamento que devem permitir, num futuro próximo, estender o procedimento a alguns tipos de tumores de mama e de próstata.

São novos caminhos que se abrem, ampliando os horizontes para o tratamento do câncer.

​​Fonte: dr. Rodrigo Gobbo Garcia, Médico Radiologista Intervencionista do Einstein