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terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Por que câncer de pâncreas entrou para a lista dos que mais matam no Brasil

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Legenda da foto,

Mortes por câncer de pâncreas no Brasil subiram mais de 50% na última década, mostram as estatísticas

 

A cada dois ou três anos, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) publica um documento em que faz projeções sobre os números de casos e mortes relacionados aos tumores mais comuns na população brasileira.

“E pela primeira vez na série histórica, o Inca incluiu o câncer de pâncreas como um dos mais frequentes no país”, informa a oncologista clínica Mariana Bruna Siqueira, da Oncologia D’Or, no Rio de Janeiro.

“O aumento da incidência desse tumor acontece nas regiões economicamente mais desenvolvidas, e ele já aparece entre os dez tumores que mais acometem as mulheres das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste”, complementa a especialista, que também integra o Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino.

O Inca estima que, em 2023, serão diagnosticados 10.980 casos de câncer de pâncreas no país.

As mortes também estão em ascensão. Entre 2011 e 2020, os óbitos por ano relacionados a essa enfermidade saltaram de 7,7 mil para 11,8 mil — um incremento de mais de 50%.

Em números absolutos, o Inca calcula que em 2020 essa doença matou 5.882 homens e 6.011 mulheres. Isso faz com que esse tumor seja o sétimo mais mortal para eles e o quinto para elas.

Vale lembrar que o pâncreas é uma glândula responsável por produzir a insulina, um hormônio essencial no aproveitamento da glicose como fonte de energia para as células trabalharem.

E a tendência de subida não é apenas nacional: nos Estados Unidos, cientistas apontam que o câncer de pâncreas se tornará o segundo tipo mais letal, atrás apenas dos tumores de pulmão. Os números de casos também se elevarão em mais de 65% entre os americanos nas próximas duas décadas.

Mas o que justifica essa mudança de cenário? Por trás desse aumento, há pelo menos quatro motivos: o envelhecimento da população, o estilo de vida, os sintomas tardios e a agressividade do quadro.

Longevidade e hábitos inadequados

O médico Duílio Rocha, diretor da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, destaca que o câncer de pâncreas é uma condição que costuma aparecer em indivíduos de idade mais avançada.

“Portanto, o próprio envelhecimento da população contribui para esse aumento”, raciocina.

“A idade média do diagnóstico é 70 anos. E o Brasil só superou uma expectativa de vida acima das setes décadas a partir do ano 2000”, complementa o especialista, que também é chefe da Unidade de Oncologia do Hospital Universitário Walter Cantídio, em Fortaleza.

Ou seja: se as pessoas vivem mais, é natural que um número maior delas desenvolva um tumor na glândula.

O segundo fator tem a ver com o estilo de vida adotado, especialmente nos lugares mais desenvolvidos.

“Boa parte da comunidade científica acredita que o aumento de casos está diretamente relacionado a mudanças de hábitos nas gerações que nasceram a partir de 1970, como o maior consumo de alimentos ultraprocessados e ricos em gorduras saturadas, e o aumento na proporção de pessoas sedentárias e obesas”, lista Rocha.

Todas essas alterações estão relacionadas a um aumento geral de enfermidades crônicas não transmissíveis, como a hipertensão, o diabetes e diversos tipos de câncer, como aqueles que acometem o pâncreas.

Falando em diabetes, os pesquisadores têm muitas dúvidas sobre qual a relação entre os dois quadros. Afinal, pacientes com diabetes possuem um risco mais elevado de câncer de pâncreas? Ou é o tumor na glândula produtora de insulina que provoca um descontrole nos níveis de açúcar no sangue?

“Ainda não está certo se o diabetes é causa ou consequência nesse cenário. Mesmo assim, encaramos essa enfermidade como um fator de risco adicional para o câncer de pâncreas”, responde Siqueira.

 

Silenciosa e agressiva

Para completar, uma das grandes barreiras quando o assunto é tumor no pâncreas está no diagnóstico tardio.

“Apenas 15 a 20% dos pacientes são identificados quando a doença está localizada na glândula e não se espalhou para outras partes do corpo”, calcula Siqueira.

Em linhas gerais, detectar o quadro nas primeiras etapas de desenvolvimento é a principal maneira de garantir tratamentos menos invasivos e com maior potencial de cura.

Essa, porém, não é a realidade na maioria das vezes. “Os sintomas do câncer de pâncreas só costumam aparecer numa fase avançada e são muito genéricos, ou seja, se confundem com uma série de outras enfermidades possíveis”, caracteriza Rocha.

Entre as principais manifestações desse tumor, os médicos destacam a perda de peso, a dor no abdômen ou nas costas e mudanças na coloração da pele e dos olhos, que ganham um aspecto amarelado.

Esse último sinal tem a ver com o crescimento do tumor e o aperto de estruturas ao redor, como os ductos que ligam a vesícula biliar ao fígado.

Também não há um exame de rotina que possa flagrar a enfermidade de forma precoce, em moldes parecidos aos da mamografia para câncer de mama e do papanicolau para o de colo de útero.

O último fator por trás da ascensão dos tumores de pâncreas tem a ver com as próprias características dessa condição.

“Ela é uma doença mais agressiva. Mesmo os pacientes que são operados têm uma sobrevida menor em comparação a outros tipos de câncer”, diz Siqueira.

“No câncer de intestino localizado tratável com a cirurgia, por exemplo, há uma chance de cura que supera os 80%. Num tumor de pâncreas que reúne condições parecidas, essa taxa fica em 30%”, completa a oncologista.

 

O contra-ataque da medicina

Mas nem tudo são más notícias quando o assunto é câncer de pâncreas.

“Durante muito tempo, tivemos a ideia que esse era um tumor contra o qual podíamos fazer muito pouco”, lembra Rocha.

“Mas, nos últimos anos, tivemos uma série de avanços que melhoraram esse cenário. Hoje, a chance de cura é seis vezes maior do que há duas décadas, principalmente quando somos capazes de usar as melhores ferramentas para diagnosticar e tratar de forma precoce”, complementa.

Quando o tumor na glândula é detectado nos estágios iniciais, a cirurgia costuma ser a primeira alternativa para lidar com o problema.

Agora, se a doença já evoluiu ou se espalhou para outras partes do organismo, os profissionais de saúde apelam para a quimioterapia ou para a radioterapia.

Em alguns casos, a própria químio consegue diminuir o tumor, o que abre a possibilidade de fazer uma cirurgia para remover as lesões localizadas na glândula.

Opções mais avançadas também começam a entrar em jogo. Uma delas é a imunoterapia, uma classe de medicamentos que estimula o próprio sistema imunológico do paciente a combater as células cancerosas.

“Por ora, esses remédios só estão disponíveis para indivíduos com uma mutação genética específica, o que corresponde a cerca de 1% dos casos”, aponta Siqueira.

Outra novidade recente é o uso das CAR-T Cells, um método já aprovado como tumores de sangue que consiste em extrair células imunológicas do próprio paciente, modificá-las em laboratório e reintroduzi-las no organismo, para que reconheçam e ataquem o tumor.

“Esse, porém, ainda é um tratamento experimental, que precisa ser mais estudado”, pondera a oncologista clínica.

Embora o transplante de pâncreas seja uma opção para os pacientes com diabetes que têm complicações graves, ele não está disponível como tratamento contra o câncer. Isso porque essa cirurgia exige o uso de medicamentos de inibem o sistema imunológico — que, num paciente com esse tumor, fariam as células cancerosas se espalharem mais rapidamente para outras partes do corpo.

Se as perspectivas terapêuticas contra o câncer de pâncreas evoluem, as orientações para prevenir a doença continuam as mesmas.

“A nossa principal recomendação para evitar uma doença dessas é buscar hábitos de vida saudáveis”, sugere Rocha.

“Isso inclui manter um peso adequado, uma alimentação baseada em fontes vegetais e com pouca gordura saturada, praticar atividade física e evitar o tabagismo”, conclui o médico.

 

https://www.bbc.com/portuguese/articles/c0jl1w5xeppo

domingo, 28 de agosto de 2022

Cientistas descobrem mecanismo que pode impedir a metástase do câncer de pâncreas

 

Câncer no pâncreas tem comportamento violento e é de difícil detecção

Estudo mostrou que o aumento de uma proteína nas células cancerígenas estimula a regressão dos tumores e diminui a sua periculosidade

  • SAÚDE Do R7
  • 14/07/2022 - 02H00 (ATUALIZADO EM 14/07/2022 - 08H15)

RESUMINDO A NOTÍCIA

  • Proteína chave ajuda a transformar as células cancerígenas do pâncreas em uma forma menos agressiva
  • Composto orgânico impede a metástase
  • Estudo mostra que é possível mudar estado da célula para um mais fácil de tratar
  • Pesquisa pode ser porta para novos medicamentos e tratamentos contra o câncer de pâncreas

 

Estudo recente publicado na Nature mostrou que o aumento dos níveis da proteína GREM1 nas células tumorais do câncer de pâncreas pode impedir que elas cresçam e causem metástase (espalhamento pelo corpo). 

De acordo com o Inca (Instituto Nacional de Câncer), o câncer de pâncreas tem um comportamento violento e é de difícil detecção. Por essa razão, é diagnosticado tardiamente e acumula uma alta taxa de mortalidade. No Brasil, o câncer nesse órgão é responsável por cerca de 2% de todos os diagnósticos da doença e por 4% de todas as mortes.

Pesquisadores do Instituto de Pesquisa do Câncer, em Londres, combinaram esforços para estudar o câncer de pâncreas em camundongos e em “minitumores” pancreáticos, chamados de organoides, para detalhar o gene que desativa a proteína GREM1 e, consequentemente, possibilita a metástase da doença.

https://noticias.r7.com/saude/cientistas-descobrem-mecanismo-que-pode-impedir-a-metastase-do-cancer-de-pancreas-14072022

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Novo tratamento para câncer de pâncreas começa a ser testado em humanos nos EUA


O câncer de pâncreas tem uma das mais altas taxas de mortalidade entre todos os tipos da doença. — Foto: Pixabay

Pesquisadores da Universidade de Utah combinaram dois medicamentos que tiveram efeito promissor contra a doença em testes de laboratório. O tumor no órgão é um dos mais letais: apenas 1 a cada 5 pacientes sobrevivem um ano depois do diagnóstico.
Por Lara Pinheiro, G1
05/03/2019 11h05  Atualizado há 2 meses

Cientistas da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, descobriram uma nova estratégia para tratar o câncer de pâncreas que já está sendo testada em humanos. O estudo sobre o tratamento, que é uma combinação de duas drogas ingeridas por via oral, foi publicado nesta segunda (4) na revista ‘Nature Medicine’.
As medicações agem de duas formas:
·         Elas impedem a ação anormal de um gene, o Kras, que ocorre em tumores no pâncreas. Os cientistas já sabiam que, quando ele tem uma mutação, acaba promovendo o crescimento e a divisão das células de forma anormal. Assim, o tumor cresce.
·         Os remédios atrapalham o processo de autofagia das células do tumor. A autofagia é um mecanismo no qual a célula “come” a si mesma para obter energia.
Os cientistas já sabiam que esses fatores ajudavam o tumor a crescer. Por isso, ambos os tipos de medicamento já haviam sido usados, individualmente, para combater o câncer de pâncreas, mas sem resultado. A novidade é que os pesquisadores perceberam que, quando combinados, eles têm efeito para combater o tumor.
“Nós conseguimos observar que a combinação dessas duas drogas — que, quando usadas individualmente, não têm muito impacto na doença — parece ter um impacto muito potente no crescimento do tumor. Nós observamos isso em culturas de células no laboratório, em modelos com ratos e, agora, em um paciente com câncer de pâncreas — em menos de dois anos. É uma linha do tempo raramente vista na medicina”, afirmou o pesquisador Martin McMahon, um dos autores do estudo.
O primeiro paciente que testou os medicamentos acabou não resistindo à doença, mas respondeu bem ao tratamento, segundo outro cientista que participou da pesquisa.
“O paciente tinha feito cirurgia e várias doses de quimioterapia antes dessa combinação. Apesar de ter falecido, respondeu de forma notável a essas drogas por vários meses”, explicou Conan Kinsey. Ele disse, ainda, que os resultados da combinação precisam ser avaliados em estudos clínicos (em humanos) para descobrir se é possível conseguir bons resultados em outras pessoas.
Os testes desse tipo já estão sendo conduzidos na Universidade do Texas e têm previsão de acontecer na Universidade da Califórnia em San Francisco e na Universidade de Columbia, em Nova York.
Alta mortalidade
O câncer de pâncreas é uma das formas mais letais da doença. Apenas 20 a cada 100 (ou 1 a cada 5) pacientes com o tumor continuam vivos um ano depois do diagnóstico. Cinco anos depois da detecção da doença, esse número cai para 7 a cada 100, segundo a Sociedade Americana do Câncer.
De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), essa alta taxa de mortalidade acontece por conta do diagnóstico tardio.
Para Axel Behrens, que estuda a relação entre câncer e células-tronco no Instituto Francis Crick, em Londres, esse atraso na detecção se dá por alguns fatores, como a facilidade de metástase da doença, a ausência de sintomas iniciais e a falta de marcadores no sangue — como há no câncer de próstata, por exemplo.
"O problema é que, muito frequentemente, no momento do diagnóstico o paciente apresenta metástase. O pâncreas é um órgão muito vascularizado, então é muito fácil para o câncer ir para o fígado, porque existem muitos dutos que levam até lá — e aí há metástase. Além disso, o câncer é, por um longo tempo, assintomático: a pessoa tem o tumor, mas se sente bem. Só quando ele fica muito grande a pessoa começa a se sentir mal e sentir dor. E não existe um marcador diagnóstico que pode ser usado para detectar uma doença assintomática", explica Behrens, que não participou do estudo.
O Inca também não recomenda o rastreamento rotineiro da doença, por não haver evidência de que ele traz benefícios, mas recomenda investigar sintomas como pele amarela (icterícia), urina escura, cansaço, perda de apetite e peso e dor em abdômen superior e costas.
Reforço
A pesquisa na Universidade de Utah foi reforçada por um outro estudo, separado, também publicado nesta segunda (4) na mesma revista. Cientistas da Universidade da Carolina do Norte chegaram a conclusões semelhantes sobre o papel do gene Kras e da autofagia no crescimento do adenocarcinoma, tipo mais comum do câncer do pâncreas.
Primeiro, descobriram que bloquear a ação anormal do gene aumentava a dependência da célula na autofagia — ou seja, com o Kras bloqueado, ela passava a “comer a si mesma” mais do que o normal. Depois, eles bloquearam a própria autofagia.
“A autofagia é um processo no qual células do câncer reciclam materiais, em vez de se livrar deles. O que nós descobrimos foi que, se você bloquear o caminho mais importante para a energia — a glicólise — a célula cancerígena começa a sofrer e começa a autofagia. Assim, o câncer se torna mais dependente da autofagia e mais sensível ao inibidor dela”, explicou Channing Der, um dos autores do estudo.
Os testes foram realizados tanto em células de camundongo quanto humanas, e devem começar a ser feitos em humanos, combinando dois medicamentos, na Universidade do Texas.
Marcadores genéticos
Um terceiro estudo, não relacionado e também publicado nesta segunda (4) em outra revista, por cientistas da Universidade de Pittsburgh, mostrou que, em 17% dos casos da doença, há um marcador genético que indica se o tumor pode ser tratado com quimioterapia que já existe.
Os pesquisadores caracterizaram o código genético de 3.594 amostras de tumor no órgão vindas de pacientes ao redor do mundo. Eles descobriram que há genes que predispõem uma família inteira a desenvolver a doença, como no caso do câncer de ovário.
Determinar o perfil de cada tumor pode ajudar a escolher a melhor forma de tratamento para cada caso. “As pessoas têm buscado esses marcadores por um longo tempo, e o nosso estudo mostra que é possível dividir os pacientes com câncer de pâncreas em categorias de tratamento diferentes”, explicou um dos autores da pesquisa, Nathan Bahary.