quarta-feira, 24 de junho de 2020

Covid-19 atrasou o tratamento de 43% dos pacientes com câncer Motivos vão de risco de contágio à priorização de pacientes, mas apenas aqueles com neoplasias hematológicas são considerados grupo de risco


Aline Chalet, do R7*
 24/06/2020 - 02h00


Doenças que afetam células sanguíneas, como leucemia, estão no grupo de risco

Cerca de 43% dos pacientes com câncer tiveram o tratamento impactado pela pandemia de covid-19, como cancelamento ou adiamento de procedimentos, segundo uma pesquisa online realizada pelo Instituto Oncoguia. Na região Norte, 63% dos participantes da pesquisa afirmaram ter tido impacto no tratamento. A região Sul foi a menos atingida, com 32% pacientes afetados.

A pesquisa foi realizada com 566 pacientes oncológicos e seus familiares, desses 429 estão em tratamento no momento.

Dos pacientes do SUS (Sistema Único de Saúde), 60% tiveram impacto no tratamento, contra 33% que utilizam serviço privado de saúde.

Entre esses 43%, os cancelamentos ou adiamentos de tratamentos ocorreram devido a decisões institucionais, ou seja, tomadas pelo hospital ou clínica. Os motivos fornecidos pelas instituições de saúde são: risco de contágio, priorização de pacientes, redução de equipe e impacto na infraestrutura.

Cerca de 12% dos pacientes tomaram a decisão por conta própria e 3% tomou a decisão em conjunto com o médico.

"O ideal seria a personalização dessa fase, ou seja, que médico e paciente determinassem juntos a melhor forma de continuar realizando o tratamento minimizando ao máximo os riscos em relação ao coronavírus", afirma Luciana Holtz, presidente do Instituto Oncoguia.

Dentre os pacientes que tiveram alterações em seus tratamentos após o início da quarentena, 34% fazem quimioterapia, 31% hormonioterapia, 9% radioterapia e 9% terapia-alvo.

Segundo o oncologista Rafael Kaliks, do Hospital Albert Einstein e diretor científico do Oncoguia, a conversa com o médico é fundamental para o tratamento oncológico não ser prejudicado. “Existem exames, consultas e até cirurgias que podem ser adiados por algum tempo, mas isso tem que ser uma decisão médica após a avaliação de cada caso individualmente.”

A pesquisa mostrou que 70% dos pacientes oncológicos se consideram grupo de risco para a covid-19.

Segundo Kaliks, dos pacientes com câncer, apenas os que apresentam neoplasias hematológicas (doenças que afetam as células sanguíneas como leucemias e linfomas), que passaram por transplante de medula óssea e que estão em tratamento com quimioterapia são considerados de grupo de risco.

Os pacientes que possuem outras doenças associadas como diabetes e doenças do coração também são do grupo de risco.

“Pacientes oncológicos que trataram um câncer e estão apenas em acompanhamento não são considerados imunodeprimidos e ex-pacientes oncológicos que estão sem evidência de câncer e que não estão em tratamento oncológico têm o risco aproximado de uma pessoa da mesma idade que não teve câncer."

Segundo dados da pesquisa, 52% dos pacientes sentiram impacto da pandemia de coronavírus na área emocional de suas vidas, 46% na área social, 33% na saúde e 32% na área financeira.

"A área emocional já é a mais afetada diante do câncer e curiosamente temos isso novamente diante da covid-19. Os pacientes estão sim muito mais frágeis e inseguros diante dessa doença que, além de tudo, também impede o contato, as relações e os abraços tão necessários para o enfrentamento do câncer", completa Luciana.

*Estagiária do R7 sob supervisão de Deborah Giannini
https://noticias.r7.com/saude/covid-19-atrasou-o-tratamento-de-43-dos-pacientes-com-cancer-24062020

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Pandemia de coronavírus provoca redução de até 90% de outros exames no Brasil


Estimativa é de que 50 mil pessoas deveriam ter sido diagnosticadas com câncer em um mês. Mas, com a falta de atendimento e a queda no número de biópsias, não descobriram a doença.
Por TV Globo
14/05/2020
Um levantamento das Sociedades Brasileiras de Cirurgia Oncológica e de Patologia mostram que, por causa da pandemia do novo coronavírus, houve redução de até 90% de exames que deveriam ser oferecidos em hospitais. Pacientes oncológicos, gestantes e doentes crônicos não estão sendo atendidos.
De 11 de março a 11 de maio de 2020, pelo menos 50 mil brasileiros deixaram de ser diagnosticados com câncer por falta de exames, segundo os órgãos. Nessas semanas, na cidade de São Paulo, foram feitas 5.940 biópsias na rede pública. No mesmo período do ano passado, foram 22.680.
A mesma redução é observada em um centro de referência em saúde do Ceará: o número de biópsias caiu de cerca de 18 mil, em 2019, para menos de 5 mil, em 2020.
Segundo Clovis Klock, médico da Sociedade Brasileira de Patologia, o diagnóstico tardio provocado pela redução do número de exames pode prejudicar não só a saúde do paciente, mas também a economia, já que tratamentos mais complexos e caros serão necessários futuramente.
Além da questão oncológica, consultas para gestantes estão sendo canceladas, por causa da pandemia. A dona de casa Karina Picoli teve o bebê há 5 meses - e, até agora, não conseguiu fazer o acompanhamento do pós-parto. "Tinha consulta agendada com ginecologista e clínico geral em abril, mas, quando estava próximo da consulta, ligaram e cancelaram", diz.
A secretaria municipal de saúde de São Paulo afirma que apenas as cirurgias eletivas devem ser desmarcadas. De acordo com o secretário Edson Aparecido, as unidades de saúde que não estão atendendo a população serão cobradas para que mantenham seus serviços.


segunda-feira, 6 de abril de 2020

Como os pacientes com câncer devem agir diante do coronavírus

A colaboração de todos é vital para preservar quem está no grupo de risco do coronavírus, caso dos pacientes oncológicos, e aliviar o sistema de saúde
Por Dra. Clarissa Mathias, oncologista*
access_time30 mar 2020, 17h40 - Publicado em 30 mar 2020, 12h35
Não saia de casa desnecessariamente. Evite multidões. Lave as mãos e punhos por mais de 30 segundos. Use álcool em gel. Cubra com o antebraço o nariz e a boca ao tossir ou espirrar. Se for extremamente necessário sair, não cumprimente as pessoas como de costume: nada de aperto de mão ou beijo no rosto. Mantenha distância das pessoas.
Com a rápida disseminação da Covid-19, doença relacionada ao coronavírus (Sars-CoV-2), todo mundo já decorou essas recomendações. Então, o que a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) pode acrescentar de relevante para a população?
Visto que os pacientes oncológicos costumam ter queda na imunidade devido à doença ou por causa dos tratamentos aos quais são submetidos (quimioterapia, radioterapia, uso de corticoides, entre outros), é indispensável manter o cuidado redobrado durante esse momento. Uma pessoa que contrair o coronavírus tem maior risco de sofrer complicações se estiver enfrentando um tumor.
Como parte do compromisso da SBOC em promover e ampliar o bem-estar dos pacientes com câncer, o ponto mais crucial a se destacar é que todos eles conversem com sua equipe médica sobre como prosseguir com o tratamento.
Em casos específicos, o número de atendimento presenciais pode ser reduzido. Uma consulta de seguimento (que serve para acompanhar a evolução da pessoa e do tratamento) pode ser reagendada. O mesmo vale para as consultas de hormonioterapia, voltadas para tumores de mama e próstata. Assim, o paciente circula menos, ficando menos suscetível à infecção pelo Sars-CoV-2.
O que deve ser mantido normalmente são as consultas para indivíduos em tratamento com quimioterapia. Já pacientes que estejam com quadro sintomático de coronavírus precisam de auxílio médico para definir a urgência do tratamento contra o câncer.
Fazendo um recorte, a maior probabilidade de complicações por Covid-19 é entre os portadores de cânceres no sangue (leucemias, linfomas e mieloma múltiplo) que passaram por transplante de medula óssea ou estão em tratamento com quimioterapia. Porém, adotando as medidas preventivas listadas abaixo, os riscos associados ao coronavírus diminuem significativamente.
Aos pacientes com câncer ou em acompanhamento:
·         Não interrompa seu tratamento oncológico
·         Caso haja suspeita de infecção, a consulta deve ser priorizada e o paciente, enquanto aguarda, precisa usar máscara cirúrgica e ficar em ambiente arejado
·         Se estiver na fase de seguimento, contate sua equipe médica para avaliar se é seguro adiar seus retornos para um período com menor disseminação do coronavírus
·         Evite contato com qualquer pessoa que tenha sintomas gripais, que esteja em investigação para possível infecção Covid-19, ou que tenha chegado do exterior (com ou sem sintomas gripais)
·         Se apresentar quadros como, febre, coriza, tosse seca, falta de ar, contate seu médico
·         Permaneça somente o tempo necessário em ambiente de clínicas e hospitais. Dentro do possível, evite contato físico direto, mesmo com o seu médico e a equipe de saúde
·         Só leve, no máximo, um acompanhante para um centro de tratamento oncológico. Essa pessoa não pode apresentar qualquer sintoma respiratório ou febre
·         Restrinja visitas hospitalares ao que for estritamente necessário

https://saude.abril.com.br/blog/cancer-em-pauta/pacientes-cancer-coronavirus/

Coronavirus: recomendações aos pacientes com câncer


INCA contra coronavírus
Instituto toma medidas duras, mas necessárias, para garantir a integridade de pacientes, familiares e servidores durante a pandemia

Publicado: 16/03/2020 | 16h24
Última modificação: 17/03/2020 | 16h31
A pessoa com câncer é mais propensa a desenvolver sintomas graves caso seja contaminada pelo novo coronavírus (Covid-19), classificado pela Organização Mundial da Saúde, como pandemia. Por isso, o INCA teve que tomar medidas duras, temporariamente, para reduzir a velocidade de propagação do vírus por meio da redução de circulação de pessoas em suas unidades.
Os pacientes internados com acompanhante não podem mais receber visita. Aqueles que não têm acompanhante poderão receber apenas uma visita por dia. Durante os atendimentos ambulatoriais, o paciente, mesmo o pediátrico, só poderá estar acompanhado de uma pessoa. Todas as consultas de controle dos ambulatórios dos próximos 30 dias serão desmarcadas e reagendadas futuramente. Nesse período, novas consultas não serão agendadas. As visitas a pacientes no CTI estão suspensas. Para impedir a concentração de pessoas, o horário de visita será restrito.
Os exames de imagem do radiodiagnóstico, assim como os exames laboratoriais de rotina e os exames eletivos da endoscopia digestiva, colonoscopia e broncoscopia serão cancelados e reagendados posteriormente.
O INCA recomenda que pessoas com mais de 60 anos, por comporem a faixa etária mais sujeita a apresentar sintomas graves causados pelo coronavírus,  e crianças evitem fazer visitas aos pacientes internados. Há ainda a forte recomendação para que os acompanhantes sejam adultos com menos de 60 anos que não apresentem sinais da doença (os mais comuns são febre, cansaço e tosse seca; mas há casos de dores no corpo, coriza, congestão nasal, dor de garganta, diarreia e dificuldade para respirar). A distribuição de tíquetes de almoço para acompanhantes do ambulatório foi suspensa para reduzir o fluxo de pessoas nos refeitórios.  Acompanhantes devem evitar ao  máximo possível os revezamentos.
Eventos internos do Instituto também estão suspensos por tempo indeterminado assim como os cursos presenciais de curta duração (atualização e aperfeiçoamento). Da mesma forma, as atividades de voluntariado dentro das unidades hospitalares serão restritas.
Preventivamente, é importante seguir as recomendações do Ministério da Saúde. As principais são: lavar as mãos com água e sabão, na sua ausência, usar álcool em gel; cobrir nariz e boca com lenço ao tossir ou espirrar – quem  não o tiver, deve usar o antebraço como barreira, e não as mãos, para evitar tocar em locais que possam contaminar outras pessoas; evitar aglomerações; manter os ambientes bem ventilados; e não compartilhar objetos pessoais.

Coronavírus, COVID-19 e câncer: o que sabemos até o momento?
Recomendação do Centro de Oncologia Lydia Wong Ling para os pacientes com câncer em tratamento no Hospital Moinhos de Vento
O mais recente coronavírus identificado, um beta-coronavírus do tipo RNA, causa a infecção chamada de Coronavírus Disease 2019, ou COVID-19. Na literatura médica, também pode-se encontrar a doença denominada de síndrome respiratória aguda do coronavírus 2, e o nome do vírus como SARS-CoV-2. Pessoas com hipertensão arterial sistêmica, diabete mélito, doença cardíaca, doença pulmonar, câncer e outras condições que causem diminuição da imunidade tem maior risco de desenvolver a forma mais grave da infecção.
Sintomas da COVID-19: o mais comum é ocorrer febre, cansaço e tosse seca; os sintomas geralmente são leves e iniciam gradualmente. Pode haver também dores no corpo, congestão nasal, nariz correndo, dor de garganta e diarreia. Na maioria dos casos (80%), há recuperação espontânea da pessoa infectada, sem necessidade de tratamento especial. Quando houver febre, tosse e dificuldade de respirar, o paciente deve procurar atendimento hospitalar; os demais casos não devem ser tratados no hospital, mas sim, mantidos em casa até recuperação.
Como a COVID-19 se espalha:
·         contato de pessoa a pessoa: por gotículas do nariz (espirros, nariz correndo) e boca (tosse, respiração com gotículas);
·         superfícies com as gotículas das pessoas infectadas (tocar e depois colocar a mão na boca, nos olhos ou no nariz).
Risco nos pacientes com câncer
Os pacientes com câncer em tratamento oncológico parecem ter maior risco de infecção grave, embora o número de casos de infecções nesses pacientes seja pequeno. A frequência de pacientes com câncer e COVID-19 varia de 0,9% a 1% na literatura. Recomenda-se que todos os pacientes oncológicos em tratamento tenham cuidado redobrado para não adquirir a infecção, evitando contato com pessoas com sintomas e com pessoas que tenham viajado para áreas com a epidemia, evitando viagens desnecessárias e também locais com aglomerações de pessoas. Atenção: os pacientes não devem interromper seu tratamento oncológico!
Como se proteger da infecção:
·         primeira e mais importante medida: LAVAR AS MÃOS frequentemente com água e sabão ou higienizar com álcool-gel – essas 2 medidas simples matam os vírus que estiverem em suas mãos;
·         manter pelo menos 1 metro de distância das pessoas, de uma forma geral (especialmente das que estiverem tossindo e espirrando, pois pode haver partículas virais nas gotículas provenientes da tosse e do espirro de pessoas infectadas);
·         evitar tocar nas mucosas dos olhos, do nariz e da boca (nossas mãos podem tocar em superfícies infectadas pelo vírus e levar as partículas virais para nossas mucosas; a partir daí, o vírus pode entrar no nosso organismo);
·         seguir uma adequada higiene respiratória: ao tossir e/ou espirrar, cobrir sua boca e nariz com seu braço ou antebraço (e não com suas mãos); após usar lenços de papel para limpar as secreções do nariz e da boca, colocá-los imediatamente no lixo;
·         ficar em casa se não estiver se sentindo bem, mesmo que os sintomas sejam leves, como dor de cabeça, febre baixa e nariz correndo (para não contaminar outras pessoas, caso você esteja com o vírus);
·         evitar viajar para ou frequentar locais onde há casos de COVID-19;
·         buscar informação em fontes confiáveis – não espalhar nem acreditar em notícias falsas (fake news).

Recomendações para os pacientes com câncer no Hospital Moinhos de Vento:
·         Não se recomenda adiar tratamentos oncológicos já em curso;
·         Quem já terminou o tratamento oncológico há mais de 1 mês deverá ter os mesmos cuidados que a população em geral, lembrando dos grupos de risco citados no texto acima;
·         Quem tem consulta de revisão de rotina agendada deve falar com sua equipe médica para avaliar se a consulta pode ser postergada.
No Hospital Moinhos de Vento, os serviços de quimioterapia e radioterapia estão considerando a necessidade de ajustes na sua rotina para maximizar a segurança dos pacientes, sempre discutindo caso a caso, à semelhança do que está ocorrendo em todo o hospital. Estamos trabalhando bem próximos ao Serviço de Controle de Infecção e recebendo informações atualizadas diariamente, sobre a repercussão do COVID-19 no nosso meio.


quarta-feira, 25 de março de 2020

Mapeamento do genoma do câncer pode abrir portas nas áreas de prevenção, diagnóstico e tratamento


Trata-se de um primeiro passo para, no futuro, transformar o câncer em uma doença crônica, controlável com medicação, analisa médico da Santa Casa
06/02/2020 - 15h47min
Camila Kosachenco

Anunciado como a maior análise do genoma do câncer feita até hoje, o Pan-Cancer Analysis of Whole Genomes (PCAWG) project, ou apenas Pan-Cancer, é visto por especialistas como um passo importante no desenvolvimento de novas terapias para um melhor controle da doença. Hoje, o câncer mata mais de 8 milhões de pessoa por ano em todo o mundo, conforme a Organização Mundial de Saúde (OMS), e a tendência é de que esses números se multipliquem nos próximos anos.

Para elucidar os segredos dessa doença, o Pan-Cancer reuniu 1,3 mil pesquisadores e analisou 2,6 mil tumores, totalizando 38 tipos de câncer ao longo de uma década. Com isso, conseguiu mapear o genoma dos tumores e apontar como falhas no DNA podem levar ao desenvolvimento da doença.

Maior estudo genético sobre câncer revela como os tumores se formam
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Como uma doença genética, o câncer cria uma espécie de "competição" no organismo, fazendo com que as células com algumas mutações se tornem mais aptas à sobrevivência do que as células normais. Assim, se proliferam mais e acabam crescendo.

— Essa foi a primeira vez que conseguiram mapear esses genes de maneira sistemática, usando a mesma metodologia. Mais: eles tentaram identificar as chamadas "driver mutations", que são mutações do DNA de genes específicos que levam o tumor a ter "vantagens" em relação às células normais do organismo. Simplificando: se o desenvolvimento do câncer estivesse ligado a várias chaves, essa estaria ligada e seria a alteração celular que daria vantagem de crescimento, por exemplo, para a evolução do câncer — explica o oncologista Rafael José Vargas Alves, do Grupo Oncoclínicas e do Hospital Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.

Mesmo que não tenha aplicação terapêutica concreta no curto prazo, as lições teóricas do artigo são numerosas: melhor conhecimento das mutações genéticas que provocam a multiplicação das células cancerígenas, similaridades às vezes surpreendentes entre diferentes tipos de câncer, ou variedade extrema de tumores de um indivíduo para outro.

  O conhecimento acumulado sobre a origem e evolução dos tumores pode permitir o desenvolvimento de novas ferramentas para detectar cânceres mais cedo, bem como terapias mais direcionadas, a fim de tratar os pacientes com mais eficácia — espera Lincoln Stein, um dos cientistas que lideraram o projeto, em uma declaração do Instituto de Ontário para Pesquisa do Câncer (Canadá).

Outro destaque do estudo é a grande variedade de genomas para tumores cancerígenos, explica à AFP outro cientista envolvido no projeto, Peter Campbell, do Instituto Wellcome Sanger.

— A descoberta mais impressionante é a diferença que pode haver entre o câncer de um paciente e o de outro — afirmou.

Isso se deve ao grande número de possíveis mutações genéticas para cada tumor, que às vezes podem depender de fatores ligados ao estilo de vida do paciente, como o tabagismo.

— Uma só mutação, às vezes, não é suficiente para desencadear o câncer, pois ela se inter-relaciona com diferentes genes, e o estudo mostrou melhor essa relação. Esses genes se manifestam de acordo com o comportamento: quem tem mutação em determinado gene tem maior probabilidade de ter a doença, porém há fatores conhecidos e desconhecidos que fazem o gatilho ser acionado — justifica Vargas.

Diagnóstico precoce
Outro ponto em destaque do artigo é o fato de que o processo de desenvolvimento de certos tipos de câncer pode começar anos antes do diagnóstico, às vezes até na infância.

— Isso mostra que a janela para intervenção precoce é muito maior do que pensávamos —  disse Campbell.

De acordo com Vargas, até o momento, se tinha apenas uma compreensão empírica desse processo.

— Hoje, por exemplo, para que uma pessoa fumante seja considerada livre do risco de câncer de pulmão ela precisa ficar abstinente por 15 anos. Isso porque algumas mutações induzidas pelo tabaco podem vir a se manifestar muito tempo depois, como um câncer — acrescenta o médico, que também é professor da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).

Cronificação
Ao conhecer com mais profundidade os tumores e seu processo de desenvolvimento, abrem-se portas para a criação de tratamentos mais precisos e assertivos. É o que os especialistas chamam de medicina personalizada. Carlos Eugênio Escovar, chefe do serviço de Oncologia e diretor médico do Hospital Santa Rita, unidade de câncer da Santa Casa, lembra que, atualmente, um paciente com diagnóstico da doença passa, geralmente, pela quimioterapia. A grande questão é que o tratamento atua sobre diversas células, as boas e as ruins.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

“O ideal é curar o câncer. O mais próximo disso é torná-lo crônico”


Pesquisadora de Barcelona, Teresa Macarulla está abrindo portas para tratamentos personalizados na luta contra o câncer de pâncreas, o mais letal de todos


Teresa Macarulla, no hospital Vall d’Hebron Institut d’Oncologia, em Barcelona, em julho último. JUAN BARBOSA

JESSICA MOUZO QUINTÁNS - El País
04 AUG 2019 - 19:00BRT

A odisseia do câncer que se espalhou pelo mundo com cães de marinheiros

“As pessoas resistem à ideia, mas a vida é só química”, diz vencedor do Nobel
Teresa Macarulla (Barcelona, 1974) acaba de participar de um ensaio clínico que lançou luz sobre o câncer mais letal de todos, o de pâncreas. A pesquisa, apresentada neste ano no congresso anual da Sociedade Americana de Oncologia Médica (ASCO), em Chicago, abre as portas para a medicina personalizada nestes tumores tão agressivos. O estudo validou, pela primeira vez, um tratamento teleguiado neste tipo de tumores para um subgrupo de pacientes que têm uma mutação específica (nos genes BRCA): como terapia de manutenção depois da quimioterapia inicial, este fármaco melhora a sobrevivência.

O quartel-general da luta contra o câncer onde Macarulla trabalha se ergue nos contrafortes da serra da Collserola, em Barcelona. Das trincheiras de seu escritório no Vall d’Hebron Institut d’Oncologia, com a cidade a seus pés e o Mediterrâneo ao fundo, a doutora Macarulla visita pacientes, analisa prontuários clínicos, procura bolsas para novos projetos e prepara ensaios. Sempre há algo a fazer. Principalmente quando sua especialidade, os tumores gastrointestinais, aglutina algumas das neoplasias com pior prognóstico, e os recursos para pesquisá-las escasseiam. Contudo, o câncer não para, e a oncologista tampouco pode parar, admite. A montanha e a igreja são seus pontos de recarga.

Pergunta. O câncer corre mais que vocês, os pesquisadores?

Resposta. Acho que não. Se o câncer avança, não o podemos parar, então o que tentamos com cada paciente é nos antecipar com os tratamentos e freá-lo, pará-lo. Tentamos estar à frente, mas o tumor corre, e às vezes custa.

P. Por que a pesquisa de que você participou é importante?

R. Pela primeira vez encontramos um tratamento personalizado para um câncer que até agora só se tratava com quimioterapia. Os pacientes com uma mutação BRCA1 e BRCA2 pela primeira vez contam com um fármaco para eles que, além disso, tem menos efeitos secundários que a químio.

P. Você é dos que acreditam que o câncer será curado ou se tornará crônico?

R. Haverá mais pacientes que serão curados do câncer. Mas dizer que o câncer globalmente se curará me parece um ideal. Acredito que o mais próximo que temos é poder chegar a torná-lo crônico. O que é preciso é ter objetivos alcançáveis.

Centramo-nos no que sabemos: não fumar, comer bem…, mas isto não nos assegura que não vamos ter câncer. E, se tivermos, então a natureza nos pregou uma peça
P. Qual é o caminho para isso?

R. A medicina de precisão. É mais difícil, pelos custos e recursos, encontrar as alterações que o paciente carrega em seus genes. Mas é para isso que nos encaminhamos: nem todos os pacientes são iguais e não podemos tratar todos igualmente.

P. É sustentável a medicina de precisão?

R. Esse é o problema. Provavelmente será preciso fazer um investimento superior no diagnóstico, porque é preciso somar toda a parte de diagnóstico molecular. E direcionamos o tratamento para um nicho menor, sim, mas temos maiores chances de sucesso.

P. A Sociedade Europeia de Oncologia Médica defende o pagamento dos fármacos segundo os resultados obtidos no paciente.

R. É uma boa opção tentar intercalar estas medidas que tornam o sistema mais sustentável. E isto envolve a indústria farmacêutica também. O que queremos, afinal, é que todos os nossos pacientes tenham disponibilidade de fármacos.

P. O código postal influi no prognóstico do paciente?

R. Muito. Na Espanha, cada comunidade [região] decide se um fármaco deve ou não ser aprovado. A equidade não é homogênea.

P. Faltam recursos?

R. Se tivéssemos mais, tudo seria mais fácil. Para o pâncreas, destina-se muito pouco ainda.

P. Ezequiel Emanuel, um dos artífices do Obamacare, diz que não quer viver além dos 75 anos. Rejeita prolongar a vida “porque sim”. Com uma maior sobrevivência ao câncer, estamos desafiando a natureza?

R. Acho que não. E também a natureza está nos pregando peças. Quando vejo essa gente tão jovem com essas enfermidades, não entendo. Não deu tempo de acumular toxicidade e, mesmo assim, eles têm estes tumores. Tem muitas coisas que nós não controlamos ainda. Centramo-nos no que sabemos: não fumar, comer bem…, mas isto não nos assegura que não vamos ter câncer. E, se tivermos, então a natureza nos pregou uma peça.

P. Há pacientes que decidem deixar de lutar e que não querem sofrer mais. O que opina da eutanásia?

R. Minha mentalidade é a de lutar enquanto se puder, gastar todos os cartuchos. E, depois, uma boa paliação, um bom acompanhamento. Daí para frente, não é trabalho do médico poder acabar com uma vida. Defendo que se possa acompanhar até o final, não além. Eu acabar com uma vida é algo que não poderia fazer por minhas crenças, porque me dizem que não é minha responsabilidade.

P. Você não se atreveria?

R. Não é que não me atreva, é que não estou de acordo. Acredito que não somos ninguém para antecipar a morte de uma pessoa. É preciso acompanhá-la e, para isso, lhe dar fármacos que inclusive podem abreviar um pouco a vida do paciente, porque podem causar uma pequena depressão respiratória, mas isto é diferente de que você ativamente acabe com a vida de um paciente. Tudo bem que um paciente peça e que haja um grupo de médicos que faça, mas eu não poderia participar disso.

P. Como concilia a ciência e a fé?

R. É muito compatível. A mentalidade científica tem que estar presente, porque é a única forma de vencer esta doença. A religiosidade é o que me permite empatizar com o doente, dá um pouco de sentido a minha profissão. A fé me ajuda a entender a vida, a morte, e que andam juntas, que você nasce sabendo que morrerá. Cada oncologista tem que encontrar sua fonte de empatia. A minha é esta.

P. Ainda há mais homens que mulheres nesse universo. É mais difícil para vocês?

R. A medida que há mais mulheres nas faculdades de Medicina, isto vai mudando. Temos que acreditar, mas também é preciso que você esteja disposta. Precisa entender que, talvez, não esteja lá no aniversário do seu filho. Se quiser chegar ao topo, também é verdade que é uma questão de tempo.


sábado, 8 de fevereiro de 2020

Maconha aumenta em 36% risco de câncer de testículo, alerta estudo

O impacto pode afetar a produção de espermatozoides
Por Redação - Atualizado em 2 dez 2019, 15h11 - Publicado em 2 dez 2019, 12h37

O uso da maconha está associado a tumores de células germinativas testiculares. David Bebber/Reuters/VEJA

Homens que fumam maconha regularmente apresentam maior risco de desenvolver câncer de testículo, de acordo com uma revisão de estudos publicada na semana passada no Journal of the American Medical Association. A pesquisa indica que o consumo a longo prazo pode aumentar em até 36% o risco de desenvolver câncer testicular em comparação com aqueles que nunca utilizaram maconha.
“O uso regular de maconha está associado ao desenvolvimento de tumores de células germinativas testiculares (que dão origem aos espermatozoides)”, explicaram os pesquisadores no estudo. A maconha, portanto, pode afetar a produção de espermatozoides. Eles ainda analisaram a relação entre outros tipos de câncer e a maconha, mas disseram que as evidências eram insuficientes para confirmar essa associação.
Câncer de testículo
O câncer testicular é caracterizado pelo aparecimento de nódulos no testículo ou mudanças no tamanho do saco escrotal sem a presença de dor. Outros sintomas associados ao câncer de testículo, incluem: diferença na textura ou tamanho de um testículo para o outro, sensação de peso na região e, em alguns casos, dor intensa. Vale ressaltar que às vezes esses sintomas podem não estar relacionado ao câncer, mas é importante procurar um especialista para identificar o problema.
 Os tumores testiculares correspondem a 5% do total de casos de câncer entre homens, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca). Apesar de raro, o problema afeta principalmente homens em idade reprodutiva (15 a 49 anos) – sendo que metade dos pacientes tem menos de 35 anos. Especialistas ainda destacam que o câncer de testículo é mais comum em homens brancos.
De acordo com o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, a doença é um dos tipos mais tratáveis de câncer e com boas perspectivas de recuperação. Por isso, a qualquer sintoma suspeito, os homens devem procurar o médico, pois o diagnóstico precoce melhora consideravelmente as chances de cura.