sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

“O ideal é curar o câncer. O mais próximo disso é torná-lo crônico”


Pesquisadora de Barcelona, Teresa Macarulla está abrindo portas para tratamentos personalizados na luta contra o câncer de pâncreas, o mais letal de todos


Teresa Macarulla, no hospital Vall d’Hebron Institut d’Oncologia, em Barcelona, em julho último. JUAN BARBOSA

JESSICA MOUZO QUINTÁNS - El País
04 AUG 2019 - 19:00BRT

A odisseia do câncer que se espalhou pelo mundo com cães de marinheiros

“As pessoas resistem à ideia, mas a vida é só química”, diz vencedor do Nobel
Teresa Macarulla (Barcelona, 1974) acaba de participar de um ensaio clínico que lançou luz sobre o câncer mais letal de todos, o de pâncreas. A pesquisa, apresentada neste ano no congresso anual da Sociedade Americana de Oncologia Médica (ASCO), em Chicago, abre as portas para a medicina personalizada nestes tumores tão agressivos. O estudo validou, pela primeira vez, um tratamento teleguiado neste tipo de tumores para um subgrupo de pacientes que têm uma mutação específica (nos genes BRCA): como terapia de manutenção depois da quimioterapia inicial, este fármaco melhora a sobrevivência.

O quartel-general da luta contra o câncer onde Macarulla trabalha se ergue nos contrafortes da serra da Collserola, em Barcelona. Das trincheiras de seu escritório no Vall d’Hebron Institut d’Oncologia, com a cidade a seus pés e o Mediterrâneo ao fundo, a doutora Macarulla visita pacientes, analisa prontuários clínicos, procura bolsas para novos projetos e prepara ensaios. Sempre há algo a fazer. Principalmente quando sua especialidade, os tumores gastrointestinais, aglutina algumas das neoplasias com pior prognóstico, e os recursos para pesquisá-las escasseiam. Contudo, o câncer não para, e a oncologista tampouco pode parar, admite. A montanha e a igreja são seus pontos de recarga.

Pergunta. O câncer corre mais que vocês, os pesquisadores?

Resposta. Acho que não. Se o câncer avança, não o podemos parar, então o que tentamos com cada paciente é nos antecipar com os tratamentos e freá-lo, pará-lo. Tentamos estar à frente, mas o tumor corre, e às vezes custa.

P. Por que a pesquisa de que você participou é importante?

R. Pela primeira vez encontramos um tratamento personalizado para um câncer que até agora só se tratava com quimioterapia. Os pacientes com uma mutação BRCA1 e BRCA2 pela primeira vez contam com um fármaco para eles que, além disso, tem menos efeitos secundários que a químio.

P. Você é dos que acreditam que o câncer será curado ou se tornará crônico?

R. Haverá mais pacientes que serão curados do câncer. Mas dizer que o câncer globalmente se curará me parece um ideal. Acredito que o mais próximo que temos é poder chegar a torná-lo crônico. O que é preciso é ter objetivos alcançáveis.

Centramo-nos no que sabemos: não fumar, comer bem…, mas isto não nos assegura que não vamos ter câncer. E, se tivermos, então a natureza nos pregou uma peça
P. Qual é o caminho para isso?

R. A medicina de precisão. É mais difícil, pelos custos e recursos, encontrar as alterações que o paciente carrega em seus genes. Mas é para isso que nos encaminhamos: nem todos os pacientes são iguais e não podemos tratar todos igualmente.

P. É sustentável a medicina de precisão?

R. Esse é o problema. Provavelmente será preciso fazer um investimento superior no diagnóstico, porque é preciso somar toda a parte de diagnóstico molecular. E direcionamos o tratamento para um nicho menor, sim, mas temos maiores chances de sucesso.

P. A Sociedade Europeia de Oncologia Médica defende o pagamento dos fármacos segundo os resultados obtidos no paciente.

R. É uma boa opção tentar intercalar estas medidas que tornam o sistema mais sustentável. E isto envolve a indústria farmacêutica também. O que queremos, afinal, é que todos os nossos pacientes tenham disponibilidade de fármacos.

P. O código postal influi no prognóstico do paciente?

R. Muito. Na Espanha, cada comunidade [região] decide se um fármaco deve ou não ser aprovado. A equidade não é homogênea.

P. Faltam recursos?

R. Se tivéssemos mais, tudo seria mais fácil. Para o pâncreas, destina-se muito pouco ainda.

P. Ezequiel Emanuel, um dos artífices do Obamacare, diz que não quer viver além dos 75 anos. Rejeita prolongar a vida “porque sim”. Com uma maior sobrevivência ao câncer, estamos desafiando a natureza?

R. Acho que não. E também a natureza está nos pregando peças. Quando vejo essa gente tão jovem com essas enfermidades, não entendo. Não deu tempo de acumular toxicidade e, mesmo assim, eles têm estes tumores. Tem muitas coisas que nós não controlamos ainda. Centramo-nos no que sabemos: não fumar, comer bem…, mas isto não nos assegura que não vamos ter câncer. E, se tivermos, então a natureza nos pregou uma peça.

P. Há pacientes que decidem deixar de lutar e que não querem sofrer mais. O que opina da eutanásia?

R. Minha mentalidade é a de lutar enquanto se puder, gastar todos os cartuchos. E, depois, uma boa paliação, um bom acompanhamento. Daí para frente, não é trabalho do médico poder acabar com uma vida. Defendo que se possa acompanhar até o final, não além. Eu acabar com uma vida é algo que não poderia fazer por minhas crenças, porque me dizem que não é minha responsabilidade.

P. Você não se atreveria?

R. Não é que não me atreva, é que não estou de acordo. Acredito que não somos ninguém para antecipar a morte de uma pessoa. É preciso acompanhá-la e, para isso, lhe dar fármacos que inclusive podem abreviar um pouco a vida do paciente, porque podem causar uma pequena depressão respiratória, mas isto é diferente de que você ativamente acabe com a vida de um paciente. Tudo bem que um paciente peça e que haja um grupo de médicos que faça, mas eu não poderia participar disso.

P. Como concilia a ciência e a fé?

R. É muito compatível. A mentalidade científica tem que estar presente, porque é a única forma de vencer esta doença. A religiosidade é o que me permite empatizar com o doente, dá um pouco de sentido a minha profissão. A fé me ajuda a entender a vida, a morte, e que andam juntas, que você nasce sabendo que morrerá. Cada oncologista tem que encontrar sua fonte de empatia. A minha é esta.

P. Ainda há mais homens que mulheres nesse universo. É mais difícil para vocês?

R. A medida que há mais mulheres nas faculdades de Medicina, isto vai mudando. Temos que acreditar, mas também é preciso que você esteja disposta. Precisa entender que, talvez, não esteja lá no aniversário do seu filho. Se quiser chegar ao topo, também é verdade que é uma questão de tempo.


sábado, 8 de fevereiro de 2020

Maconha aumenta em 36% risco de câncer de testículo, alerta estudo

O impacto pode afetar a produção de espermatozoides
Por Redação - Atualizado em 2 dez 2019, 15h11 - Publicado em 2 dez 2019, 12h37

O uso da maconha está associado a tumores de células germinativas testiculares. David Bebber/Reuters/VEJA

Homens que fumam maconha regularmente apresentam maior risco de desenvolver câncer de testículo, de acordo com uma revisão de estudos publicada na semana passada no Journal of the American Medical Association. A pesquisa indica que o consumo a longo prazo pode aumentar em até 36% o risco de desenvolver câncer testicular em comparação com aqueles que nunca utilizaram maconha.
“O uso regular de maconha está associado ao desenvolvimento de tumores de células germinativas testiculares (que dão origem aos espermatozoides)”, explicaram os pesquisadores no estudo. A maconha, portanto, pode afetar a produção de espermatozoides. Eles ainda analisaram a relação entre outros tipos de câncer e a maconha, mas disseram que as evidências eram insuficientes para confirmar essa associação.
Câncer de testículo
O câncer testicular é caracterizado pelo aparecimento de nódulos no testículo ou mudanças no tamanho do saco escrotal sem a presença de dor. Outros sintomas associados ao câncer de testículo, incluem: diferença na textura ou tamanho de um testículo para o outro, sensação de peso na região e, em alguns casos, dor intensa. Vale ressaltar que às vezes esses sintomas podem não estar relacionado ao câncer, mas é importante procurar um especialista para identificar o problema.
 Os tumores testiculares correspondem a 5% do total de casos de câncer entre homens, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca). Apesar de raro, o problema afeta principalmente homens em idade reprodutiva (15 a 49 anos) – sendo que metade dos pacientes tem menos de 35 anos. Especialistas ainda destacam que o câncer de testículo é mais comum em homens brancos.
De acordo com o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, a doença é um dos tipos mais tratáveis de câncer e com boas perspectivas de recuperação. Por isso, a qualquer sintoma suspeito, os homens devem procurar o médico, pois o diagnóstico precoce melhora consideravelmente as chances de cura.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

A descoberta sobre o sistema imunológico que pode ajudar a combater todos os tipos de câncer



James Gallagher - @JamesTGallagherRepórter de ciência e saúde
 tratamento de diversos tipos de câncer
Uma recente descoberta sobre o nosso sistema imunológico pode se tornar uma arma para tratar todos os tipos de câncer.
Uma equipe de cientistas da Universidade de Cardiff, no País de Gales, desenvolveu um método em laboratório que destrói o câncer de próstata, mama, pulmão e outros tipos.
Os achados, divulgados na publicação científica Nature Immunology, ainda não foram testados em pacientes, mas têm um "enorme potencial", afirmam os pesquisadores.
Para especialistas que não participaram da pesquisa, ainda que o trabalho esteja num estágio inicial, ele é bastante promissor.
O que eles descobriram?
Nosso sistema imunológico é a defesa natural do corpo contra infecções, mas ele também ataca células cancerosas.
A equipe da Universidade de Cardiff estava em busca de maneiras novas e "não convencionais" de fazer com que o sistema imunológico atacasse naturalmente tumores.
Eles encontraram uma célula-T (ou linfócito T) com um novo tipo de "receptor" que identifica e ataca células cancerosas, ignorando as saudáveis.
A diferença nesta célula imunológica é que ela pode escanear o corpo em busca de ameaças que devem ser eliminadas e atacar uma ampla variedade de cânceres.
"Há uma possibilidade de que ele possa tratar todos os pacientes", afirmou o professor Andrew Sewell à BBC. "Antes ninguém acreditava que isso fosse possível."
Como ela funciona?
As células T têm "receptores" na superfície que permitem a elas "enxergar" em um nível químico.
Os pesquisadores da Universidade de Cardiff descobriram que a célula T e seu receptor podem encontrar e destruir uma gama de células cancerosas no pulmão, na pele, no sangue, no cólon, na mama, nos ossos, na próstata, no ovário, no rim e na coluna cervical.
E fazem isso deixando intocados os tecidos "normais".
ancerosas
O modo exato como que isso acontece ainda está sendo pesquisado.
Esse receptor da célula T em particular interage com uma molécula chamada MR1, presente na superfície de todas as células do corpo humano.
Acredita-se que a MR1 seja a responsável por sinalizar ao sistema imunológico o metabolismo disfuncional em curso dentro de uma célula cancerosa.
"Somos os primeiros a descrever a célula T que encontra o MR1 nas células cancerosas — isso não tinha sido feito antes, foi a primeira vez", disse à BBC o pesquisador Garry Dolton.
Por que essa descoberta é relevante?
Terapias com células T já existem e o desenvolvimento de imunoterapias contra o câncer tem sido um dos avanços mais empolgantes nesse campo.
O mais famoso exemplo é o chamado CAR-T, uma droga viva produzida por meio de engenharia genética em células T para procurarem e destruírem o câncer.
O CAR-T pode trazer resultados incríveis que levam alguns pacientes do estágio de doença terminal para a completa remissão.
Essa abordagem é, no entanto, extremamente específica e funciona com apenas um número limitado de cânceres onde há um alvo claro para treinar a "mira" das células T.



E também enfrenta dificuldades em combater "cânceres sólidos" — aqueles que formam tumores em vez de sangue canceroso como a leucemia.
Já os pesquisadores da Universidade de Cardiff afirmam que o receptor da célula T pode levar a um tratamento de câncer "universal".
Mas como isso funciona na prática?
A ideia é extrair uma amostra de sangue do paciente em tratamento contra o câncer.
As células T seriam extraídas e modificadas geneticamente a fim de reprogramá-las para constituir o receptor que encontra o câncer.
Essas células aperfeiçoadas seriam cultivadas em largas quantidades em laboratório e depois reinseridas no paciente. É o mesmo processo usado na terapia CAR-T.
No entanto, essa pesquisa da Universidade de Cardiff foi testada apenas em animais e células em laboratório, e testes em humanos demandam mais etapas de segurança.
O que dizem outros especialistas?
Lucia Mori e Gennaro De Libero, da Universidade de Basileia, na Suíça, afirmam que essa pesquisa tem um "enorme potencial", mas ainda é cedo para afirmar que ela poderia funcionar para todos os tipos de câncer.
enfermo são reprogramados para reconhecerem as células cancerosas
"Estamos muito empolgados com as funções imunológicas dessa nova população de células T e o uso potencial do receptor na terapia de células tumorais", dizem.
Daniel Davis, professor de imunologia da Universidade de Manchester, na Inglaterra, afirmou que "por ora, ainda é uma pesquisa em estágio bastante inicial e nem perto de se tornar um tratamento real para pacientes".
"Mas não há dúvidas de que é uma descoberta bastante empolgante, tanto para o avanço do nosso conhecimento sobre o sistema imunológico quanto para o desenvolvimento de novos tratamentos."


quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Ablação percutânea é alternativa para tratamento do câncer


https://www.einstein.br/especialidades/radiologia-intervencionista/noticias/ablacao-percutanea-e-alternativa-para-tratamento-do-cancer

Recurso permite destruir células tumorais por aplicação de calor ou frio, preservando os tecidos adjacentes

​O uso de métodos de imagem para guiar intervenções tem permitido ampliar a gama de procedimentos minimamente invasivos no tratamento de câncer, dentro de um novo campo da Medicina conhecido como Oncologia Intervencionista.

A ablação percutânea, que envolve a destruição de células tumorais por meio de aplicações de energia térmica, é um desses recursos. Indicada para alguns tipos de tumores do fígado, rins, pulmões e ossos, tanto primários como secundários (provenientes de outros órgãos), a ablação se apresenta como uma alternativa nos casos em que a cirurgia convencional não pode ser realizada ou é recusada pelo paciente.

É feita através da aplicação precisa de energia geradora de calor (radioablação) ou de frio (crioablação) no interior da lesão, evitando que tecidos saudáveis adjacentes sejam afetados.

Com apoio de recursos de imagem como Ultrassonografia, Tomografia Computadorizada, Ressonância Magnética e PET-CT, o médico ( Radiologista Intervencionista) introduz um delgado instrumento pontiagudo (probe) através da pele e o direciona ao interior da lesão.

Na radioablação, o probe é acoplado a um gerador que emite pulsos de radiofrequência, produzindo calor local em torno de 80°C, suficiente para induzir a necrose das células neoplásicas.

Na crioablação, o probe gera no interior da lesão uma bola de gelo a baixíssimas temperaturas ( da ordem de -140oC), que por meio de ciclos sucessivos de congelamento e descongelamento, promove a destruição das células tumorais.

A escolha do tipo de ablação depende da natureza e localização do tumor, sempre visando ao máximo de eficácia no procedimento. Os dois tipos são adotados no tratamento de neoplasias de pulmões  e rins. Já os tumores de fígado apresentam excelente resposta à radioablação. Para tumores ósseos indicam-se as técnicas ablativas no controle local da doença e para o tratamento de dor no caso de metástases. Os procedimentos podem ainda ser realizados durante um ato operatório, acrescentando recursos adicionais à cirurgia oncológica.

Minimamente invasiva, a ablação percutânea é um procedimento seguro, com baixas taxas de complicações (2% a 3%). Na maioria dos casos, não requer internações prolongadas, nem anestesias profundas, e é bem tolerada pelos pacientes, que podem retornar às suas atividades rotineiras em pouco tempo - em alguns casos, até no dia seguinte. Cerca de 40% dos pacientes apresentam reações passageiras, como febre baixa, desconforto, fadiga e prostração, que costumam durar de dois a três dias após o procedimento e são facilmente controladas com medicações.

A menor invasividade permite que o procedimento seja repetido, caso necessário, em situações como recidivas ( surgimento de novas lesões) ou tumores residuais. Também é indicado para redução de tumores muito grandes, a fim de viabilizar uma remoção cirúrgica posterior. Pode, inclusive, ser combinado a outros procedimentos como radioterapia e quimioterapia.

No caso de tumores hepáticos, a ablação desempenha um importante papel como ponte para quem espera um transplante e é portador de um hepatocarcinoma ( tumor primário do fígado). No Brasil, como na maioria dos países, pacientes com uma lesão maior do que cinco centímetros ou com mais de três lesões com até três centímetros tornam-se inelegíveis ao transplante ( Critérios de Milão). Nesses casos, a ablação percutânea torna-se uma opção de tratamento, contribuindo para reduzir o tamanho dos tumores ou evitar que cresçam e excedam os critérios excludentes.

As indicações dos procedimentos ablativos são bastante amplas dentro do cenário oncológico, no entanto seu emprego deve ser amparado por ampla discussão multidisciplinar entre todos os especialistas envolvidos no tratamento do câncer: oncologistas, cirurgiões, radioterapeutas e radiologistas intervencionistas.

Adotada nos principais centros mundiais desde a década de 90, a ablação percutânea de tumores é uma técnica com alto potencial de desenvolvimento. Outras formas de produção de energia para a ablação, como laser , micro-ondas, ultrassom focado de alta intensidade (HIFU) e eletroporação definitiva, estão em crescente desenvolvimento e poderão em breve somar-se às possibilidades hoje oferecidas. Além disso, há estudos em andamento que devem permitir, num futuro próximo, estender o procedimento a alguns tipos de tumores de mama e de próstata.

São novos caminhos que se abrem, ampliando os horizontes para o tratamento do câncer.

​​Fonte: dr. Rodrigo Gobbo Garcia, Médico Radiologista Intervencionista do Einstein

domingo, 15 de dezembro de 2019

Feliz Natal e um 2020 com muita paz e amor


Um exemplo positivo
Uma doação ocorrida no último dia 5 de dezembro trouxe esperança aos pacientes do Instituto do Câncer de São Paulo de uma forma diferente
Por Paulo Hoff - 12 dez 2019, 12h58


Casal de mãos dadas Thinkstock/VEJA

No Brasil, ainda estamos longe de ter uma verdadeira cultura de solidariedade. Novas terapias, medicamentos inovadores, esses são geralmente os temas que falamos nas coletivas para a imprensa no Instituto do Câncer de São Paulo (Icesp). Mas aquela que ocorreu no último dia 05 de dezembro trouxe esperança aos pacientes de uma outra forma.
Na ocasião, foi anunciada uma doação privada no valor de R$ 8,2 milhões para o Icesp. A ação foi fruto da generosidade do advogado Orlando Di Giacomo Filho, que morreu em 2012. Mesmo na época de seu falecimento, o olhar para a solidariedade já estava presente. Nos convites para o seu velório, havia um pedido simples: substituir as eventuais coroas de flores por doações ao Instituto.
Doamos pouco
Infelizmente, atitudes como essa são mais exceção do que regra. No Brasil, a figura do benemérito é rara em comparação com países de cultura anglo-saxã, por exemplo. No ranking dos cidadãos que mais doam, estamos atrás até mesmo de nossos vizinhos latino-americanos e de países menos desenvolvidos.
O Brasil ostenta uma vexatória 67o. posição no ranking de doações conhecido como World Giving Index, desenvolvido pela organização britânica Charity Aid Foundation. Doamos proporcionalmente menos do que pessoas do Paraguai, Uruguai, Kosovo, Vietnã, Nigéria e Quênia.
E caímos para a 74a. posição quando o cálculo leva em conta outras dimensões da solidariedade, como realizar trabalhos voluntários. Fica claro que ainda temos muito o que evoluir no conceito de sociedade.
A cultura do “incentivo fiscal”
Na entrevista coletiva do Icesp, quando anunciamos a doação, uma das perguntas mais esperadas foi sobre o que o governo faria para estimular outras ações parecidas. Em geral, é isso o que associamos a filantropia: trocar impostos por donativos.
Acredito que essa é uma visão incompleta do que significa doar. Ainda que seja louvável destinar parte de um imposto para determinada instituição, isso não cria uma verdadeira cultura de solidariedade.
Fazer o bem e ajudar uma causa, antes de tudo, deveria ser o grande motivador. O que deveria nos mover é a alegria de saber que podemos fazer a diferença, de que é nosso papel ajudar, colocando a mão na massa e no bolso.
Se nenhum desses argumentos for suficiente, diversos estudos mostram que pessoas altruístas vivem mais e melhor. Isso porque ser solidário nos torna mais felizes.
Um estudo feito no Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino mostrou que doar para uma instituição ativa no cérebro as mesmos “centros de recompensa” de situações prazerosas – como, por exemplo, comer chocolate, ganhar dinheiro ou receber um elogio.
Pelo bem maior
Não custa lembrar que, em um país como Brasil, não faltam bandeiras e necessidades a serem atendidas. Saúde, educação, moradia, assistência social, as páginas de Veja e de outros veículos de comunicação estão cheias de problemas que não são apenas do Estado, são nossos.
Doações como a do dr. Orlando Di Giacomo Filho nos enchem de alegria e esperança. O valor será utilizado para melhorias na infraestrutura e dos programas de ensino do Icesp, levando o conhecimento que é produzido pela instituição para outros lugares do Brasil, América Latina e África.
Em tempo como esses, em que o fim de ano e o Natal nos despertam para o amor ao próximo, fica nossa esperança de que esta semente germine no coração de todos nós.
https://veja.abril.com.br/blog/letra-de-medico/um-exemplo-positivo/

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Médicos rebatem notícias falsas sobre segurança de protetor solar


Informações que circulam em redes sociais levaram a Sociedade Brasileira de Dermatologia a emitir um comunicado reafirmando que os filtros são seguros
03/06/2019 - 12h27minAtualizada em 03/06/2019 - 13h16min
Depois de notícias enganosas e perigosas sobre alvejantes que supostamente curariam o autismo e supostos problemas associados a vacinas, chegou a vez dos protetores solares serem alvos e acusados de ser tóxicos. As informações, que circulam em redes sociais, deixaram dermatologistas de cabelo em pé e levaram a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) a emitir um comunicado reafirmando que os filtros solares são seguros e devem ser usados para se proteger contra o câncer de pele.

Segundo a entidade, os rumores mais recentes começaram a surgir a partir de estudo do FDA (agência americana que fiscaliza e regulamenta alimentos e remédios) que apontou a absorção pela pele de componentes dos filtros solares – algo que é normal e esperado.

O estudo, publicado recentemente na revista científica Jama, da Associação Médica Americana, buscava verificar a absorção sistêmica relativa a quatro ingredientes comuns nos filtros solares. Para isso, participaram da pesquisa 24 pessoas que usaram protetor em diferentes formas, como spray e loção, em 75% do corpo quatro vezes por dia.

A conclusão da pesquisa, contudo, não vai além da constatação da absorção. Ou seja, nessas condições de uso máximo de protetores, determinadas substâncias são absorvidas e podem ser detectadas em exames. 

A partir disso, os autores afirmam que mais estudos devem ser feitos para verificar se há alguma significância clínica nessa absorção. Ao mesmo tempo, os pesquisadores são claros ao afirmar que o achado não deve fazer com que as pessoas deixem de usar os filtros solares.

— Esses estudos foram feitos em condições que não são usualmente aplicadas no cotidiano, tanto em termos de aplicação quanto de quantidade aplicada — afirma Sérgio Palma, presidente da SBD. — Não temos dados de segurança que contraindiquem o uso de filtro solar.

De toda forma, diz Hélio Miott, dermatologista da SBD, pesquisas como essa são esforços para melhoria futura de níveis de segurança  – como possibilidade de algum nível de toxicidade dependendo da concentração das substâncias – e evolução de rotulagem dos produtos.

Segundo Miott, os protetores são usados desde 1970 e, logicamente, foram evoluindo e passando por substituições de componentes. No início, por exemplo, era comum que causassem alergias, acne e sensibilidade na pele. Fora isso, não há histórico de problemas graves que sejam causados pelos filtros.

Os especialistas destacam a importância do uso do protetor solar, principalmente ao se levar em conta a elevada incidência solar no Brasil. 

Dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca) apontam o câncer de pele não melanoma como o mais comum no Brasil, sendo responsável por aproximadamente 30% dos tumores malignos registrados. Já os melanomas são menos comuns – correspondem a 3% dos casos de câncer de pele –, mas mais graves e com potencial de levar à morte.

— A prevenção aos danos solares é a melhor forma de você evitar a progressão ou o surgimento de uma lesão de câncer de pele — diz Palma. 

Além da recomendação de filtros solares para a proteção das áreas do corpo expostas ao sol, os especialistas afirmam que a população pode usar roupas com proteção UV, chapéu, evitar exposição aos raios solares entre as 10h e as 16h e procurar sombras sempre que possível.


quarta-feira, 20 de novembro de 2019

O consolo de uma menina ao irmão de quatro anos com câncer se torna viral


A mãe, Kaitlin Burge, coloca a foto em um 'post' no Facebook no qual relata a crua realidade desta doença e de como afeta toda a família
Foto em que se vê como Audrey (5 anos) consola o irmão mais novo, Beckett.FACEBOOK

A dor de uma família inteira quando um de seus membros tem câncer. A dor dos menorzinhos quando a doença abala a casa. Isso é o que Kaitlin Burge, uma mãe de Princeton (Texas), queria transmitir sobre como sua filha Audrey, de cinco anos, está vivendo desde que o irmão Beckett, de quatro, foi diagnosticado com leucemia linfoblástica aguda –um tipo de câncer que começa na medula óssea–, em abril de 2018.
Com esse intuito, e na forma de uma declaração, a mãe postou um texto no Facebook em 3 de setembro com uma foto em que se vê o menino vomitando enquanto a irmã mais velha o acompanha, o apoia e o consola. A imagem, em preto e branco, se tornou viral em poucos dias, com mais de 50.000 curtidas e mais de 35.000 compartilhamentos.
“Uma coisa que não te dizem sobre o câncer na infância é como isso afeta toda a família. Você sempre escuta coisas sobre as questões médicas e econômicas, mas quantas vezes ouvimos sobre os problemas causados por essa doença em famílias com mais filhos?”, pergunta Burge na página Beckett Strong (Beckett forte) sobre o filho caçula. "Para alguns, será muito difícil continuar lendo", prossegue.
Na mensagem, esta mãe diz que tem dois filhos, com uma diferença de 15 meses um do outro, e conta como deixaram de brincar juntos na escola e em casa para ficar sentados em um quarto frio do hospital: “Minha filha teve que ver como o irmão ia da ambulância para a UTI, como lhe davam remédio, como o ajudavam (...) sem entender o que o irmão estava passando. Mas sabia que algo ruim estava acontecendo com o irmão, com seu melhor amigo”.
Depois de um mês internado no hospital, continua, "viu que o irmão mal podia brincar ou andar [...] e ela não entendia por que acontecia tudo isso".
"Por que decidimos que nossa filha nos acompanhasse ou por que ela teve que ver tudo o que estava acontecendo com o irmãozinho?", se pergunta Burge em seu próprio post. Para ela, as crianças precisam de apoio e companhia, e não se afastar da pessoa doente: “Ela está sempre com ele, independentemente da situação. Até hoje, agora estão mais próximos. Ela sempre cuida dele”.
A leucemia é o tumor maligno mais comum entre os menores de 15 anos na Espanha e representa 25% dos cânceres diagnosticados anualmente, de acordo com a Sociedade Espanhola de Hematologia-Oncologia Pediátrica. Nos Estados Unidos, cerca de 3.500 crianças sofrem da doença a cada ano.
A moral da história para essa mãe é: “Vomitar entre as sessões de brincadeira. Ficar e apoiar seu irmão e acariciar suas costas quando ele se sente mal. Passar de 13 quilos para nove. Isso é o câncer infantil. Ou você lida com isso. Ou o abandona.