Alguns
anos atrás, acreditava-se que não havia vitória no combate ao câncer, com a
evolução da medicina oncológica, os tratamentos foram se mostrando eficientes
para dar mais qualidade de vida aos pacientes tratados. A Revista conversou com
especialistas que contaram o que há de novo nesses tratamentos
O câncer é a segunda causa de
morte em todo o planeta, ficando atrás apenas das doenças cardiovasculares, mas
a estimativa é que assuma a liderança do ranking até 2025, quando deverá ser
responsável por 6 milhões de falecimentos no ano.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), atualmente
43,8 milhões de pessoas no planeta vivem os cinco anos de prevalência da
doença, sendo que 1,3 milhão delas estão no Brasil. Considerando apenas as
estimativas de novos casos previstos pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca),
até o final do último ano, 625 mil brasileiros foram diagnosticados com câncer.
Diante desse cenário, um dos questionamentos que surge é de que forma o sistema
de saúde brasileiro tem se preparado para atender essa demanda.
O oncologista, fundador e presidente do Conselho de
Administração do Grupo Oncoclínicas, Bruno Ferrari, explica que do ponto de
vista técnico, a qualidade dos profissionais brasileiros não deixa a desejar de
nenhum americano, asiático ou europeu. “O que existia de gap no Brasil era
estrutural, além de estratégias e projetos que olhassem a oncologia a longo
prazo.”
Para ele, está sendo construído um perfil específico da
oncologia brasileira. “Ela deixa de ser nos últimos anos uma oncologia de alto
nível técnico mas muito espelhada no que acontece fora do Brasil de uma maneira
não estruturada, para uma linha de cuidado mais específica com um DNA
nacional.”
Bruno Ferrari detalha que o tratamento oncológico oferecido
no Brasil é de alta qualidade. “Obviamente é preciso melhorar os incentivos às
pesquisas e outras estratégias de acesso para que todos os brasileiros tenham
amplo acesso ao diagnóstico precoce e às melhores alternativas de tratamento.
Mas estamos evoluindo e, mesmo com a pandemia, vimos os sistemas de saúde
público e privado se organizarem para assegurar fluxos seguros a pacientes de
outras doenças que necessitam ir aos hospitais, caso de muitos pacientes
oncológicos.”
O que há de novo?
Robôs no suporte às cirurgias
As novas abordagens no tratamento oncológico incluem
práticas inovadoras para a retirada de diferentes tumores. A cirurgiã torácica,
líder de cirurgia do Grupo Oncoclínicas, Paula Ugalde, explica que tais avanços
são devido a fusão da tecnologia com a medicina. “Essas práticas estão
conquistando espaços importantes nas condutas oncológicas. Nesse sentido, o uso
da robótica já faz parte do presente no tratamento do câncer e compõe o arsenal
de alternativas que melhoram a qualidade de vida dos pacientes. Esses
procedimentos cirúrgicos inovadores reduzem o tempo de internação, de exposição
a infecções e contribuem efetivamente para o bem-estar do paciente.”
A integração da robótica aos procedimentos oncológicos, têm
permitido a realização de cirurgias cada vez mais complexas, e minimamente
invasivas. “Quando falamos em procedimentos minimamente invasivos, estamos na
prática dizendo que há menor agressão ao paciente — quando operamos um
paciente, estamos 'machucando' o corpo para tratar uma condição específica.
Quanto menos a gente mexe com o corpo dessa pessoa, menos 'agride', melhor é a
recuperação no geral”, detalha Paula Ugalde.
A evolução nos tratamentos de câncer se deve ao uso das
tecnologias robóticas. Nas Américas, o Brasil é um dos países que têm mais
robôs, para os pacientes com câncer, o resultado é excelente. “Podemos dizer
que isso se traduz esteticamente em cicatrizes menos visíveis ou até mesmo
inexistentes e obviamente em uma recuperação pós-cirúrgica facilitada, que
contribui positivamente em toda a jornada de combate ao câncer e bem-estar como
um todo do paciente.”
Genômica: essencial e cada vez mais presente no combate ao
câncer
A individualização da linha de cuidado integral, desde o
diagnóstico mais preciso até a definição da conduta de tratamento mais
indicada, tende a ditar o tom para o tratamento de câncer agora e nos próximos
anos. “Com o rastreamento do genoma e do DNA desses tumores, conseguimos saber
suas particularidades e assim, encontrar a melhor forma de combater o seu
avanço. E isso tem sido feito e os avanços nesses mapeamentos acontecem todos
os dias, coletamos informações clínicas e genéticas para construirmos a base da
inovação científica”, conta Rodrigo Dienstmann, diretor científico da Oncoclínicas
Precision Medicine.
E se o diagnóstico precoce do câncer segue sendo o jeito
mais efetivo de garantir melhores chances de respostas às terapêuticas
aplicadas, a chamada oncologia de precisão traz respostas assertivas para que a
medicação adotada atinja o alvo com grande acurácia, sob medida para as
características da doença de cada indivíduo. “Isso significa que, com a ajuda
da análise dos biomarcadores tumorais, ou seja, das alterações genéticas
identificadas nas células daquele tumor específico e que trazem importantes
informações para nos ajudar a desvendar o mecanismo da doença de acordo com
cada caso de forma personalizada, podemos oferecer as melhores alternativas de
tratamento em prol da qualidade de vida do paciente”, ressalta o especialista.
Bruno Ferrari conta que falar em prever o futuro da
oncologia no atual cenário é um desafio, mas o acúmulo de dados integrando a
genômica vai ter um grande impacto na seleção de tratamento e no suporte
continuado ideal. “Eu acredito que a genômica, como outras tecnologias, vai
permitir um olhar de lupa nos tumores; vamos individualizar ainda mais o
tratamento de maneira real e já estamos chegando nesse momento. Eu não vejo
alternativa pro futuro se não integrar a genômica à prática rotineira da
oncologia.”
Imunoterapia avança para outros tratamentos
A ciência como aliada da prática médica se aplica ainda ao
desenvolvimento de medicações cada vez mais personalizadas. Neste sentido,
Carlos Gil enfatiza a ampliação do uso da imunoterapia no tratamento de mais
tipos de câncer. Segundo ele, a técnica consiste em fortalecer certos aspectos
da imunidade do paciente para que o próprio corpo combata o tumor. A verdadeira
“arma secreta” contra o câncer, diz ele, está em nós mesmos:
“Os imunoterápicos já são parte da nossa realidade e tendem
a se aperfeiçoar e ganhar espaço. Há cerca de dois anos esse tipo de medicação
era usada apenas em alguns poucos casos de câncer, como o melanoma — tipo de
câncer de pele — , mas agora ela já tem sido recomendada para tipos de tumores
nas mamas, nos rins, gastrointestinais, pulmão, leucemia, linfoma e sarcoma. E
não deve parar por aí”, destaca.
“A imunoterapia veio para ficar e nesse futuro próximo
figura como alternativa bastante viável para o enfrentamento do câncer com
ainda mais assertividade”, detalha Bruno Ferrari. Segundo o profissional,
existe uma expectativa de que em 2023, 70% dos pacientes com câncer serão
candidatos a alguma forma de imunoterapia - tratamento que consiste em
estimular com uso de medicação o sistema imunológico do paciente para que ele
reconheça as células malignas e as combata. “É um caminho se integrando de
forma inteligente ao tratamento.”
Universalização do acesso às melhores condutas aos pacientes
e compartilhamento de conhecimento entre especialistas caminham lado a lado
“O atendimento oncológico pode e deve ser multidisciplinar,
integral e simultâneo. O que praticamos durante o simpósio de forma explicativa
é o que queremos praticar no nosso dia a dia”, diz o oncologista Sergio Jobim
Azevedo, coordenador científico do 8º Simpósio Internacional Oncoclínicas, que
aconteceu em novembro de 2020.
Para ele, esse processo de democratizar e universalizar o
conhecimento médico é amplamente favorecido pelo formato digital, uma das
heranças positivas da pandemia. “Toda a programação foi disponibilizada de
forma gratuita para médicos, estudantes de medicina e outras profissionais de
saúde. Uma pessoa que está no extremo norte ou sul do país pode compartilhar
desse momento”, reforça.
“O valor da cooperação entre especialistas é uma das
principais mensagens que trouxemos. Tivemos a oportunidade de reunir os maiores
especialistas em oncologia clínica, cirurgia oncológica e análise genética do
Brasil e exterior para debater o que há de mais avançado nestes segmentos e
compartilhar este conhecimento com médicos de todo o país. Unir as equipes
envolvidas na linha de cuidado com certeza agrega muito no resultado final para
o paciente”, acrescenta Sergio Azevedo. Ele ressalta que informações sobre os
tratamentos, avanços, conquistas e desafios na luta contra o câncer precisam
ser sempre compartilhados. Munidas dessas informações, as comunidades médica e
científica conseguem evoluir e cobrar respostas por parte do poder público.
“Acredito piamente que a informação científica não deve ter
barreiras. Só evoluiremos se caminharmos juntos. O câncer atinge toda a
população, de classes altas e baixas e de todos os níveis de renda. Precisamos
trabalhar na ampliação do entendimento sobre esses avanços tão significativos
para que eles não fiquem restritos a um círculo fechado de especialistas e
sejam disponibilizados rapidamente à população. É preciso garantir acesso ao
melhor tipo de tratamento para todos”, finaliza.
*Estagiária sob a supervisão de José Carlos Vieira
https://www.correiobraziliense.com.br/revista-do-correio/2021/01/4902721-novidades-em-tratamentos-oncologicos-aumentam-esperanca-de-pacientes.html