terça-feira, 5 de junho de 2012

“A maternidade me salvou”

Márcia Barros descobriu a gravidez e o câncer de mama ao mesmo tempo e conta sobre essa dupla experiência
Fernanda Aranda, iG São Paulo | 10/05/2012 11:20:29 - Atualizada às 10/05/2012 11:41:29

http://saude.ig.com.br/bemestar/2012-05-10/a-maternidade-me-salvou.html
Os meses da gravidez não foram contados em semanas, como as mulheres costumam fazer, e sim em ciclos de quimioterapia.
Enquanto o bebê crescia no ventre, Márcia Silva Barros explicava – em conversas sinceras com aquela barriga – que toda a química que circulava no seu sangue a cada três semanas (e podia incomodar o bebê dentro do útero) era parte de um tratamento agressivo, mas essencial para a sobrevivência de ambos.
“Pedia desculpa ao meu filho. Ele nem tinha nascido e já precisava conviver com a problemática do câncer de mama . Vivi a doença e a gestação ao mesmo tempo”, diz Márcia sobre a experiência enfrentada há quatro anos, quando ela tinha 36.
“Com toda certeza, posso afirmar: a maternidade me salvou.”
Passar por uma gestação e por um problema de saúde grave como o câncer impõe mais desafios ao pré-natal , pode restringir as opções terapêuticas da paciente e aumentar os riscos de morte da mulher. Porém há um efeito positivo ainda não medido pela ciência.
A gravidez, afirmam especialistas e quem passou por esta situação, pode ser um estímulo maior para a adesão ao tratamento e fonte de força para o caminho em direção à cura.
No caso da dependência química, por exemplo, os psiquiatras que recebem as mulheres que querem colocar um fim no vício afirmam que, quando grávidas, elas podem reagir melhor à síndrome de abstinência típica dos primeiros dias sem drogas.
Entre as mulheres com aids – e que querem engravidar de forma segura também é percebido entre os infectologistas um comprometimento maior com a terapêutica, que pode trazer efeitos colaterais e envolve tomar mais de dez medicamentos por dia.
Alternativas
Isso não significa, entretanto, que a gestação sempre é segura ou recomendada, em especial em casos de doenças crônicas como o câncer . A legislação brasileira, inclusive, permite a interrupção da gravidez quando a probabilidade de morte da grávida é grande.
Nestes casos, decidir continuar o curso da gestação simultaneamente à doença é uma decisão que compete à mulher, sempre respaldada pelas informações dos médicos que a atendem. Márcia foi informada sobre todos os riscos.
“E não eram poucos. Meu marido ficou apavorado. Minha mãe não dormia mais”, lembra.
Mas ela decidiu continuar grávida mesmo após a detecção de um tumor maligno no seio direito, já espalhado para a axila, porque “teve a sorte de ser atendida em um centro especializado”, afirma ela.
O câncer de mama, que só em 2012 deve fazer 52 mil novas vítimas de acordo com as projeções do Instituto Nacional do Câncer (Inca), é a quinta causa de morte das mulheres férteis (entre 10 e 49 anos), conforme mapeou o Ministério da Saúde.
O excesso de casos – e o fato de uma parte significativa deles afetar pacientes que já estão grávidas ou ainda podem sonhar serem mães um dia – fez com que a medicina procurasse alternativas. Para as que ainda não estão gestantes no decorrer do tratamento, mas desejam engravidar no futuro, o congelamento de óvulos despontou como um dos caminhos possíveis.
Já para grávidas que descobrem o câncer, a conduta é quimioterapia mais direcionada, a radioterapia específica e um acompanhamento minucioso. Foi o prescrito para Márcia, exatamente no dia em que foi fazer o ultrassom para descobrir o sexo do bebê que, naquela data, completava 9 semanas.
Ciclos
A mamografia não fazia parte dos exames de pré-natal. Márcia já tinha um filho de 12 anos e ensaiava uma segunda gravidez havia tempos. Antes mesmo do teste de farmácia dar positivo, ela tratou de ficar em dia com a saúde.
Como tinha 36 anos, nenhum caso de câncer de mama na família, não fumava e não bebia, Márcia não estava no grupo que tem a necessidade de fazer o exame mais eficaz para detectar o câncer de mama. Mas a intuição, acredita, fez com que pedisse ao médico para ser submetida a uma mamografia.
 “Foi aí que os problemas com o meu plano de saúde começaram. Não conseguia consulta, não conseguia agendar o procedimento, fiquei em uma fila de espera gigante e engravidei neste meio tempo. Comecei o pré-natal no serviço público e, na terceira consulta, a médica achou que a minha mama estava estranha. Sentia uma ardência e, do dia para a noite, o bico do peito ficou invertido. Fiz a mamografia já nessa condição. E no dia do ultrassom gestacional, perto dos dois meses de gravidez, fiquei sabendo que estava grávida de um menino e que tinha câncer de mama.”
Márcia foi encaminhada para o Hospital das Clínicas de São Paulo. Na unidade, passou a ser atendida por um obstetra que já conduzia o atendimento de outras oito gestantes que também tinham câncer.
“Eu teria a opção de interromper a gestação por causa dos riscos. Mas já tinha ouvido os batimentos cardíacos do nenê, imaginava como era o rosto dele. Decidi seguir em frente. A doença me enchia de tristeza. Mas a gravidez me dava alegria em dobro.”
Márcia, de forma imediata, precisou fazer uma cirurgia para a retirada total da mama doente. “Poderia fazer a reconstrução do seio na mesma operação. Mas sabia que isso prolongaria o tempo do procedimento cirúrgico e estressaria mais o bebê. Então, optei ficar com a mama mutilada.”
O caçula sobreviveu e no aniverário dele de um ano, Márcia estava curada do câncer. De lá pra cá, já foram mais 3 festas. O menino adora palhaços. "Ele é a alegria" Como o curso da gestação estava misturado ao tratamento do câncer, ela passou a usar um calendário só para as duas experiências.
“E decidi não contar para ninguém que tinha câncer de mama. A gravidez era a minha maior felicidade. Então, quando encontrava as pessoas, queria falar sobre o meu filho, não sobre a doença”, explica.
“Comprei uma peruca exatamente como era o meu cabelo. Dizia que o inchaço era por causa da comida em excesso e dos desejos. Vivi os nove meses com uma meta. Preservar o bebê que estava dentro de mim e ficar forte para cuidar do meu mais velho que só sonhava em ter um irmão.”
Na sua folhinha sigilosa, Márcia sabia que a 13ª semana de gestação coincidia com o primeiro ciclo de quimioterapia. Na 16ª semana, faria o segundo ciclo. Vinte um dias antes de parir, o último. Dito e feito. A bolsa estourou dias depois da última quimioterapia. E o tratamento do câncer continuou intercalando a experiência de ser mãe pela segunda vez.
“Quando meu bebê completou um mês, começaram os ciclos de radioterapia. Eu tirei forças para enfrentar as 21 sessões que me foram prescritas fazendo as contas. Quando chegasse a última, meu caçula estaria com um ano. Tinha de estar forte para fazer a festinha de aniversário dele.”
Nome ao caçula
No aniversário de um ano do caçula, o câncer de mama deixou de fazer parte desta história. Atrás da mesa do bolo, Márcia puxou os parabéns. Ao lado dela, estava Lincown, o mais velho, nome dado por causa de um homem bonito que a irmã conheceu na adolescência. No colo, ela segurava Waldemir, batismo em homenagem ao médico que permitiu a gravidez – contada em ciclos de "quimio" e "radio" – ter um final feliz.

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