quinta-feira, 16 de maio de 2013

Jolie: algum prejuízo estético? Pitanguy e Ruy Vieira comentam

15/05/2013 - 16:58
Todo mundo já leu até cansar sobre Angelina Jolie anunciar, nessa terça-feira, (14/05) ter feito uma mastectomia dupla preventiva, depois de ficar sabendo que tinha um gene que a tornava extremamente propensa ao câncer de mama. Esteticamente falando, a atriz tem algum prejuízo?
O cirurgião Ivo Pitanguy, maior nome da cirurgia plástica, comenta: “A mama tem um sentido estético muito grande para a mulher.  Uma cirurgia preventiva como essa guarda uma quantidade de pele que poderá resultar no que se aproxima da beleza dos seios normais. A Jolie comprometeu a estética, mas resguardou a vida”.
O médico carioca Ruy Vieira, um dos maiores reconstrutores de mamas do Brasil, dá sua opinião: “Nada substitui o corpo humano. Um caso desses diminui a sensibilidade da mulher, os seios ficam duros, perdendo o movimento e a consistência, ou seja, a naturalidade da mama”. Perguntado se seria o equivalente a uma mulher que faz implante de silicone, o cirurgião esclarece: “Nos casos de implantes, tem uma quantidade de tecido, que dá uma certa naturalidade; no caso da Angelina Jolie, quando é retirada a glândula, deixando apenas a pele com um pouco de gordura, o subcutâneo é muito fino, fica artificial”.
Ruy Vieira faz questão de esclarecer: “Retirar as mamas não é solução para câncer; a solução é o exame como rotina”, afirma, lembrando ainda que Jolie vai ter que acompanhar e, certamente, trocar os implantes, a cada 10 anos.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Decisão de Jolie encoraja mulheres, mas médicos são cautelosos


 A notícia divulgada nesta terça-feira (14) de que a atriz Angelina Jolie passou por uma dupla mastectomia preventiva perante a propensão genética de desenvolver um câncer de mama, voltou a situar o debate em torno desta cirurgia preventiva da qual a comunidade médica não esconde suas reservas. 

Jolie, que tinha 87% de possibilidades de desenvolver a doença, publicou um artigo nesta terça no "The New York Times", intitulado de "Minha escolha médica", no qual justifica sua decisão e encoraja outras mulheres que vivam uma situação parecida a considerar a cirurgia.

"Decidi não manter minha história em segredo porque há muitas mulheres que não sabem se poderiam estar vivendo sob a sombra do câncer. Tenho a esperança de que elas também sejam capazes de obter provas genéticas e que, se correrem um alto risco, saibam que têm opções", disse a atriz.

A dupla mastectomia, uma operação que consiste em extirpar ambos os seios para prevenir ou lutar contra o câncer de mama, aparece como uma opção cada vez mais recorrente entre as mulheres dos Estados Unidos, algo que se arrasta desde a década passada.
Entre 1998 e 2003, a quantidade destas operações disparou de 1,8% para 4,5% entre mulheres com câncer de mama.

Decisão delicada
Trata-se de uma decisão extremamente delicada e pessoal, já que apesar dos benefícios de se submeter à operação, fica evidente - os últimos estudos mostram que as possibilidades de uma mulher contrair câncer de mama reduz 90% nas pessoas "com risco elevado" após a mastectomia-, que o procedimento também pode ter consequências negativas para a paciente.

"Como em qualquer tipo de operação, existem riscos como por exemplo de que se haja complicações derivadas de uma hemorragia ou uma infecção", aponta um comunicado do Instituto Nacional do Câncer (NCI, por sua sigla em inglês) dos EUA.

O NCI recomenda, o tempo todo, "considerar alternativas para a cirurgia".

Além disso, o NCI lembra de que se trata de um processo "irreversível" que pode ter "efeitos psicológicos" na mulher por causa das mudanças em seu corpo e da perda das funções do peito.

"A decisão é extremamente complicada e varia muito entre aquelas mulheres geneticamente propensas, que são operadas por prevenção, e aquelas que já desenvolveram câncer em um seio e querem evitar que se reproduza no outro", explicou à Agência Efe o presidente da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, Cliff Hudis.

Uma das principais recomendações do NCI é a de expressar e falar sobre seus sentimentos e percepções com relação à mastectomia com amigos e parentes, assim como contemplar alternativas assessoradas sempre por mais de um médico.

O departamento de Oncologia da Universidade de Pittsburgh (Pensilvânia) emitiu um relatório em 2 de maio, elaborado a partir de 206 entrevistas com mulheres que tinham praticado a mastectomia preventiva.

A "vasta maioria" das entrevistadas estava contente com a decisão tomada e a recomenda para outras mulheres.

Fobia de câncer
A universidade destaca "o medo do câncer" e "a opinião de terceiros" -amigos, parentes, parceiro e os médicos de confiança- como os principais catalisadores na tomada deste tipo de decisões, assim como, um degrau abaixo, a possibilidade de reconstrução das mamas uma vez extirpadas.

O perfil majoritário da mulher que pratica uma dupla mastectomia como medida preventiva e por propensão genética é jovem - Jolie tem 37 anos-, com um alto nível de estudos.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Angelina Jolie revela que realizou dupla mastectomia preventiva por causa de câncer

14/05/201309h05

  • Getty Images - Angelina conta que retirou os seios por medo de desenvolver a doença que matou sua mãe
Redação Central, 14 mai (EFE).- A atriz Angelina Jolie declarou nesta terça-feira que foi submetida a uma dupla mastectomia preventiva - cirurgia de retirada dos seios - após a descoberta de uma mutação genética que aumentaria a probabilidade da estrela ter um câncer de mama e de ovário.

"Minha mãe lutou contra o câncer durante quase uma década e morreu aos 56 anos. Ela viveu o tempo suficiente para ver o primeiro de seus netos e pegá-lo em seus braços. Mas, meus outros filhos nunca terão a oportunidade de conhecê-la e nem a experiência de saber o quanto carinhosa e amável ela que era".

Assim começa o editorial "My Choice Medical", escrito por Angelina Jolie e publicado hoje no jornal "The New York Times", no qual a atriz torna pública a operação que reduz as possibilidades da atriz sofrer um câncer de mama similar ao que causou a morte de sua mãe.

No artigo, a atriz americana também assegurou que, ao falar de sua mãe com seus próprios filhos, os mesmos perguntavam se ela poderia sofrer o mesmo. "Eu sempre disse para não se preocuparem, mas a verdade é que tenho um gene defeituoso, o BRCA1, que aumenta drasticamente meu risco de desenvolver um câncer de mama e de ovário".

Segundo os médicos da atriz, casada com o também ator Brad Pitt, com quem tem seis filhos - três biológicos e três adotados -, estimaram que Jolie tinha 87% de possibilidades de sofrer de câncer de mama e 50% de ovário, "embora o risco seja diferente para cada mulher".

"Ao saber disso, decidi tomar essa iniciativa e reduzir o risco ao mínimo (...). Comecei pelos meus peitos, já que o risco de sofrer um câncer de mama era superior ao de ter um câncer de ovário e a cirurgia é mais complexa", ressaltou a atriz californiana, de 37 anos.

De acordo com as declarações da atriz americana, os três meses de procedimentos médicos em torno dessa cirurgia foram concluídos no último dia 27 de abril, um período que Jolie continuou trabalhando.

"Desejava escrever isto para explicar às mulheres que a decisão de ser submetida a uma mastectomia não foi fácil. Mas, agora estou muito satisfeita de ter feita essa operação. Minhas possibilidades de desenvolver um câncer de mama se reduziram de 87% para menos de 5%. Agora, posso dizer a meus filhos que não vão me perder por causa de um câncer de mama", ressaltou.

O artigo revelou que o processo médico foi iniciado no último dia 2 de fevereiro com a técnica "nipple delay", um tipo de cirurgia plástica "para que a mastectomia não danifiquem esteticamente o mamilo. Isto causa um pouco de dor e um montão de hematomas, embora aumente as chances de salvar o mamilo".

Duas semanas depois, a atriz foi submetida à cirurgia maior, uma operação que pode ter durado oito horas e na qual se extrai o tecido mamário.

Nove semanas depois, a cirurgia final reconstruiu os seios com um implante. De acordo com Jolie, os resultados podem ser "formosos".

"Decidi não manter minha história em segredo porque há muitas mulheres que não sabem que poderiam estar vivendo sob a sombra do câncer. Tenho a esperança que elas, também, sejam capazes de realizar exames genéticos e que, se tiverem um alto risco, saibam que há mais opções", completou.

Após as declarações da atriz americana, que exaltou o companheirismo de seu marido, o também ator Brad Pitt, o ministro das Relações Exteriores do Reino Unido, William Hague, elogiou a "valente" atriz Angelina Jolie por ter tornado sua operação pública e, por consequência, ter influenciado positivamente milhares de mulheres.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

“Não há como vencer o câncer de mama sem autoestima”

Flávia Flores recebeu o diagnóstico aos 35 anos e encontrou na beleza a força para superar o tumor feminino. Hoje, responde dúvidas de outras carecas e vaidosas nas redes sociais
Fernanda Aranda , iG São Paulo | 02/05/2013 06:00:00

Graviola e solidão foram as únicas respostas que os sites de busca da internet mostraram para Flávia Flores, 35 anos, quando procurou pelas palavras “quimioterapia e beleza”. Ela recorreu ao computador para tentar encontrar um caminho “mais belo e menos árduo” para a doença descrita em seu prontuário médico. Ao clicar no botão "pesquisar", se sentiu sozinha. Surgiram na tela apenas algumas receitas, nada científicas, sobre um fruto supostamente poderoso para vencer o câncer. E só.
“Estava arrasada, deformada de tanto chorar. Queria encontrar dicas para ficar mais bonita, sair de casa e dizer aos meus amigos que eles não precisavam continuar afastados por não saberem lidar com alguém com câncer de mama como eu”, lembra Flávia sobre o processo enfrentado no final de 2012, quando descobriu a doença.
 “Não achei absolutamente nada no mundo virtual.” No monitor, os resultados para a busca sobre beleza foram sucos de graviola, supostamente bons para quem tem câncer. “Umas misturas surreais, dois litros d’água para cada polpa da fruta. Não havia nada sobre o propósito de ficar bonita durante um tratamento penoso, mas necessário para minha cura”, lembra.
Troca-troca
Flávia Flores não ficou satisfeita e teve um estalo. Ela, produtora de moda de Florianópolis, estava cansada da rotina fashion “por achar tudo muito fútil”. Mas, quase por ironia do destino, foi nos acessórios que encontrou um mote para superar o tumor mais numeroso entre mulheres brasileiras: são 52 mil novos casos por ano, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca).
Ela decidiu então trocar as informações virtuais dispersas sobre a graviola, por aquilo que estava perdido na nécessaire e no armário. Tratou de buscar o batom, blush, base, lenços coloridos e perucas divertidas.
“Fiz uma página no Facebook com dicas práticas para mulheres com câncer de mama que, assim como eu, não querem abrir mão da vaidade neste processo de enfrentamento da doença”, diz ela sobre o endereço eletrônico ‘Quimioterapia e Beleza’ criado há três meses. Até a última semana, a página já colecionava mais de 15 mil seguidores.
Montanha russa
O alerta para Flávia veio durante o banho. O carocinho no seio esquerdo chamou a atenção, mas não causou desespero. Jovem, sem casos de câncer na família, ela mantinha hábitos saudáveis, com exercícios e dieta adequada. Nada indicava estar no alvo do câncer. Fez o exame de ultrassom e a mamografia sem peso na consciência. Descobriu por meio dos exames que estava na hora de trocar a prótese de silicone colocada havia dez anos. Marcou a cirurgia plástica e, por cautela, tirou o nódulo para avaliação da biópsia.
Não era medo de morrer que aquela notícia me trazia. Era uma sensação de perder o domínio do corpo. E pode parecer besteira, mas temi pelos meus cabelos.

Quinze dias depois, ao ouvir do oncologista e do cirurgião plástico que aquela ondulação mamária era um tumor maligno, e que seria necessário tirar as duas mamas devido ao estágio avançado da doença, Flávia Flores caiu no chão do consultório.
“Minha vida sempre seguiu trilhos de montanha russa. Quando tinha 12 anos, meus pais se separaram. Aos 14, engravidei e virei mãe enquanto só pensava em andar de patins. Aos 20, fui estudar na Califórnia e acabei deportada, por falta de visto. Aos 30, meu casamento de seis anos terminou. Agora, aos 35, o diagnóstico de uma doença tão cruel”, pontua sobre as fases baixas da vida.
“Não era medo de morrer que aquela notícia me trazia. Era uma sensação de perder o domínio do corpo. Seria mutilada... E pode parecer besteira, mas temi pelos meus cabelos”, diz citando os fios castanhos naturais, crescidos até a cintura e volumosos, a marca registrada desde adolescente.
Era certo que, em algum momento durante as 20 sessões de quimioterapia prescritas para começarem no início de dezembro de 2012, a cabeleira cairia. “Não sabia o que fazer”, rememora.
Flávia então chorou. Por 10 dias. Sozinha, só com o apoio da mãe e do filho Gregório, já homem com 20 anos. Os amigos e outros parentes haviam desaparecido "por não saberem lidar com a minha doença", avalia.
A força da beleza
Flávia cansou do novo baixo da vida. Atentou que estava na hora do carrinho da montanha russa pegar o embalo necessário para a subida. Já havia feito duas sessões de quimioterapia e ficou com vontade de dizer aos quatro cantos que estava viva, queria passear, sair com as amigas, paquerar, ver o mar.
Para isso, precisava sair de casa. “Só que por mais disposta que eu estivesse, a quimioterapia fragiliza demais. Estava pálida, cabelos ralos, enjoada, sem cílios. Quis ficar bonita. Corri para internet. Encontrei a graviola”, diz rindo.
Edu Cesar
"Estou encantada pelo estilo curto e nuca à mostra. Acho que não quero mais cabelão"

Flávia encarou o vazio como um chamado. “Trabalho com moda desde os 15 anos, fazendo produções, já fui modelo e estava cansada do ego e da vaidade do meio. Então, veio o clique. Estava na hora de colocar os meus conhecimentos em favor da saúde”, lembra.
Ela fez a página do Facebook com a intenção de trazer os velhos amigos, que haviam se afastado, para perto. Mas descobriu que havia uma legião de pessoas com câncer, desconhecidos até então, que queriam informações sobre maquiagem, como amarrar os lenços, escolher o look certo para a festa de formatura, mesmo estando careca.
“Coloquei a mão na massa. Hoje, todas as dúvidas que recebo levo aos meus médicos e faço testes. Por exemplo, testo se o lápis A ou B é melhor para desenhar a sobrancelha, coisas assim”, diz. Garimpa estilos nas lojas, pesquisa cosméticos mais adequados, dá dicas sobre depilação quando os pelos voltam a nascer e posta tudo na internet.
Hoje, seis meses após detectar que fazia parte das estatísticas do câncer de mama do País, o medo da queda dos cabelos virou uma memória afetiva que Flávia não quer esquecer.
“Quando decidi cortar o cabelo, minha ideia inicial era usar os fios para fazer uma peruca natural para mim. Fiz um vídeo ensinando como cortar as madeixas sem danificá-las para aproveitar depois”, conta Flávia. “Mas no dia seguinte, com 24 horas de cabeça pelada, recebi pelo Facebook um relato de uma menina que tinha perdido a vontade de viver, porque o câncer havia tirado seus cabelos.”
Pelo correio, Flávia mandou seus cabelos à amiga virtual, que os transformou em uma peruca. Para ela, restaram os lenços que adora, as perucas baratinhas que divertem e uma nova paixão. “Estou encantada pelo estilo curto e nuca à mostra. Acho que cabelão, do jeito que eu tinha antes, não quero mais.”
Mistura
Aos críticos que consideram a mistura de beleza e quimioterapia uma alquimia improvável como suco de graviola e câncer, Flávia Flores responde com a própria experiência.
“Não há como vencer o câncer de mama sem autoestima”, diz enquanto realça os olhos com sombra escura e passa rímel preto nos cílios postiços - um de seus toques sugeridos para combinar com a careca e driblar a queda de todos os pelos do corpo, sequela do tratamento que aos poucos é vencida.
“Eu me sinto muito mais forte e disposta depois que voltei a olhar o espelho com ternura e a cuidar de mim. Ainda tenho um ano inteiro de quimioterapia pela frente. Mas estou com força total. Meus exames confirmam isso”, diz ao retocar o batom, finalizando a produção para encontrar os amigos e o novo namorado no bar.

terça-feira, 7 de maio de 2013

O câncer do Otimismo

Implacável otimismo pode ser mais prejudicial para pacientes do que a doença em si

Médicos são considerados os precursores de más notícias, pessoas que usam palavras frias como "prognóstico." Mas os estudos mostram que eles são tão capazes de emoções quanto seus pacientes. De acordo com um estudo publicado em 2000 na revista médica britânica BMJ, cerca de dois terços dos médicos superestimam a sobrevida de pacientes com doenças terminais.

Um estudo de pacientes com câncer e seus médicos no Annals of Internal Medicine, descobriu um ano depois que muitos médicos não chegam  a dizer aos pacientes a verdade sobre seus prognóstico. Os médicos que acreditam na sobrevivência de seus pacientes são 37 %: os que se recusam  a fazer qualquer estimativa correspondem a 23%. Cerca de 70% das estimativas discrepantes foram excessivamente otimistas.

Esse otimismo está longe de ser inofensivo. Direciona os médicos a apoiar tratamentos que provavelmente não vãoi salvar a vida dos pacientes, embora possam causar-lhes um sofrimento desnecessário e fazer com que suas famílias acreditem na falência médica.

Uma fonte desse otimismo é a cultura pop, que muitas vezes retrata recuperações heroicas de situações aparentemente fatais. Outra é a experiência das escolas de medicina. O que motiva os estudantes de medicina cansados é a esperança de que um dia as intervenções que realizam vão salvar vidas e curar famílias.

Mais tarde, nosso juízo se torna pouco claro sobre como construir relacionamentos com os pacientes, compartilhar seus medos e ansiedades, valorizar suas pequenas vitórias .

E, no entanto, estudos têm mostrado que os pacientes quase universalmente preferem saber  a verdade. Se os médicos não podem entregar os fatos, não só eles vão privar seus pacientes de informações cruciais, como também vão adiar a conversa sobre a introdução de cuidados paliativos.

Cuidados paliativos modernos se originaram em resposta à proliferação de novos tratamentos e tecnologias de reanimação. Manter um paciente "vivo" tornou-se mais fácil. E ainda a definição de "vivo" sofreu - com a qualidade de vida frequentemente sendo usurpada de seu tempo de vida.

Os cuidados paliativos foram a primeira abordagem alternativa que a medicina alopática ofereceu a pacientes e agora ganharam uma ampla aceitação. Um dos maiores marcos para cuidados paliativos foi um estudo publicado em 2010 no The New England Journal of Medicine, que mostrou que os pacientes com câncer de pulmão que no início tiveram cuidados paliativos integrados ao tratamento do câncer, padrão não só ter uma melhor qualidade de vida, mas viver poucos meses mais do que aqueles que receberam o tratamento padrão sozinho. No entanto, usamos esta estratégia muito menos do que deveríamos. Continua a se insistir em tratamentos mais invasivos, mesmo quando há pouca chance de que eles vão trazer resultados satisfatórios.

 Não são apenas os médicos os culpados pela falsa esperança - os pacientes também são.

Quando eu me tornei um residente, um dos meus pacientes foi uma mulher idosa com um tumor, que continuou crescendo, apesar dos tratamentos mais poderosos: quimioterapias (leia-se, tóxico). Ela foi alvo de uma infecção, ficou com as células brancas do sangue quase completamente esgotadas. São justamente elas as responsáveis contra tais invasões ao corpo. E, no entanto, ela queria mais do mesmo, mais quimioterapia, mais radiação, mais entubações e mais ressurreições.

Eu queria fazer tudo o que podia para salvá-la, mas lembrei-me da paciente do meu estágio, aquela com insuficiência cardíaca, e eu não queria cometer o mesmo erro. Eu sabia que havia apenas algumas coisas que podemos fazer para proporcionar conforto real. Então esvaziei  uma sala de espera para criar um local seguro para a filha da paciente, de sua procuração com os equipamentos de saúde. Esta não foi a primeira vez que ela ficou entre médicos preocupados, os quais conhecia muito bem, assim como a magnitude da doença de sua mãe e da inutilidade de continuar o tratamento.

No entanto, ela afirmou que sua mãe iria querer tudo, de entubação e respiração mecânica para reanimação cardíaca à ressuscitação cardiopulmonar. Mostrei-lhe que as chances de sua mãe estavam sendo garantidas pelas manobras tecnológicas e que ela poderia ter uma vida além do fim brusco de uma máquina de respiração. 

O estado do paciente piorou. O tumor cresceu a tal ponto que tivemos que colocar em um tubo para esvaziar os intestinos. Ela desenvolveu coágulos nos pulmões, mas não poderia tratá-los com diluentes de sangue, pois ela já estava com hemorragia interna. Ficou claro para a equipe que a coisa mais humana a fazer seria se concentrar em seus sintomas e mantê-la confortável ao invés de tentar prolongar sua vida.

Mas não havia nada que pudéssemos fazer para erradicar o horror do otimismo irracional que se espalhou por seu corpo como um câncer incontrolável, conclui o artigo de Haider Javed Warraich.

*Haider Javed Warraich é residente em Medicina interna no Beth Israel Deaconess Medical Center e autor do romance Auras do Jinn.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Alerta aos cânceres femininos invisíveis

Tumores malignos nas mamas não são únicas ameaças às mulheres e podem afetar ovários, útero, pulmão e outros órgãos. Médicos pedem mais atenção à prevenção
Fernanda Aranda , iG São Paulo | 15/04/2013 12:33:28
Há três anos, quem perguntasse à Nanci Venturini qual era a doença mais temida por ela, teria como resposta um gesto seguido por duas palavras: as mãos protegeriam o peito e ela diria “câncer de mama”.
Esta doença é, de fato, perigosa quando não tratada a tempo, vitima 52 mil mulheres por ano e está no foco das campanhas mais variadas entidades. Mas não é exclusiva entre os perigos cancerígenos. O cuidado preventivo só com este tipo de tumor pode tornar invisível outros cânceres que também ameaçam às pacientes e são até mais letais.
Nanci, 39 anos, por exemplo, sequer imaginou que, além das mamas, outras regiões do organismo pudessem estar vulneráveis. Mas, desde 2011, ela faz parte das 6.190 mulheres que anualmente adoecem por causa do câncer no ovário , de acordo com o censo do Instituo Nacional do Câncer (Inca).
“O câncer de mama é o mais temido porque é mesmo o mais recorrente entre elas. Ao longo da vida, uma em cada nove mulheres terá a doença”, explica Glauco Baiocchi Neto, diretor de ginecologia do Hospital AC Camargo, uma das referências nacionais no tratamento. Segundo ele, a alta incidência faz com que as mulheres acabem se esquecendo de outros tipos de câncer que também são numerosos e, alguns, totalmente evitáveis.
“O câncer de colo de útero é um dos exemplos. Todas as lesões pré-cancerígenas no útero podem ser tratadas, mas ainda são 18 mil novos casos por ano, com quase 5 mil mortes de mulheres”, exemplifica Baiocchi ao completar a lista com outros tipos de tumores quase não lembrados no foco da prevenção.
“Câncer no endométrio, o câncer na vulva, o câncer de cólon e no reto também são esquecidos pelas pacientes. Há ainda o câncer de ovário que tem uma particularidade: diferentemente dos outros, os exames preventivos ainda não são tão eficientes para o diagnóstico precoce. Por isso, é preciso alerta dos médicos e também das mulheres para buscar as intervenções o mais rápido possível”, afirma.
Corpo fala
Nanci Venturini atesta a dificuldade em detectar precocemente o câncer de ovário. Ela fazia mamografias e ultrassonografias transvaginais anualmente, como preconiza a cartilha dos bons cuidados preventivos. Apesar dos resultados não indicarem nenhum sinal de problema, o corpo, há tempos, dava sinais de que as coisas não andavam bem.
 “Todas as dores abdominais, o desconforto após as refeições, a sensação de barriga estufada, o funcionamento irregular do intestino que eu enfrentava há meses, eu coloquei na conta do estresse e do excesso de trabalho”, lembra Nanci, que trabalha como assessora na reitoria de uma universidade em São Paulo.
Quando finalmente procurou o hospital por acreditar estar “estafada”, a biópsia revelou que existia ali no ovário esquerdo um tumor maligno já em estágio crítico, quase na última ponta da escala que mensura o avanço da doença.
Conversas com o corpo
Andrea Gadelha Guimarães, médica especializada em câncer de ovário, afirma que ficar atenta aos indícios de que o corpo não funciona em normalidade ainda é a principal estratégia para diagnosticar os tumores o mais rápido possível.
“Os sinais, como um sangramento anormal, um emagrecimento repentino, uma dor pélvica fora do comum, não são o diagnóstico fechado de câncer, mas devem alertar as mulheres a este tumor que, em 70% dos casos, ainda é constatado em fase avançada.”
Nanci, desde que recebeu o diagnóstico, decidiu não só ouvir mais as mensagens do corpo como também conversar diariamente com o próprio organismo.
“Sabia que por estar em uma fase avançada, a doença exigia um tratamento agressivo. Para me preparar para a batalha passei a falar todos os dias com o meu corpo”, conta.
“Pedia desculpa por ter maltratado o meu organismo. Dizia para ele que não seria fácil vivenciar a cirurgia e as quimioterapias, mas que não entregaríamos os pontos. É uma forma de meditação que me ajudou bastante”, lembra ela, que resolveu contar a experiência do enfrentamento da doença dos ovários em um blog .
O grande objetivo de dividir a experiência na internet, diz Nanci, é dar força a outras pacientes e alertar que o câncer não é um problema só das mamas.
“As mulheres precisam saber disso e ficar atentas aos cuidados preventivos.”
Receita universal
Pesquisando sobre a doença, Nanci descobriu que a alimentação saudável pode ser parceira na investida contra o câncer e resolveu priorizar as frutas, legumes, verduras e carnes brancas. A dieta, atestam os estudos, é mesmo um dos principais instrumentos da medicina preventiva contra todos os tipos de câncer femininos, inclusive os que ainda permanecem na invisibilidade.
Pesquisa recente da Universidade de Brasília (UNB) confirmou o potencial dos produtos não saudáveis como gatilhos do câncer. De acordo com a publicação, a obesidade está de mãos dadas com o cânceres de mama, ovário e útero. O estudo mostra que só estes três tumores femininos provocados primordialmente pelo excesso de peso acarretam custo anual de R$ 50 milhões ao Sistema Único de Saúde (SUS).
O especialista Glauco Baiocchi Neto ressalta que a alimentação saudável é receita universal na prevenção de todos os tipos de câncer e completa que “não fumar” também é hábito protetor para pacientes dos mais variados tumores.
“Há uma íntima relação entre câncer de endométrio e tabagismo. Sem falar dos pulmões, já que 9 em cada 10 cânceres deste tipo acontecem em fumantes”, reforça o médico.
O câncer pulmonar feminino é outro exemplo de doença cancerígena que, até bem pouco tempo, nem era considerado pelas mulheres. Porém, o aumento do índice de fumantes entre elas – conforme detectou estudo do Ministério da Saúde – cobrou fatura. As pesquisas mais recentes indicam que a mortalidade de mulheres em decorrência desta neoplasia está em ascensão.
Viver mais e melhor
Nanci é uma das vozes contrárias ao cigarro. Ela fez cirurgia contra o câncer de ovário, passou por sete sessões de quimioterapia e diz agora estar na fase de enfrentar as sequelas do tratamento.
“Mas com uma diferença importante. Hoje me permito tudo que me privei antes da doença. Dizia não ter horas livres para cuidar de mim. Hoje arrumo tempo para caminhadas, ioga, meditação, natação. Quero viver. Mais e melhor.”

Silicone dificulta diagnóstico de câncer de mama, diz estudo

Pesquisa canadense afirma que as próteses não são as causadoras dos tumores mas dificultam a detecção da doença em fase inicial
BBC | 01/05/2013 11:17:34
Mulheres com implantes de silicone nos seios e que desenvolvem câncer de mama têm mais chances de morrer da doença, sugere uma pesquisa canadense.
Segundo o estudo, divulgado na publicação britânica British Medical Journal, as próteses não são as causadoras dos tumores, mas dificultam o diagnóstico do câncer em estágios iniciais.
Os autores da pesquisa, o epidemiologista Eric Lavigne e o professor Jacques Brisson, ambos da Universidade de Quebec, analisaram os resultados de 12 estudos publicados desde 1993 nos Estados Unidos, Canadá e no Norte da Europa.
Eles concluíram que mulheres com silicone tem 26% mais chances de serem diagnosticadas com câncer nos estágios avançados da doença - justamente porque a prótese impediu o diagnóstico no estágio inicial.
Uma análise de cinco estudos mostrou que a chance de morte entre pacientes com prótese aumenta 38%.
Cautela
O estudo afirma que a presença do silicone dificulta a identificação do câncer por exames de raio-X e mamografias. Em contrapartida, o implante pode facilitar a detecção manual dos tumores porque fornece uma superfície contra a qual o nódulo se apoia.
"A pesquisa sugere que a cirurgia cosmética para aumento dos seios pode prejudicar o índice de sobrevivência entre mulheres que posteriormente são diagnosticadas com câncer de mama", afirmaram os pesquisadores.
No entanto, eles ponderam que os resultados devem ser interpretados com cautela, porque os dados de alguns estudos não se encaixam nos critérios da meta-análise, um método de pesquisa que tenta combinar resultados de estudos independentes sobre um único tema.
Os canadenses defendem a necessidade de mais estudos para investigar os efeitos a longo prazo dos implantes cosméticos de mama na identificação e prognóstico de câncer.
Segundo dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica, em 2011 foram realizadas quase 149 mil cirurgias de aumento dos seios no Brasil, colocando o país atrás somente dos Estados Unidos no ranking do número de mulheres que realizam a cirurgia. Em todo o mundo, foram 1,2 milhão de cirurgias.