ASCO20 Virtual Scientific Program
Oncologistas do Instituto Vencer o Câncer falam dos
principais destaques do maior congresso de Oncologia do mundo
A edição de 2020 do Encontro Anual da American Society of
Clinical Oncology trouxe novidades para o tratamento de diversos tumores. Neste
ano, o maior congresso mundial de oncologia foi virtual e reuniu 40 mil
especialistas para discutir novos avanços na prevenção, diagnóstico e terapias
contra o câncer.
A Oncologia brasileira teve um destaque inédito: uma
pesquisa coordenada pelo oncologista Fernando Maluf, fundador do Instituto
Vencer o Câncer (IVOC) foi um dos destaques da sessão oral de próstata. Este é
o primeiro estudo realizado e conduzido integralmente na América Latina a
receber esta distinção, pela importância dos resultados para milhares de
pacientes com câncer de próstata, o tumor mais prevalente entre os homens
brasileiros, depois do câncer de pele não-melanoma.
A pesquisa avaliou um tratamento hormonal que não diminui a
testosterona nos pacientes com câncer de próstata metastático, na maioria das
vezes envolvendo ossos, gânglios, fígado ou pulmões. Os médicos brasileiros
estudaram a hipótese de alternativas livres de ADT (sigla em inglês para
androgen-deprivation therapy ou castração hormonal, que diminui os níveis de
testosterona para patamares baixíssimos, o tratamento mais tradicional para o
câncer de próstata avançado resistente à castração), com a utilização de
medicamentos inibidores de sinalização de andrógenos (apalutamida e
abiratraterona) que podem fornecer alta eficácia, com um perfil de segurança
favorável e efeitos colaterais menores.
“Este estudo brasileiro é a primeira pesquisa mundial que
compara formas novas de hormonioterapia que não levam à diminuição dos níveis
testosterona versus a clássica castração, que causa uma série de efeitos
colaterais tão indesejáveis”, afirma Maluf.
O comerciante José Carlos Oliveira, de 73 anos, recebeu o
diagnóstico de câncer de próstata em 2018, quando seu médico explicou que ele
poderia participar do estudo clínico brasileiro. “Este protocolo permitiu que
eu continuasse trabalhando, seguindo minha vida com poucas alterações. Sinto
uma felicidade muito grande de poder participar da pesquisa e ter um resultado
muito positivo. Espero que, no futuro, represente um benefício para mais
pacientes”, destaca Oliveira.
“É um resultado inédito e agora precisa de um patamar maior,
com maior número de pacientes, para termos resultados com mais certeza”,
ressalta Maluf.
Ainda para câncer de próstata, Fernando Maluf cita dois
estudos promissores. O primeiro avaliou em 200 pacientes o uso de uma nova
droga, inteligente, que liga uma molécula de radioterapia a uma proteína de
membrana presente na célula prostática. A droga é injetada por via endovenosa;
quando ela gruda na célula tumoral, a radiação é liberada de forma intensa no
tumor. A análise comparativa desse medicamento versus quimioterapia mostrou que
esse tratamento dobrou as chances de resposta do PSA e reduziu o risco de
progressão da doença em quase 40% a mais dos pacientes. Segundo o oncologista,
é uma opção para os pacientes com doença avançada que falharam os primeiros
tratamentos hormonais e quimioterápicos.
O outro estudo, com 936 pacientes, avaliou novo papel da
hormonioterapia para diminuir testosterona, só que diferentemente dos hormônios
já usados, que eram injeções, esse é um remédio oral. “O resultado demonstrou
que esse medicamento oral consegue diminuir a testosterona (que alimenta esse
tumor) de forma mais impactante que as injeções, além de reduzir o risco de
complicações cardiovasculares mais de 60% comparado com as injeções. A droga
oral aparentemente é mais eficaz para diminuir a testosterona, pelo menos na
marca de um ano, no qual o estudo foi desenhado, e também é mais segura do
ponto de vista cardiovascular”, explica Maluf. O aspecto negativo é que esse
medicamento ainda não está disponível em nenhum país, mas deve em breve ser
submetido para aprovação.
No câncer de bexiga, o oncologista aponta um estudo com
pacientes em estágio avançado, com doença metastática, premiado como um dos
cinco mais importantes entre mais de 10 mil trabalhos submetidos no congresso.
“Participaram 700 pacientes tratados com quimioterapia e aqueles que tiveram
resposta ou pelo menos controle da doença, foram divididos em dois grupos: um
recebeu imunoterápico e outro, placebo. O estudo que recebeu imunoterapia teve
resultados muito bons”, informa Maluf.
Em câncer de mama, o oncologista Antonio Buzaid, um dos
fundadores do Instituto Vencer o Câncer, ressalta que o encontro da ASCO
apresentou a atualização de um estudo que avaliou o papel das assinaturas
genéticas – genes avaliados na célula cancerosa para verificar se é possível
evitar uso de quimioterapia em uma mulher que já operou. “O teste MammaPrint,
que é aplicado em certas situações, foi atualizado com oito anos de seguimento.
O resultado foi bem, mas não tão bem na mulher mais jovem. Nas mulheres acima de
50 anos, confirmou que não valia a pena dar quimioterapia, mas nas mais jovens,
quando o teste apontou que o uso da quimio poderia não ser uma boa ideia, o
resultado indicou que o grupo que recebeu quimioterapia teve 5% melhor evolução
do que o grupo que não recebeu. Isso incomodou muitos de nós, médicos, que
usamos esse teste e teremos que pensar em outras opções, talvez voltar ao
Oncotype. Não há teste perfeito, mas teremos que rediscutir com nossas
pacientes as opções”, avalia.
O oncologista cita também um importante estudo sobre
sequência de remédios na doença avançada, com um novo medicamento aprovado no
Brasil para câncer de mama, para quem tem alteração no gene PIK three CA, que
ocorre em 40% dos casos desses tumores.
“Pacientes que recebem outro grupo de remédios, chamados
inibidores de CDK4/6, quando usados na primeira linha com anti-hormônio,
aumentam a sobrevida das pacientes em casos de câncer de mama avançado com essa
mutação, aparecendo como boa estratégia”.
Buzaid esclareceu ainda outro estudo com um medicamento que
inibe uma enzima especial em quem tem tumor com alteração genética de nascença.
O remédio, aprovado para pacientes com mutação BRCA1/2 que desenvolvem câncer
de mama, também demonstrou ser eficiente em pacientes que não têm esse defeito
genético do nascimento, mas a célula cancerosa apresenta essa mutação genética.
“Funcionou muito bem nesses casos e também para outro tipo de mutação, em
pessoas que nascem com o PALB2”, afirma Buzaid.
Apesar de não ser o tipo mais comum, o câncer de pulmão é o
que mais provoca mortalidades, tanto no Brasil quanto em outros países. O
oncologista William William, diretor médico de Oncologia Clínica e Hematologia
do Centro Oncológico da BP e integrante do Comitê Científico do IVOC avisa que o
tratamento para esse tumor está sofrendo uma grande revolução nos últimos cinco
a dez anos, com uma maneira de tratar completamente diferente do que era há uma
década. “Os pacientes estão vivendo com mais qualidade de vida, por maior tempo
e aumentando as chances de cura”, avalia.
O médico afirma que um conceito bastante desenvolvido em
câncer de pulmão é o da medicina personalizada. “Hoje entendemos esse tumor não
como uma doença única, mas várias. Cada tumor tem um defeito em suas moléculas,
que faz com que se torne mais ou menos agressivo. Aprendemos que se
identificarmos esse tipo de alteração em cada paciente, podem ser usadas
medicações que atuarão especificamente em cada uma dessas alterações. Se junto
o medicamento correto para o paciente com alteração específica, tenho uma
eficácia bastante grande. A isso chamamos terapia-alvo, a personalização do
tratamento”, explica William, destacando que uma novidade no encontro da ASCO
deste ano foi a identificação de algumas alterações moleculares mais raras, que
adequadamente tratadas levam a um grande controle da doença. “São alterações
que podem acontecer em 1% a 2% dos pacientes com câncer de pulmão”.
Uma das vantagens desses resultados, aponta, é que com
tratamento eficaz da doença avançada, essas estratégias também começam a ser
usadas em casos em que o tumor não está tão avançado. “Antigamente nós
operávamos e eventualmente dávamos alguma quimioterapia preventiva depois, e o
tratamento parava por aí. No congresso vimos que se operarmos, dermos a quimioterapia,
identificarmos o alvo correto e fizermos a terapia-alvo no pós-operatório,
aumentamos as chances de cura do paciente”.
William cita ainda outra importante novidade em câncer de
pulmão, com relação à imunoterapia, que aumenta o sistema de defesa do organismo.
“Vimos combinações de duas imunoterapias diferentes mais quimioterapia sendo
muito eficazes. Essas estratégias estão sendo refinadas e suas combinações
podem levar ao controle da doença por anos; o câncer de pulmão passa a ser uma
doença crônica como diabetes ou pressão alta”.
Buzaid salienta que a imunoterapia para câncer de pulmão
avançado está cada vez mais presente e demonstra sinais de eficácia, até mesmo
de cura numa fração de pacientes seguidos vários anos.
Comentando as apresentações no congresso voltadas ao câncer
de ovário, o mais perigoso dos tumores femininos, Fernando Maluf citou um
estudo importante que avaliou, em pacientes com recidiva da doença, o papel de
uma nova cirurgia, além da quimioterapia. “Um estudo europeu, com 407 pacientes,
mostrou que além da quimioterapia de resgate, para quem a doença infelizmente
voltou, uma cirurgia de resgate tem papel importantíssimo de aumentar a chance
de sobrevida das pacientes. A cirurgia deve ser feita em grandes centros, com
ótimos cirurgiões”.
O oncologista ressalta outra pesquisa importante, com um
inibidor de PARP responsável por evitar que o tumor reconstitua seu DNA quando
está sendo atacado. “O estudo foi feito somente em mulheres com mutação BRCA1 e
2, responsável por 20% dos tumores de ovário. Para esse grupo em que a doença
voltou, após novo tratamento com quimioterapia, essa droga conseguiu manter a
doença controlável em boa parte das pacientes, em comparação com o placebo”.
Um terceiro estudo sobre câncer de ovário trouxe uma droga
com ação de cavalo de tróia – já usada em outros tumores – que se liga a um
receptor da célula do tumor, liberando dentro dela uma substância bastante
tóxica, que não poderia ser liberada no sangue; ela atua como inibidor,
evitando que a célula tumoral se prolifere. A análise envolveu 60 pacientes com
esse tumor que já tinham falhados múltiplos tratamentos. Maluf explica que a
droga proveu resposta de até 64% em pacientes cujas chances de respostas para
medicações normais eram abaixo de 10%.
Sobre câncer de intestino, o oncologista Fábio Kater admite
que “fazia tempo que não tínhamos novidades que pudessem mudar nossa prática
diária e esse ano tivemos, em especial no tumor mais importante do sistema
digestivo e um dos mais frequentes da população”. O trabalho foi realizado com
pacientes que têm uma marcação chamada instabilidade de microssatélite, defeito
que faz com que o organismo reconheça de forma errada a célula maligna,
presente em 4% a 5% desses pacientes. “Os pacientes de câncer colorretal com instabilidade
de microssatélite têm uma resposta bastante diferente; tumores com esse defeito
de reparo talvez respondam menos à quimioterapia”, destacou Kater. O estudo
resolveu considerar a resposta inflamatória que essa alteração provoca e
utilizar imunoterapia ao invés de quimioterapia – até então havia resultados
com uso de imunoterápicos para pacientes com câncer metastático em que havia
falhado o tratamento padrão de quimioterapia. O resultado indicou que a
imunoterapia foi melhor que a quimio nesses casos, com demora maior para o
retorno do tumor e maior chance de resposta. Kater avisa que ainda não é
possível definir se haverá aumento na sobrevida, porque o trabalho não está
maduro suficiente. “Podemos concluir que para pacientes com câncer de intestino
avançado que têm a marca da instabilidade do microssatélite a imunoterapia é
uma ótima opção como primeira abordagem do tratamento. Esse tratamento não
invalida o uso de quimioterapia subsequente, se porventura o paciente não
responder”.
O uso de terapia-alvo em câncer de intestino foi objeto de
um estudo com pacientes com mutação BRAF dentro da célula tumoral, que cria um
cenário menos responsivo aos tratamentos. “Sabíamos que para essa população o
bloqueio de alguns alvos específicos, inclusive BRAF, proporciona respostas
melhores do que a quimioterapia. Mas não sabíamos se isso poderia repercutir em
um ganho de expectativa de vida dos pacientes”, diz Kater, acrescentando que
acompanhamentos mais longos demonstraram que para tumores BRAF com falha de uma
linha de tratamento prévio o bloqueio com drogas-alvo específicas, associadas
ou não a uma terceira droga, era melhor do que o tratamento padrão de
quimioterapia. Segundo o oncologista, como essa opção é mais efetiva e tem
menos efeitos colaterais, deve se tornar a melhor escolha.
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informações sobre o Encontro Anual da ASCO 2020.