sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

“O ideal é curar o câncer. O mais próximo disso é torná-lo crônico”


Pesquisadora de Barcelona, Teresa Macarulla está abrindo portas para tratamentos personalizados na luta contra o câncer de pâncreas, o mais letal de todos


Teresa Macarulla, no hospital Vall d’Hebron Institut d’Oncologia, em Barcelona, em julho último. JUAN BARBOSA

JESSICA MOUZO QUINTÁNS - El País
04 AUG 2019 - 19:00BRT

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“As pessoas resistem à ideia, mas a vida é só química”, diz vencedor do Nobel
Teresa Macarulla (Barcelona, 1974) acaba de participar de um ensaio clínico que lançou luz sobre o câncer mais letal de todos, o de pâncreas. A pesquisa, apresentada neste ano no congresso anual da Sociedade Americana de Oncologia Médica (ASCO), em Chicago, abre as portas para a medicina personalizada nestes tumores tão agressivos. O estudo validou, pela primeira vez, um tratamento teleguiado neste tipo de tumores para um subgrupo de pacientes que têm uma mutação específica (nos genes BRCA): como terapia de manutenção depois da quimioterapia inicial, este fármaco melhora a sobrevivência.

O quartel-general da luta contra o câncer onde Macarulla trabalha se ergue nos contrafortes da serra da Collserola, em Barcelona. Das trincheiras de seu escritório no Vall d’Hebron Institut d’Oncologia, com a cidade a seus pés e o Mediterrâneo ao fundo, a doutora Macarulla visita pacientes, analisa prontuários clínicos, procura bolsas para novos projetos e prepara ensaios. Sempre há algo a fazer. Principalmente quando sua especialidade, os tumores gastrointestinais, aglutina algumas das neoplasias com pior prognóstico, e os recursos para pesquisá-las escasseiam. Contudo, o câncer não para, e a oncologista tampouco pode parar, admite. A montanha e a igreja são seus pontos de recarga.

Pergunta. O câncer corre mais que vocês, os pesquisadores?

Resposta. Acho que não. Se o câncer avança, não o podemos parar, então o que tentamos com cada paciente é nos antecipar com os tratamentos e freá-lo, pará-lo. Tentamos estar à frente, mas o tumor corre, e às vezes custa.

P. Por que a pesquisa de que você participou é importante?

R. Pela primeira vez encontramos um tratamento personalizado para um câncer que até agora só se tratava com quimioterapia. Os pacientes com uma mutação BRCA1 e BRCA2 pela primeira vez contam com um fármaco para eles que, além disso, tem menos efeitos secundários que a químio.

P. Você é dos que acreditam que o câncer será curado ou se tornará crônico?

R. Haverá mais pacientes que serão curados do câncer. Mas dizer que o câncer globalmente se curará me parece um ideal. Acredito que o mais próximo que temos é poder chegar a torná-lo crônico. O que é preciso é ter objetivos alcançáveis.

Centramo-nos no que sabemos: não fumar, comer bem…, mas isto não nos assegura que não vamos ter câncer. E, se tivermos, então a natureza nos pregou uma peça
P. Qual é o caminho para isso?

R. A medicina de precisão. É mais difícil, pelos custos e recursos, encontrar as alterações que o paciente carrega em seus genes. Mas é para isso que nos encaminhamos: nem todos os pacientes são iguais e não podemos tratar todos igualmente.

P. É sustentável a medicina de precisão?

R. Esse é o problema. Provavelmente será preciso fazer um investimento superior no diagnóstico, porque é preciso somar toda a parte de diagnóstico molecular. E direcionamos o tratamento para um nicho menor, sim, mas temos maiores chances de sucesso.

P. A Sociedade Europeia de Oncologia Médica defende o pagamento dos fármacos segundo os resultados obtidos no paciente.

R. É uma boa opção tentar intercalar estas medidas que tornam o sistema mais sustentável. E isto envolve a indústria farmacêutica também. O que queremos, afinal, é que todos os nossos pacientes tenham disponibilidade de fármacos.

P. O código postal influi no prognóstico do paciente?

R. Muito. Na Espanha, cada comunidade [região] decide se um fármaco deve ou não ser aprovado. A equidade não é homogênea.

P. Faltam recursos?

R. Se tivéssemos mais, tudo seria mais fácil. Para o pâncreas, destina-se muito pouco ainda.

P. Ezequiel Emanuel, um dos artífices do Obamacare, diz que não quer viver além dos 75 anos. Rejeita prolongar a vida “porque sim”. Com uma maior sobrevivência ao câncer, estamos desafiando a natureza?

R. Acho que não. E também a natureza está nos pregando peças. Quando vejo essa gente tão jovem com essas enfermidades, não entendo. Não deu tempo de acumular toxicidade e, mesmo assim, eles têm estes tumores. Tem muitas coisas que nós não controlamos ainda. Centramo-nos no que sabemos: não fumar, comer bem…, mas isto não nos assegura que não vamos ter câncer. E, se tivermos, então a natureza nos pregou uma peça.

P. Há pacientes que decidem deixar de lutar e que não querem sofrer mais. O que opina da eutanásia?

R. Minha mentalidade é a de lutar enquanto se puder, gastar todos os cartuchos. E, depois, uma boa paliação, um bom acompanhamento. Daí para frente, não é trabalho do médico poder acabar com uma vida. Defendo que se possa acompanhar até o final, não além. Eu acabar com uma vida é algo que não poderia fazer por minhas crenças, porque me dizem que não é minha responsabilidade.

P. Você não se atreveria?

R. Não é que não me atreva, é que não estou de acordo. Acredito que não somos ninguém para antecipar a morte de uma pessoa. É preciso acompanhá-la e, para isso, lhe dar fármacos que inclusive podem abreviar um pouco a vida do paciente, porque podem causar uma pequena depressão respiratória, mas isto é diferente de que você ativamente acabe com a vida de um paciente. Tudo bem que um paciente peça e que haja um grupo de médicos que faça, mas eu não poderia participar disso.

P. Como concilia a ciência e a fé?

R. É muito compatível. A mentalidade científica tem que estar presente, porque é a única forma de vencer esta doença. A religiosidade é o que me permite empatizar com o doente, dá um pouco de sentido a minha profissão. A fé me ajuda a entender a vida, a morte, e que andam juntas, que você nasce sabendo que morrerá. Cada oncologista tem que encontrar sua fonte de empatia. A minha é esta.

P. Ainda há mais homens que mulheres nesse universo. É mais difícil para vocês?

R. A medida que há mais mulheres nas faculdades de Medicina, isto vai mudando. Temos que acreditar, mas também é preciso que você esteja disposta. Precisa entender que, talvez, não esteja lá no aniversário do seu filho. Se quiser chegar ao topo, também é verdade que é uma questão de tempo.


sábado, 8 de fevereiro de 2020

Maconha aumenta em 36% risco de câncer de testículo, alerta estudo

O impacto pode afetar a produção de espermatozoides
Por Redação - Atualizado em 2 dez 2019, 15h11 - Publicado em 2 dez 2019, 12h37

O uso da maconha está associado a tumores de células germinativas testiculares. David Bebber/Reuters/VEJA

Homens que fumam maconha regularmente apresentam maior risco de desenvolver câncer de testículo, de acordo com uma revisão de estudos publicada na semana passada no Journal of the American Medical Association. A pesquisa indica que o consumo a longo prazo pode aumentar em até 36% o risco de desenvolver câncer testicular em comparação com aqueles que nunca utilizaram maconha.
“O uso regular de maconha está associado ao desenvolvimento de tumores de células germinativas testiculares (que dão origem aos espermatozoides)”, explicaram os pesquisadores no estudo. A maconha, portanto, pode afetar a produção de espermatozoides. Eles ainda analisaram a relação entre outros tipos de câncer e a maconha, mas disseram que as evidências eram insuficientes para confirmar essa associação.
Câncer de testículo
O câncer testicular é caracterizado pelo aparecimento de nódulos no testículo ou mudanças no tamanho do saco escrotal sem a presença de dor. Outros sintomas associados ao câncer de testículo, incluem: diferença na textura ou tamanho de um testículo para o outro, sensação de peso na região e, em alguns casos, dor intensa. Vale ressaltar que às vezes esses sintomas podem não estar relacionado ao câncer, mas é importante procurar um especialista para identificar o problema.
 Os tumores testiculares correspondem a 5% do total de casos de câncer entre homens, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca). Apesar de raro, o problema afeta principalmente homens em idade reprodutiva (15 a 49 anos) – sendo que metade dos pacientes tem menos de 35 anos. Especialistas ainda destacam que o câncer de testículo é mais comum em homens brancos.
De acordo com o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, a doença é um dos tipos mais tratáveis de câncer e com boas perspectivas de recuperação. Por isso, a qualquer sintoma suspeito, os homens devem procurar o médico, pois o diagnóstico precoce melhora consideravelmente as chances de cura.