sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

A verdade sobre recusar tratamentos fúteis de doenças incuráveis


O jornalista Marcelo Rezende faz retiro espiritual (Reprodução/Instagram)
Recusar tratamentos fúteis e degradantes em casos de doenças graves e terminais é um direito, pouco conhecido e aceito, do paciente
Por Ana Claudia Arantes
access_time27 out 2017, 18h38 - Publicado em 27 out 2017, 12h00
http://veja.abril.com.br/blog/letra-de-medico/a-verdade-sobre-recusar-tratamentos-futeis-de-doencas-incuraveis/

Você tem câncer, daqueles considerados os mais graves e agressivos. Não há a menor possibilidade de cura. Nem rezando. Você diz que não quer continuar mais a ser torturado com remédios que te deixam com uma fadiga mortal, te fazem vomitar mais de dez vezes no dia, deixam suas mãos e pés queimando como em brasa e ao mesmo tempo formigando.

Você não tem mais forças para trabalhar e está começando a ficar difícil tomar banho sozinho. Não dorme por causa da dor que não passa com os remédios que te deram para tomar. Não sabe mais qual o sabor da comida, aliás, você talvez nem tenha fome e emagrece todo dia um pouco mais. Não há mais como encontrar dinheiro para pagar as consultas, os exames, as despesas com transporte e sua família já está indo a falência sem ter a sua ajuda financeira, já que você não consegue mais trabalhar. Seu cabelo ralo, sua pele cor de cinzas, sua barriga que cresce, seu cansaço que aumenta.
Tudo te leva a refletir que não existe sentido em continuar com um tratamento que só está te oferecendo muito, mas muito sofrimento. Mas você pode dizer ao seu oncologista que não quer mais? Sim.

A importância dos cuidados paliativos
Você é a pessoa que mais tem capacidade de decisão sobre o que considera digno e pertinente ao seu tratamento. Mas talvez você precise ter paciência com a medicina brasileira de modo geral, pois ainda não chegou ao conhecimento de todos os profissionais da saúde que tratam de pessoas com câncer o que há de mais moderno no tratamento desta doença tão devastadora: cuidados paliativos.

Nos nossos dias, em pleno curso de 2017, tivemos a noticia: TODOS OS PACIENTES COM CÂNCER – INOPERÁVEL OU COM METÁSTASES DEVEM RECEBER CUIDADOS PALIATIVOS JÁ AO DIAGNÓSTICO. A medicina descobriu, através de estudos totalmente baseados em evidências indiscutíveis: quem recebe cuidados paliativos chega a viver CINCO MESES a mais do que os pacientes que apenas recebem tratamentos contra o câncer que não controlam seus sintomas de sofrimento – (Estudo ENABLE III – Educate, Nurture, Advise, Before Life Ends – 2015).


E mais: se os cuidados paliativos forem oferecidos precocemente, a chance de resposta do tratamento do câncer aumenta em 15%. Além de tudo isso, a qualidade de vida é maior, o índice de depressão é menor, o respeito aos seus valores, o apoio incondicional aos seus familiares, a menor incidência de intervenções agressivas e torturadoras nos seus últimos tempos de vida levou os pesquisadores a recomendarem este cuidado a todos os pacientes com câncer.

Conceito pouco conhecido na medicina brasileira
Mas temos um problema extremamente grave no nosso país: muitos profissionais de saúde, desde os que trabalham em pronto socorro de hospital publico até aqueles que são reconhecidos como referências nacionais pensam que cuidados paliativos é não fazer nada e que recomendar esta assistência acelera a morte do paciente, mas isso é uma absoluta mentira.

Profissionais de saúde que jamais se debruçaram sobre qualquer informação de qualidade a respeito do tema, nunca fizeram nenhuma formação, nenhum tipo de estudo, nenhuma especialização reconhecida. Mal sabem como tratar a dor corretamente. Há quem se intitule geriatra por ter uma agenda cheia de pessoas idosas para atender. Mas nunca fizeram nenhuma especialização técnica na área. Eu costumo fazê-los refletir dizendo a caixa preferencial do banco só atende idosos, mas não se tornou geriatra por isso.
Tratamentos fúteis e degradantes
Assim é com cuidados paliativos: atender pessoas que morrem não transforma o profissional de saúde em alguém habilitado e capaz de lidar com o sofrimento humano que o fim da vida produz. Por isso, no caso que descrevo acima o mais comum é levar o paciente a fazer inumeráveis linhas de tratamento até seu último suspiro justificando que se está “lutando” pela vida dele.
Já ouvi histórias macabras de pessoas que morreram DURANTE a infusão de quimioterapia ou foram obrigadas a serem transportadas até a radioterapia agônicas e morreram na maca recebendo a radiação. Alguns me dizem que assim é lutar pela vida até o último minuto. Mas eu digo que assim é morrer errado.

Está errado tecnicamente obrigar um paciente e sua família a serem submetidos a qualquer tratamento degradante e fútil, que não muda em praticamente nada a chance de morte. Utilizar recursos de coação do tipo: mas você quer desistir de viver ou acusar os familiares de tentarem acelerar a morte de seu ente querido deveria ser crime hediondo, mas não é. Pacientes e seus familiares que recusam estes tratamentos são julgados e condenados como pessoas incapazes de decidir sobre o que é melhor para sua vida.

Marcelo Rezende e Steve Jobs
O maior exemplo disso atualmente foi o caso de Marcelo Rezende. Por ter recusado um tratamento dito convencional que não traria a ele nenhuma chance de cura foi duramente criticado, citado como exemplo do erro, da falta de coragem de tratar um câncer que todos sabiam ser incurável e extremamente agressivo, inclusive o próprio paciente. Foi criticado publicamente inclusive por médicos que talvez sofram muito por ter tanta dificuldade de saber o que fazer diante de um paciente que os questiona sobre as intenções de um tratamento sem resultado satisfatório para eles.

Quando o paciente diz que valoriza suas crenças religiosas ele está representando 80% da população brasileira (Kaiser/Economist Survey Highlights Americans’ Views and Experiences with End-of-Life Care, With Comparisons to Residents of Italy, Japan and Brazil, 2017) – que assume sem nenhum pudor que sua fé tem grande influência sobre suas decisões de saúde.
E os médicos e outros profissionais de saúde que tratam de pessoas com doenças graves e que se furtam a aprender e valorizar a espiritualidade e conhecer todos os aspectos relevantes da religião de seus pacientes em geral chegam a cometer graves erros com sua palavra mal utilizada. Desvalorizar a espiritualidade na população brasileira é o mesmo que abrir mão do recurso mais poderoso a favor da saúde de seu paciente e de sua adesão ao tratamento.
Os dilemas discutidos no caso do Marcelo Rezende dizem respeito principalmente à urgência que temos na formação técnica consolidada em cuidados paliativos no nosso país. Não tenho dúvida alguma que se este paciente tivesse tido alguma chance de escolha pela sua dignidade seguindo a medicina de mais alta qualidade dentro da prática de cuidados paliativos, evitando os tais tratamentos não convencionais que oneram tanto quanto o uso de quimioterápicos e outras drogas novas com baixíssima chance de resposta, ele teria seguido sua biografia em direção ao dia de sua morte com mais valor e significado de vida e de sua família.
Para quem ainda não sabe, Marcelo Rezende, Steve Jobs e milhares de pessoas que escolhem não tratar uma doença incurável escolhendo a qualidade de vida que os cuidados de conforto permitem não morreram por não aceitarem receber tratamentos fúteis apesar de convencionais. Eles morreram de câncer.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Virei a página em 2017: jovem vence câncer de mama e escreve 'manual de sobrevivência' bem-humorado


Beatriz Falcão mostra exemplar do seu livro em estante de livraria em Brasília (Foto: Raquel Morais/G1)

Escrita ajudou Beatriz Falcão a superar a doença. Série do G1 mostra pessoas que alcançaram um sonho, superaram uma dificuldade ou mudaram de vida em 2017.


Por Raquel Morais, G1 DF
21/12/2017 06h00  Atualizado há 3 horas

Diagnosticada com um câncer de mama em 2015, a brasiliense Beatriz Falcão, de 30 anos, teve que aprender a viver sem o cabelo e o seio esquerdo, ao mesmo tempo em que tentava lidar com os olhares de pena.

Essa experiência, que ela um dia quis esquecer, foi eternizada no livro "Somos Blindadas – câncer de mama sem tabu", um bem-humorado "manual de sobrevivência" à doença, lançado neste ano.
"[O dia do diagnóstico] foi o pior dia da minha vida, sendo bem honesta. Mas eu decidi, no dia 21 de maio de 2015, que eu não deixaria o câncer me abalar. Eu iria usar esse momento como algo positivo, de autoconhecimento mesmo."

Virei a página em 2017 é uma série de reportagens do G1 que vai contar histórias de pessoas que, como Beatriz, superaram uma dificuldade, realizaram um sonho ou mudaram de vida neste ano que termina.

A suspeita da doença partiu da mãe dela, que é neuropediatra e notou, por causa de um decote, que a filha tinha um nódulo na mama esquerda. Formada em letras, Beatriz dava aulas de francês e fazia revisão de textos, em um ritmo de trabalho sempre acelerado.

"Imaginei, de imediato, a careca. Eu tinha um cabelo na cintura. Foi a primeira imagem que veio [à cabeça]", conta Beatriz.

"Eu não conseguia ouvir mais nada que a médica falava. Só ouvia a palavra câncer, câncer, câncer. Saí um pouco do ar naquele momento."


Beatriz antes do diagnóstico, com cabelo comprido (Foto: Arquivo pessoal)

A confirmação de um "carcinoma ductal invasivo de alto grau" a obrigou a fazer uma pausa. Por uma semana, até que conseguisse ter certeza de que o câncer estava restrito à mama esquerda, a jovem, então com 28 anos, ficou "aérea".

"Eu me obriguei a mudar de postura. Falei 'vamos enfrentar isso, Beatriz, você tem muita vida pela frente, mil sonhos, muita coisa para conquistar, isso vai ser só um capitulozinho da sua vida'."
A escrita surgiu, então, como terapia. Os rascunhos ganharam espaço durante a quimioterapia, no período pós-cirúrgico e também na fase de radioterapia.

Em "Somos Blindadas", Beatriz lança mão dos próprios medos e memórias para dizer a outras mulheres que manter a cabeça "boa" e adotar uma postura positiva ajudam no tratamento. No livro, ela se expõe sem restrições.

"Eu não conseguia parar de escrever. A moça do xerox não aguentava mais me ver, porque toda semana eu tirava uma cópia do livro", conta, entre risos.

"A minha história está aqui", emenda, apontando para um exemplar. "Quando eu estava escrevendo, eu pensava no que a Beatriz poderia enxergar de positivo nisso tudo. A escrita foi a minha forma de enxergar uma maneira positiva de passar por aquilo."

Como sobreviver ao câncer?
O livro de Beatriz é dividido em três partes, todas ilustradas com fotos da jovem.
No primeiro momento, ela fala sobre a importância da "blindagem" e de como uma mulher com câncer de mama pode se fortalecer para o tratamento.

A ajuda dos amigos, a busca pela espiritualidade, a boa alimentação e a prática de exercícios físicos, diz ela, são essenciais durante o processo.

Na segunda parte da obra, Beatriz fala sobre sua experiência com a quimioterapia e a radioterapia e, ainda, sobre a cirurgia de retirada da mama. Ela também "ensina" outras pacientes a lidarem com os olhares de pena.

"Foram muitas as situações, principalmente quando eu usava lencinho e estava sem sobrancelha e sem cílios", conta.

"São muitos os olhares de pena quando você está sem as suas molduras estéticas", diz Beatriz.

"Eu saí careca para restaurante, para balada, para o laboratório onde eu tirava sangue toda semana. As pessoas encaravam."

Beatriz conta que não conseguiu se adaptar à peruca e que, ao longo do tratamento, foi descobrindo como lidar com cada nova fase do cabelo.

“As nossas madeixas têm estágios de crescimento: cabelinho de recém-nascido no primeiro mês, look de guerra com dois meses e Halle Berry em uns seis, sete meses”, escreveu.

“Para cobrir toda a cabeça, são aproximadamente três meses após a última dose de quimioterapia. Em um ano e meio, o cabelo está na altura do queixo, meio repicado, à la Chitãozinho e Xororó", completou.



'Eu saía careca', conta Beatriz (Foto: Arquivo pessoal)

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

5 dicas para identificar se uma pinta é sinal de câncer de pele

Na dúvida, o mais aconselhável é consultar um médico. Mas com as primeiras letras do alfabeto você consegue entender que tipo de pinta apresenta mais risco
Por Ana Carolina Leonardi
access_time5 jun 2017, 13h53
Como a maioria dos tumores, o câncer de pele tem chances melhores de cura quando é diagnosticado cedo. E o autoexame de pintas e manchas podem ser grandes aliados para identificar os primeiros sinais dos diferentes tipos da doença – inclusive o câncer de pele mais grave, o melanoma.

Quem tem muitas pintas já deve ter o hábito de frequentar o dermatologista – que não só sabe dizer melhor que pintas devem ser removidas de acordo com seu aspecto como pode requisitar uma biópsia para chegar a um diagnóstico além de qualquer dúvida.

Mas você saiu do banho e resolveu dar uma geral nas manchinhas do corpo. Como saber se deve se preocupar e procurar um médico rapidamente? Não precisa consultar o Dr. Google (que provavelmente vai te deixar paranoico).
Segundo instruções da dermatologista Amy Derick para o site Business Insider, o passo a passo do autoexame passa pelas 5 primeiras letras do alfabeto:



Estes são exemplos de pintas normais: cores mais claras e uniformes, bordas definidas e formato regular (National Cancer Institute via Skin Cancer Foundation/Reprodução)
A não é de Amor, como diria a Xuxa, mas de assimetria. Divida mentalmente a pinta na metade. Os dois lados dela são iguais? Se eles forem muito diferentes, já é o primeiro sinal de perigo.

é de borda. De novo, a chave é a regularidade. Se a pinta não tiver uma borda arredondada, bem delimitada, e se espalhar sem formato definido, também pode ser indício de melanoma.

C: as pintas que tem mais de uma cor ou são muito escuras também podem representar riscos.

D é de diâmetro. Pintas maiores são associadas com melanoma, mas não deixe de prestar atenção nas pequenas também, porque o câncer pode ser pequeno, menor que o diâmetro de uma caneta, especialmente no começo.

é de evolução. Volte nas categorias acima: se a pinta evoluiu, ou seja, mudou de formato, tamanho ou cor nos últimos tempos, é hora de ligar para o dermatologista, nem que seja por desencargo de consciência.



Os exemplos acima ilustram pintas e manchas que foram diagnosticadas como melanomas (National Cancer Institute via Skin Cancer Foundation/Reprodução)

Se você só tem pintas clarinhas, pequenas e regulares, continue prestando atenção às novas que surgirem. E é bom lembrar que essas dicas não substituem check-ups frequentes com um especialista para o diagnóstico – nem o uso de filtro solar para a prevenção.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

'Em 15 ou 20 anos, o câncer deverá ser uma doença controlada, como a Aids', diz pesquisador do Inca



Câncer é a doença que mais amedronta brasileiros; ela surge de mutações genéticas que transformam células em tumores (Foto: Pixabay/Creative Commons/Qimono)

Especialista em imunoterapia, um dos tratamentos mais avançados contra os tumores, João Viola fala sobre a evolução nas descobertas sobre a doença mais temida pelos brasileiros.

Por BBC
11/12/2017 08h29  Atualizado há 1 hora

Nas décadas de 1980 e 1990, um mal pouco conhecido passou a assombrar o mundo e intrigar os cientistas: a Aids, causada pelo vírus HIV. Altamente letal à época, a nova doença se tornou um pesadelo. O filósofo Michel Focault, o ator Rock Hudson, o cantor brasileiro Cazuza e o lendário roqueiro Freddie Mercury foram apenas algumas das celebridades que morreram em decorrência dela.
Mas três décadas depois do surto inicial, as perspectivas de vida de um portador do vírus do HIV são bem diferentes das daqueles tempos. A eficiência dos coquetéis antirretrovirais é comprovada pelos números - no Brasil, o índice de mortalidade caiu mais de 42% nos últimos 20 anos, e a epidemia é considerada estabilizada. Hoje, a doença que mais assusta os brasileiros não é mais a Aids - e sim o câncer.
Segundo pesquisa do instituto Datafolha, esse é o diagnóstico que 76% das pessoas mais temem ouvir - é visto por elas praticamente como uma "sentença de morte". Só entre o ano passado e o atual, a estimativa era de que 600 mil novos casos surgissem no Brasil.
Mas diferentemente do senso comum, os tratamentos já evoluíram bastante, a ponto de João Viola, pesquisador do Inca (Instituto Nacional do Câncer) desde 1998 e chefe da divisão de pesquisa experimental e translacional do órgão, dizer que "a grande maioria dos cânceres são curáveis". "Hoje a gente tem capacidade de curar doentes. Esse estigma, a gente tem que combater", afirma em entrevista à BBC Brasil.
Por outro lado, ressalta ser difícil poder falar em "cura definitiva" quando se trata da doença, já que ela pode ser extinta em um órgão e voltar em outro. Até por isso, os cientistas trabalham para torná-la "controlável" - assim como é a infecção pelo HIV hoje.
"É muito difícil falar em cura porque, uma vez que você tem, precisa estar sempre em vigilância. Mas o que a gente está prevendo é que, em 15 ou 20 anos, o câncer vai ser a mesma coisa que a Aids. O paciente fica em tratamento-controle por muito tempo, e aí vira uma doença crônica. Isso é bem plausível, bem possível."
Leia os principais trechos da entrevista, na qual Viola fala sobre a evolução no tratamento da doença e as perspectivas sobre seu futuro.

BBC Brasil - Quando falamos em câncer, ainda há um estigma forte e uma ideia de que a doença é uma "sentença de morte", mais ou menos como era a Aids na década de 1980. Hoje, a Aids não foi erradicada, mas consegue ser bem controlada com remédios. O que evoluiu de lá para cá no caso do câncer?
João Viola - Existe uma correlação de desenvolvimento muito semelhante com a Aids, hoje a gente discute o câncer mais ou menos desse jeito. Mas é importante ressaltar que, quando a gente fala em Aids, a gente está falando em uma doença. Quando a gente fala em câncer, a gente está falando em mais de cem doenças diferentes. Há alguns mais agressivos, menos agressivos, mas é uma abrangência de diferentes tipos.
O ponto importante é: a grande maioria dos tumores hoje são curáveis. Desde que sejam identificados mais precocemente. Se a gente consegue identificar o tumor bem precoce, há intervenções com as quais conseguimos curar o paciente.

BBC Brasil - O câncer engloba várias doenças, mas o mecanismo de ação é o mesmo em todas elas, certo? Uma célula ruim que se multiplica e vai afetando um órgão. Por que, então, é tão difícil inibir esse mecanismo que forma os tumores malignos?
João Viola - O câncer é uma doença basicamente genética. Nosso genoma é a informação genética que nós temos, então o câncer tem uma base genética e ele parte de mutações no nosso genoma que alteram a fisiologia daquela célula. Uma célula, como qualquer ser vivo, nasce, divide, diferencia e morre. Toda célula tem que fazer isso. O câncer é uma doença genética que altera essa relação da fisiologia celular, e essa célula passa a se dividir desreguladamente e não morre.
Há um conjunto de genes chamados oncogenes que, quando estão no seu funcionamento normal, são fundamentais para nós. Mas se ele passa por uma mutação que o faz se desregular, isso altera a vida celular. Só que são milhares de genes. A gente já conhece algumas dessas alterações, mas elas são muitas, e relacionadas a diferentes tipos tumorais.
São doenças muito diferentes que podem ter estágios diferentes, e que são causadas por mutações em genes diferentes. O tumor X pode estar mais relacionado ao oncogene Y e por aí vai. Mas o mecanismo é o mesmo: em algum órgão seu, uma célula mutou para uma célula tumoral.
E aí tem uma coisa que a gente chama de microambiente tumoral. Quando a gente tem um tumor que está crescendo, ele altera o ambiente onde está, onde as outras células vivem. Os tumores malignos, além de crescerem naquele local, as células dele saem daquele tumor, pegam a corrente sanguínea e crescem em outros tecidos - que são as metástases. Então retirar o tumor não necessariamente retira o problema.

BBC Brasil - O senhor se formou no final da década de 1980, quando o câncer ainda era pouco conhecido. Um paciente que se descobria com a doença naquela época tinha quais tipos de tratamento disponíveis?
João Viola - O primeiro tratamento que se tem é a cirurgia. Até hoje, a primeira coisa que se faz é tentar retirar esse tumor. Então até que os primeiros quimioterápicos surgissem, era só cirurgia. Mas a probabilidade de curar assim era muito pequena, não vai resolver por causa dos tumores secundários que surgem.
No final da década de 1970, começam a surgir as primeiras químios, as primeiras drogas quimioterápicas que aparecem e que basicamente inibem a divisão celular, ou seja, inibe que aquela célula (tumoral) se divida muito. Só que são drogas completamente inespecíficas. Elas não inibem só a divisão das células tumorais, inibem a divisão das células normais também. Quais são as células nossas que dividem muito? Cabelo, pele, intestino - por isso que as pessoas que passam por químio têm problemas intestinais e perdem cabelo.
Então o que você fazia? Retirava o tumor por cirurgia e tratava por quimioterapia tentando matar aquelas células tumorais que você não sabe onde está. Junto com isso surge também a radioterapia, no século 20. Você tenta matar essas células também por radiação. Esse era o tripé do tratamento.

BBC Brasil - E hoje, três décadas depois, o que há de novidade nos tratamentos?
João Viola - No final do século 20 e início do 21: dois grandes grupos de drogas começam a ser importantíssimos e começam a mudar a perspectiva de vida dos pacientes, junto com as outras.
Uma delas é a terapia-alvo. Você começa a conhecer melhor a biologia do tumor e consegue entender qual é o gene que faz o tumor X, Y, Z, quais são as mutações, e isso é muito importante. No final do século 20, a gente teve o genoma humano mapeado, e aí a gente conhece todos os genes humanos e sabe qual é a estrutura do gene normal.
Sabendo isso, a gente começa a trabalhar em cima do câncer e entender: o gene X está mutado na doença A. E começa a correlacionar os genes e as doenças: esse gene é importante para desenvolver o tumor de mama, esse para o tumor cerebral e por aí vai. Aí começamos a desenvolver drogas que agem especificamente nessas vias que estamos falando, para interferir no gene X, Y ou Z.
Isso é o que a gente chama de terapias-alvo. Se a gente sabe que há tal mutação, a gente vai trabalhar para bloquear essa mutação para se aproximar da cura. As terapias-alvo são um passo à frente da quimioterapia. Porque na quimio você vai lá e mata tudo, a terapia-alvo consegue ir naquele alvo específico.
Uma das possibilidades que a gente tem, além de fazer todos esses tratamentos, é ativar o nosso próprio sistema imune para destruir o câncer, destruir a célula tumoral. Porque temos uma resposta imunológica no organismo contra ela, só que, por diversas razões, o tumor consegue escapar. Mas aí conseguimos modular esse escape e fazer com que as células do sistema imune combatam esse tumor. Essas são as imunoterapias.
Agora uma coisa importante é o custo. Essas terapias não tiram as originais. O paciente continua sendo operado, continua usando químio, radioterapia e mais essas duas outras terapias. O que faz com que hoje o tratamento seja extremamente caro. Teremos que trabalhar isso, mas é um tratamento que está dando muito certo.

BBC Brasil - Se é possível fazer com que o próprio organismo produza os anticorpos para combater as células tumorais, isso significaria uma possível cura definitiva do câncer?
João Viola - Não necessariamente, porque essa resposta autoimune também pode ter consequências ruins. Veja, a maior revolução mesmo contra o câncer que temos hoje é uma outra coisa, os bloqueadores do ponto de checagem imunológico.
Isso funciona assim: tudo em nosso organismo tem algo que acelera e tem um freio, como em qualquer lugar. Para balancear. A resposta imune é a mesma coisa. Há um ponto de checagem em que identificamos que essa célula, por exemplo, é tumoral - aí vem o linfócito e vai tentar matar. Esse linfócito reconhece inicialmente o problema e libera o anticorpo contra ele, mas depois o linfócito passa a ter na sua membrana umas moléculas que vão fazer um freio na resposta imune. Ela freia a resposta imune. Porque você ter uma reposta autoimune exagerada também vai causar doença - por exemplo, as doenças autoimunes.
O tumor é feito pela gente, diferente de uma infecção viral ou de bactéria, que vem de fora. Então a resposta antitumoral é uma resposta que está na gente, ou seja, autoimune, a princípio. Então como qualquer resposta autoimune, o nosso organismo freia essa resposta. Porque indivíduos que apresentam problemas nesse freio têm doenças autoimunes. Há muitas: lúpus, artrite reumatoide....
O que se viu? É que no câncer, se eu venho aqui e bloqueio essa via negativa que freia os linfócitos, eu aumento a resposta antitumoral. Se eu posso ativar a resposta autoimune contra um tumor, também posso bloquear o bloqueador da resposta, que são essas moléculas. E aí o organismo consegue continuar multiplicando os anticorpos e os linfócitos conseguem combater e matar o tumor.

BBC Brasil - O câncer tem esse aspecto de ir e voltar. É possível hoje falar em cura real do câncer?
João Viola - É muito difícil falar em cura, porque uma vez você que tem, precisa estar sempre em vigilância. Você só cura se, depois de 20 anos, não apareceu mais nada. Só posso falar em cura se ela for definitiva. A gente sempre fala que o câncer pode recorrer, sim.
Eu vi a Aids aparecer, depois vi os tratamentos. Então saí da faculdade, e ela não tinha cura. Um paciente que tinha diagnóstico de Aids, isso era uma sentença de morte. Um, dois anos de vida, seis meses. Mas mudou absolutamente, essa terapia tripla que se faz atualmente é uma coisa fantástica. Eu tenho amigos que são HIV positivo, não têm Aids e estão no tratamento há 15 anos.
Mas vira uma doença crônica. É a mesma coisa que estamos falando da diabetes, vai ter que controlar o resto da vida. Hipertensão se trata para o resto da vida. Mas se fizer direitinho, está controlado. Mas não está curado. A Aids, a mesma coisa.

O que estamos prevendo é que, possivelmente, em alguns anos o câncer vai ser assim. É possível que daqui a pouco a gente tenha tratamento e que o paciente fique em tratamento-controle por muito tempo, que vire uma doença crônica. Continue mais ou menos na correlação da Aids.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Novo medicamento contra leucemia começa a ser vendido no Brasil


Por Estadão Conteúdo access_time 5 set 2017, 16h42 - Publicado em 4 set 2017, 18h24 more_horiz
Paciente com câncer recebendo tratamento de quimioterapia em um hospital de San Francisco
Vacina: a droga foi aplicada legalmente no Brasil pela primeira vez no hospital cearense (Justin Sullivan/Getty Images)

Produto é um anticorpo que "ensina" as células de defesa do organismo do paciente a atacar as células doentes

Fortaleza – Um medicamento inovador para o tratamento de leucemia com recidiva começou a ser comercializado no País. A droga Blinatumomab, conhecida como Blincyto, possui tecnologia de ponta e seu mecanismo de ação visa ativar a defesa do próprio organismo do paciente para destruir as células tumorais. A molécula se liga à célula tumoral e à célula imune do paciente, fazendo que o tumor seja destruído pelo sistema imune do próprio paciente.

Um paciente do Hospital São Camilo Cura d’Ars, em Fortaleza (CE), foi um dos primeiros a usar o medicamento assim que ele passou a ser comercializado. Outros 58 pacientes, porém, já haviam sido beneficiados desde 2015 dentro do Programa de Acesso Expandido da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que antecipa o fornecimento de algumas drogas inovadoras de modo restrito, mesmo antes de sua aprovação final no País.

Segundo o responsável pelo tratamento do paciente no hospital São Camilo e pós-doutor em hematologia, Ronald Feitosa Pinheiro, o medicamento é indicado justamente para o caso do paciente em questão.

O tratamento foi iniciado na última sexta-feira, 1º, e o paciente já demonstra sinais de melhora. Segundo Pinheiros, “as ‘células ruins’ caíram de 60 mil para 4 mil”. A duração total do tratamento é de 28 dias.

Correção

Ao contrário do informado inicialmente nesta reportagem, que recebeu o título “Paciente de hospital em Fortaleza é o 1º do País a receber vacina para tratar câncer”, o Blincyto não é uma vacina, nem o paciente de Fortaleza foi o primeiro a recebê-lo.

De acordo com o laboratório Amgen, que produz a droga, trata-se de um anticorpo monoclonal, cujo mecanismo de ação visa a ativar a defesa do próprio organismo do paciente para destruir as células tumorais. Desse modo, não é uma vacina, pois o tratamento com o produto não tem fim preventivo.

Ainda segundo a empresa, é indicado para tratamento da Leucemia Linfoblástica Aguda (LLA), de precursores de célula B, recidivada ou refratária, em adultos.
Desde 2015, por meio do Programa de Acesso Expandido da Anvisa, o produto já vinha sendo oferecido de modo gratuito a pacientes brasileiros.

De acordo com a Amgen, 58 pessoas foram beneficiadas neste período. A novidade é que em julho ele teve o preço aprovado pela Anvisa e, agora, a droga passou a ser comercializada no País. Ela é coberta por planos de saúde.

Por meio de nota, a empresa também alertou que o tempo de tratamento ainda é curto para falar em melhora. “A Amgen fica muito satisfeita em saber que, na percepção do médico responsável, o paciente já vem apresentando sinais de melhora. Porém, apesar do índice apontado como sinal de melhora – contagem de células tumorais – ser um dos indicativos de resposta ao tratamento, este é um período muito curto para medir e confirmar o sucesso da terapia”, informou a empresa.


O tratamento consiste em ciclos de 28 dias. Podem ser realizados, conforme indicação em bula, até 5 ciclos, dependendo da resposta do paciente e da decisão do médico.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

‘Angelina fez mais pelo câncer de mama que a sociedade médica’


Acompanhe o 'Estúdio VEJA' sobre conscientização e prevenção do câncer de mama neste Outubro Rosa
access_time12 out 2017, 20h50 - Publicado em 12 out 2017, 19h07

câncer de mama e sua prevenção, causas e tratamentos é o tema da conversa da repórter Natalia Cuminale com o doutor e presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia Antônio Frasson. Na entrevista, o mastologista ressaltou a contribuição da atriz Angelina Jolie no combate à doença. 

“Angelina Jolie foi um fenômeno mundial. Ela fez mais pelo câncer de mama do que todas as sociedades médicas nos últimos 50 anos”, afirma Frasson. O mastologista explicou que as ações da atriz popularizaram exames para detectar mutações que levam a esse câncer.

Antes, no Brasil, o teste BRCA, que avalia a presença de genes que predispõem ao desenvolvimento de câncer precoce, custava 12 mil reais. Hoje sai em torno de 1.500 reais. Nos Estados Unidos, graças à luta de Angelina, o custo é de 149 dólares.
Além disso, Frasson mostrou que há boas e más notícias em relação a esta doença no país. Apesar do número de casos deste tipo de câncer ter aumentado entre mulheres jovens, houve muitos avanços nas técnicas de cirurgia para remoção do tumor e reconstrução da mama. Ele completa afirmando que alimentação saudável, atividade física regular e manter o peso ideal são hábitos preventivos.