terça-feira, 15 de maio de 2018

12 mitos e verdades sobre hábitos de vida relacionados ao câncer


Excesso de açúcar, sedentarismo e tabagismo são alguns dos fatores que podem aumentar o risco da doença
access_time14 maio 2018, 15h04
https://exame.abril.com.br/estilo-de-vida/12-mitos-e-verdades-sobre-habitos-de-vida-relacionados-ao-cancer/

São Paulo – É fato que os hábitos de vida que você tem podem ou não contribuir para o surgimento de algumas doenças, entre elas, o câncer. Um estudo recente divulgado pelo Observatório de Oncologia apontou que a doença é a principal causa de morte em mais de 500 cidades brasileiras e – coincidentemente ou não – a maioria delas está localizada em regiões desenvolvidas, onde a expectativa de vida é maior, mas o estilo de vida costuma ser mais frenético.

No país, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima a ocorrência de 600.000 casos novos a cada ano para o biênio 2018-2019. Entre os mais jovens, de acordo com o Inca, o câncer já é a segunda maior causa de morte de pessoas entre 15 a 29 anos, perdendo apenas para “causas externas”, que envolvem óbitos por acidentes e violência.

Segundo Cristiano Guedes Duque, oncologista da Oncoclínica, um dos aspectos mais importantes para a prevenção do câncer diz respeito ao nível de evidências científicas que atribuem hábitos de vida ou exposição a substâncias ao desenvolvimento da doença.

 “A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), órgão da Organização Mundial da Saúde, estabelece uma série de critérios antes de classificar uma substância como carcinogênica, ou seja, capaz de provocar ou estimular o aparecimento do câncer em um organismo. Ao adotar hábitos de vidas saudáveis e evitar a exposição às substâncias relacionadas pela agência, evita-se não somente o câncer, mas também uma série de doenças potencialmente graves”, explica o especialista.

Ainda de acordo com Duque, uma dieta rica em açúcar, a obesidade, a exposição à fumaça do cigarro e o sedentarismo estão diretamente ligados ao risco de adoecimento e mortes relacionadas ao sistema cardiovascular, como o infarto agudo do miocárdio. “Em uma sociedade que passa por grandes mudanças relacionadas à alimentação e hábitos de vida, ficar atento aos itens relacionados ao câncer não somente ajuda a evitar essa doença, como também contribui para uma vida mais saudável”, afirma o oncologista.
Predisposição X estilo de vida
Também da Oncoclínica, a oncologista Adriana Scheliga lembra que o câncer é resultado de danos ou mutações genéticas que podem ocorrer no DNA das pessoas. Por isso, alguns tipos estão fora de nosso controle, determinados por defeitos genéticos e predisposições transmitidas de geração para geração, ou estimulados por mudanças genéticas pelas quais passamos ao longo da vida.
“Também sabemos, no entanto, que respirar certas substâncias, comer determinados alimentos e até mesmo usar alguns tipos de plásticos elevam o risco de desenvolver alguns tipos de câncer”, afirma Adriana.
Juntos, os especialistas listaram alguns mitos e verdades sobre hábitos de vida relacionados ao câncer. Confira a seguir:
1 – Tabagismo
Trata-se da principal causa no mundo inteiro de doenças e mortes evitáveis. Estima-se que o cigarro esteja relacionado à morte de quase a metade de seus usuários no longo prazo. Por isso, a recomendação é não fumar e não utilizar nenhuma forma de tabaco. A renúncia do tabaco é a forma mais eficazes na prevenção do câncer, já que ele está relacionado não só ao câncer de pulmão, como também aos de cabeça e pescoço, bexiga, mama, entre tipos.
2 – Tabagismo passivo
Também pode causar câncer e outras doenças crônicas, inclusive em crianças. Não se deve fumar dentro de casa. Devem ser estimuladas, por exemplo, medidas para que todos os ambientes de convívio social fiquem livres da fumaça do cigarro. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças Americano (CDC) afirma que os chamados fumantes-passivos, ou seja, aqueles expostos ao fumo passivo em casa ou no trabalho aumentam o risco de desenvolver câncer de pulmão em até 20% a 30%.
3 – Controle do peso
Manter o peso sempre controlado, o que inclui ter uma dieta saudável e praticar atividade física, pode reduzir em até 18% o risco do surgimento de câncer.
4 – Exercícios
O recomendável é que as pessoas se mantenham moderadamente ativas por pelo menos 30 minutos por dia. O tempo gasto na posição assentada deve ser reduzido.
5 – Dieta
De acordo com os especialistas, devem ser evitados alimentos com excesso de calorias (tanto por açúcar como por gorduras). O açúcar refinado branco, presente em doces, biscoitos e muitos produtos industrializados, quando consumido em excesso pode levar à obesidade, a alterações metabólicas e até ao desenvolvimento do diabetes mellitus. A obesidade pode aumentar o risco de desenvolvimento de câncer de mama, cólon e reto, esôfago, rim e pâncreas.
É importante lembrar, no entanto, que o açúcar está presente em diversos alimentos como componente natural essencial.
Alguns exemplos são a frutose nas frutas e a lactose nos derivados de leite. A utilização de açúcar isoladamente não pode ser considerada um fator de causa e efeito de câncer.
6 – Alimentos processados
Além do açúcar, qualquer alimento que venha em um invólucro de plástico e esteja industrialmente selado foi projetado para durar meses sem estragar. Cientistas na França recentemente demonstraram uma relação entre pessoas que comem mais alimentos processados e aqueles que desenvolvem câncer. Porém, ainda não há certeza se o problema são os ingredientes estabilizadores do produto, a embalagem plástica ou a combinação dos dois. Por isso, mais estudos são necessários para de fato comprovar a correlação de causa e efeito. Já alimentos como os embutidos (linguiças, salsichas, presuntos e apresuntados, entre outros) são apontados como grandes vilões.
7 – Álcool
Se a pessoa já possui esse hábito, deve procurar limitar a quantidade. O melhor para a prevenção do câncer é evitar o consumo de bebidas alcoólicas. O consumo de álcool regular pode aumentar o risco de câncer de cabeça e pescoço, fígado, mama e cólon. E esse risco aumenta conforme a quantidade ingerida, quanto maior o consumo, maior a chance, principalmente quando associado ao habito de fumar.
8 – Exposição ao sol
A luz solar natural é um agente causador de câncer de pele. No Brasil, segundo dados do o Inca, o câncer de pele não melanoma é o tumor mais frequente em ambos os sexos. A exposição excessiva e sem proteção, como aqueles que trabalham ao ar livre ou mesmo a exposição recreativa excessiva em praias e piscinas, deve ser evitada por meio do uso de protetores solares, roupas, chapéus e óculos protetores.
9 – Bronzeamento artificial
Não deve ser realizado também o bronzeamento artificial, pois existe de fato um aumento considerável do risco de desenvolver tumores malignos de pele em pessoas que utilizam a técnica, principalmente se hábito começou antes dos 35 anos.
10 – Carne vermelha
A Organização Mundial de Saúde (OMS) sugere que a carne vermelha possa estar ligada ao aumento do risco de câncer colorretal. Além disso, há algumas evidências que indicam que sua contribuição para o câncer pancreático e de próstata, embora essa evidência não seja tão forte.
As carnes defumadas e churrascos provavelmente também aumentam o risco de câncer, porque quando são assadas em fogo muito quente ou são fritas em altas temperaturas eliminam substâncias, como as aminas heterocíclicas e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, que em contato com as chamas aumentam os produtos químicos cozidos na carne consumida.
Os pesquisadores não estão certos de que esses produtos químicos causem câncer. Contudo, em testes de laboratório, o DNA celular sofre mudanças que podem aumentar o risco de câncer.
11 – Trocar o dia pela noite
A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer classificou o trabalho noturno como um provável fator desencadeador de câncer. Os pesquisadores acreditam que trabalhar à noite e ficar durante longas horas na escuridão podem atrapalhar os ciclos naturais de sono e vigília circadianos do corpo e, de alguma forma, estar ligados a um aumento do risco de câncer.
12 – Vacinação
Alguns tipos de vacina, como as contra a hepatite B e HPV, também podem evitar o câncer por isso, quando possível, vale a pena tomá-las.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Exame de sangue para câncer encontra oito tipos de tumores


Cientistas desenvolvem exame de sangue que detecta oito tipos de câncer em estágio inicial

Teste em estudo detectou cânceres nos ovários, no fígado, no estômago, no pâncreas, no esôfago, no reto, no pulmão e na mama.

Por France Presse
19/01/2018 08h19  Atualizado há 59 minutos

Um novo exame de sangue para o câncer se mostrou promissor para detectar oito tipos diferentes de tumores antes de eles se espalharem para outras partes do corpo, oferecendo esperança de detecção precoce, disseram pesquisadores nesta quinta-feira (18).

Mais estudos são necessários antes de que o teste, chamado CancerSEEK, possa se tornar amplamente disponível por um custo projetado de cerca de US$ 500, disse o estudo publicado na revista científica americana Science.

O estudo, liderado por pesquisadores da Universidade Johns Hopkins, envolveu 1.005 pacientes cujos cânceres - já pré-diagnosticados com base em seus sintomas - foram detectados com uma taxa de precisão de cerca de 70% no total.

Os cânceres foram detectados nos ovários, fígado, estômago, pâncreas, esôfago, cólon ou reto, pulmão e mama.

Para cinco desses tipos de câncer - ovário, fígado, estômago, pâncreas e esôfago - não há exames de rastreio disponíveis para pessoas de risco médio.

O exame foi capaz de detectar esses cinco tipos com uma faixa de sensibilidade de 69% a 98%.
Em 83% dos casos, o exame foi capaz de delimitar onde o câncer estava anatomicamente localizado.

O teste é não invasivo e baseado na análise combinada de mutações de DNA em 16 genes de câncer, bem como dos níveis de 10 biomarcadores de proteínas circulantes.

"O objetivo final do CancerSEEK é detectar o câncer ainda antes - antes de que a doença seja sintomática", afirmou o estudo.

Reação de especialistas: mais estudos são necessários
Especialistas de fora do estudo disseram que é necessário que haja mais pesquisas para descobrir a verdadeira precisão do teste e se este seria capaz de detectar cânceres antes do aparecimento de sintomas.

"Isso parece promissor, mas com várias ressalvas, e uma quantidade significativa de pesquisa adicional é necessária", disse Mangesh Thorat, vice-diretor da Unidade de Ensaios Clínicos Barts da Universidade Queen Mary de Londres.

"A sensibilidade do teste no câncer de estágio I é bastante baixa, cerca de 40%, e mesmo nos estágios I e II combinados parece ser em torno de 60%. Portanto, o exame ainda vai deixar escapar uma grande proporção de cânceres no estágio em que nós queremos diagnosticá-los".

Nicholas Turner, professor de oncologia molecular no Institute of Cancer Research, em Londres, apontou que a taxa de falso positivo de 1% do teste pode parecer baixa, mas "poderia ser uma preocupação significativa para o rastreamento da população. Poderia haver muitas pessoas que são informadas que têm câncer que talvez não tenham".

No entanto, Turner descreveu o artigo como "um passo ao longo do caminho para um possível exame de sangue para detectar câncer, e os dados apresentados são convincentes a partir de uma perspectiva técnica sobre o exame de sangue".

Muitos outros esforços estão em andamento para desenvolver exames de sangue para o câncer.
"Eu não acho que esse novo teste realmente tenha movido o campo da detecção precoce muito para a frente", disse Paul Pharoah, professor de epidemiologia do câncer na Universidade de Cambridge.

"Continua sendo uma tecnologia promissora, mas que ainda deve ser comprovada".

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Nove são presos por desviar remédios de alto custo para tratamento de câncer em 3 estados e no DF

Investigação aponta que grupo conseguiu R$ 16,5 milhões ao revender medicamentos para hospitais e clínicas entre setembro de 2014 e maio de 2016.


Por Bruno Tavares e Robinson Cerântula, TV Globo e G1 São Paulo
31/01/2018 07h40  Atualizado há menos de 1 minuto
Nove pessoas foram presas na manhã desta quarta-feira (31) acusadas de desviar medicamentos de alto custo de órgãos públicos. A investigação aponta que o grupo conseguiu R$ 16,5 milhões ao revender medicamentos para hospitais e clínicas entre setembro de 2014 e maio de 2016.
Os nove mandados de prisão e 16 de busca e apreensão da operação Medlecy 2 foram cumpridos em São Paulo, Goiás, Espírito Santo e Distrito Federal. Eles foram presos pelas práticas de organização criminosa e crime contra a saúde pública.
A operação coordenada pela Corregedoria Geral da Administração, do Governo do Estado de São Paulo, e o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público, é desdobramento das investigações iniciadas em abril de 2015 em Bauru, no interior paulista, que apurou a atuação de grupo criminoso.
Segundo essa primeira investigação, os criminosos conseguiam medicamentos de alto custo de origem ilícita, como furto, roubo e desvio de órgão público, para, em seguida, por meio de empresas de fachada, promover a venda desses medicamentos a clínicas e hospitais. Nesta operação, nomeada de Medlecy, foram cumpridos 12 mandados de prisão e oito continuam presos.
Ao término dessa investigação, que durou cerca de um ano, o Gaeco ofereceu denúncia contra 15 pessoas residentes em Piratininga, Bauru, São Paulo, Campinas, Ribeirão Preto e Goiânia por organização criminosa, crime contra a saúde pública e receptação dolosa qualificada.
Após essa primeira investigação do Gaeco, a Corregedoria identificou que caixas dos medicamentos de alto custo recuperadas durante a operação inicialmente tinham sido vendidas à Secretaria de Estado da Saúde para o tratamento de câncer. Pelos valores de aquisição, cada caixa custava cerca de R$ 8 mil.
A Corregedoria também identificou que um dos investigados é funcionário público do estado de São Paulo e trabalha como motorista no Instituto de Infectologia Emílio Ribas. Entre abril e maio de 2016, o servidor teria recebido R$ 125 mil em depósitos bancários.
Paralelamente ao cumprimento dos mandados, estoques das farmácias de alguns hospitais estaduais foram vistoriados.


19/05/2016 15h45 - Atualizado em 19/05/2016 17h57
Quadrilha que desviava remédios participava de licitações, diz Gaeco
Foram apreendidos R$ 4 milhões em medicamentos de alto custo.
Doze pessoas foram presas na operação no interior de São Paulo.
Do G1 Bauru e Marília
quadrilha presa nesta quinta-feira (19) em uma operação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de Bauru (SP), contra fraudes em notas fiscais de medicamentos de alto custo, é suspeita de desviar medicamentos para tratamento de câncer de hospitais e depois participar de licitações para vender os produtos para instituições de saúde. A operação é realizada em conjunto com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a Polícia Militar.
As investigações apontam que um distribuidor de medicamentos receberia esses produtos, desviados com a ajuda de funcionários de instituições de saúde, e entraria em processos de licitação para vendê-los aos hospitais, segundo o Gaeco.
Já foram apreendidos R$ 4 milhões em medicamentos, a maioria de uso restrito de hospitais. Em nota, o Gaeco informou que 11 pessoas foram presas preventivamente e uma está em prisão domiciliar. Seis prisões ocorreram em Piratininga e Bauru, três em Ribeirão Preto, uma em Campinas, uma em São Paulo e uma em Goiânia (GO).
Segundo as investigações, que começaram há um ano, um funcionário desviava medicamentos da Santa Casa de Araraquara e vendia os remédios por preços bem abaixo do mercado. A Anvisa começou a suspeitar desse desvio e procurou o Gaeco que junto com o serviço de inteligência da Polícia Militar iniciou as investigações em várias cidades do estado de São Paulo e também em Goiânia.
Remédios na casa
Boa parte dos medicamentos apreendidos foi encontrada em uma casa que fica na Vila Indepedência, bairro de Bauru (SP). Segundo o sargento da PM, Jairo Constâncio, os medicamentos, a maioria para usada no tratamento de câncer, eram estocados na casa até serem distribuídos.
No bairro Ferradura Mirim, também em Bauru, foram encontrados muitos medicamentos em um escritório e duas pessoas foram presas.    
Gaeco também cumpriu um mandado de busca e apreensão na residência de um funcionário da Santa Casa de Araraquara. Na casa do funcionário, no bairro Santa Angelina, os policiais que participaram da ação encontraram três caixas do medicamento Glivec, utilizado no tratamento de pessoas com câncer, com custo estimado de R$ 5 mil cada.
O suspeito não estava no imóvel e a equipe foi até o escritório dele na Santa Casa para realizar novas buscas, mas ele também não foi encontrado no hospital. A esposa do funcionário foi levada para a Delegacia de Investigações Gerais (DIG) e está prestando depoimento.
"Ele não foi localizado, mas, após uma minuciosa busca na residência, foram localizadas três caixas de remédios com valor estimado no mercado de R$ 15 mil, então, de certa forma, a operação foi um sucesso e agora as investigações da DIG e do Gaeco com certeza vão colaborar para descobrir como é a ramificação desse grupo criminoso", disse o tenente da Polícia Militar Richard Braga de Oliveira.
Em nota, a Santa Casa de Araraquara ressaltou que o investigado é o funcionário e não a instituição e que o trabalhador em questão foi afastado imediatamente das funções que exercia. A nota esclarece ainda que a Santa Casa abriu às portas para a ação da polícia e tem colaborado com as investigações do Ministério Público.
Entenda a operação
O Gaeco de Bauru, em conjunto com integrantes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e da Polícia Militar, promoveu nesta quinta-feira (19) uma 
operação para prender uma quadrilha suspeita de fraudar notas fiscais de medicamentos de alto custo e vender os produtos no mercado.
Só em um dos locais vistoriados foram apreendidos caixas de medicamento que custam em média R$ 5 mil cada. Carros de luxo utilizados pelo grupo também foram apreendidos em Piratininga. Foram cumpridos 37 mandados de prisão, busca e apreensão em Bauru, Piratininga, Arealva e Agudos, além de Ribeirão PretoCampinasGuarulhosJundiaíMonte Mor, Araraquara, São PauloOsasco, e Goiânia.
Os integrantes da quadrilha podem responder por organização criminosa, crime contra à saúde pública e receptação dolosa qualificada.

sábado, 31 de março de 2018

Nova estratégia para vacina contra o câncer é testada com sucesso


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 (Karoly Arvai / Reuters/Reuters)
O desenvolvimento de uma vacina contra o câncer é um objetivo buscado por diversos grupos no mundo desde o início do século XX
Por Karina Toledo, da Agência Fapesp
access_time31 mar 2018, 05h55
Ao combinar diferentes linhagens de células tumorais geneticamente modificadas, cientistas de Campinas (SP) conseguiram resultados promissores no tratamento de tumores em camundongos. O objetivo da pesquisa, apoiada pela FAPESP, é desenvolver uma vacina capaz de estimular o sistema imune a combater o câncer.
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O trabalho vem sendo conduzido no Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), durante o doutorado de Andrea Johanna Manrique Rincón, sob a coordenação de Marcio Chaim Bajgelman.

“Testamos várias combinações de linhagens tumorais geneticamente modificadas e algumas foram capazes de impedir totalmente o tumor de crescer. Os resultados sugerem que a resposta antitumoral induzida pelo tratamento é duradoura, o que seria interessante na prevenção de recidivas”, disse Bajgelman à Agência FAPESP.
Como explicou o pesquisador, o desenvolvimento de uma vacina contra o câncer é um objetivo buscado por diversos grupos no mundo desde os experimentos do norte-americano William B. Coley (1862-1936), que usava vacinas antitumorais derivadas de microrganismos no início do século 20.
O modelo mais bem estabelecido é a GVAX, vacina composta de células tumorais autólogas (do próprio indivíduo a ser tratado) geneticamente modificadas para secretar a citocina GM-CSF (fator de estimulação de colônias de granulócitos e macrófagos, na sigla em inglês) e irradiadas para evitar que se proliferem descontroladamente no organismo.
“A GVAX foi testada em um modelo tumoral em camundongos, no qual as células de melanoma [sem modificação] são injetadas na veia da cauda. O tumor se instala no pulmão e causa a morte do animal em cerca de 28 dias. Com a GVAX [aplicada após a doença ter sido induzida], foi possível reverter o quadro e aumentar a expectativa de vida nos animais desafiados”, contou Bajgelman
Embora a GVAX tenha apresentado resultados animadores em roedores, não foi observado o mesmo desempenho nos ensaios com humanos.
A citocina GM-CSF usada na GVAX é considerada um imunomodulador, pois estimula a proliferação e a maturação de diferentes tipos de células de defesa. Em seu laboratório no LNBio, Bajgelman desenvolveu outras duas linhagens de melanoma capazes de secretar substâncias imunomoduladoras, como o ligante de 4-1BB e o ligante de OX40L.
As modificações genéticas foram feitas com auxílio de vírus recombinantes, que infectam as células tumorais e levam para seu interior o gene que codifica o imunomodulador. Depois de estabelecidas, as linhagens modificadas foram expostas à radiação.
“Quando irradiamos as células tumorais modificadas elas perdem a capacidade de gerar tumor, mas ainda servem para estimular o sistema imune”, explicou.
A ideia, com o tratamento, é fazer com que os linfócitos T – células de defesa que coordenam a resposta antitumoral – passem a enxergar as células cancerosas como inimigos a serem combatidos.
De acordo com Bajgelman, dados da literatura científica indicam que portadores de câncer costumam apresentar concentrações elevadas de um tipo de linfócito conhecido como célula T regulatória (Treg), cujo papel é inibir a proliferação de outros tipos de linfócitos que poderiam atacar as células tumorais.
Em uma situação fisiológica, as células Treg têm a importante missão de trazer equilíbrio ao sistema imune, para que tecidos do organismo não sejam atacados desnecessariamente. Mas, em portadores de câncer, disse Bajgelman, elas podem ajudar a proteger o tumor.
“Os ligantes 4-1BB e OX40L podem interagir com receptores existentes na superfície da célula T fazendo com que sua ativação seja potencializada. Nossa estratégia foi gerar vacinas que secretam esses ligantes e combinar com a GVAX, que secreta GM-CSF”, disse Bajgelman.
A combinação, explicou o pesquisador, permite estimular duas etapas do ciclo imunológico antitumoral: ativa a célula dendrítica, que é responsável por “apresentar” ao linfócito T os antígenos do tumor, e coestimula as células T, impedindo que assumam o fenótipo imunossupressor.
Primeiros testes
Diferentes combinações das três linhagens tumorais modificadas foram testadas no LNBio, em experimentos com camundongos. Tumores foram induzidos por meio de injeções subcutâneas de células de melanoma na lateral do corpo.
“Cerca de dois dias depois de induzir o tumor iniciamos o tratamento com as vacinas. Foram três doses, com intervalos de dois dias cada”, contou o pesquisador.
“Testamos as três linhagens de maneira isolada e todas elas conseguiram reduzir o crescimento do tumor em comparação ao controle [animais que receberam apenas as células tumorais não modificadas]. Em um segundo ensaio, testamos combinações de duas linhagens e o tumor cresceu bem menos do que com a monoterapia. Em alguns casos, o tumor foi totalmente suprimido”, contou Bajgelman.
Já a combinação das três linhagens modificadas combinadas em um único tratamento apresentou bom resultado em ensaios in vitro, mas não teve o desempenho esperado nos testes com animais.
“Já haviam sido descritos na literatura científica ensaios com esses imunomoduladores feitos de maneira isolada. Nós testamos, pela primeira vez, as diferentes combinações de linhagens imunomodulatórias”, disse o pesquisador.
Em outro experimento, os animais que já haviam sido tratados com as combinações vacinais que impediram o crescimento do tumor foram novamente “desafiados” – 30 dias depois – com uma nova injeção de células tumorais não modificadas, com potencial de formar tumores.
“Os animais que não desenvolveram tumor no primeiro protocolo também não desenvolveram nesse segundo desafio. Parece que o organismo criou uma memória imunológica e foi capaz de eliminar as células assim que foram injetadas. Os roedores foram acompanhados por mais de um ano e não manifestaram a doença”, disse Bajgelman.
Na avaliação do cientista, esse tipo de estratégia poderia ser usado em sinergia com outros tratamentos, como a remoção cirúrgica do tumor e a quimioterapia.
“Não é raro sobrarem algumas células tumorais no organismo após o tratamento convencional. A imunoterapia poderia proteger o paciente contra recidivas.”
Os resultados dos testes com camundongos foram divulgados em artigo publicado na revista Frontiers of Immunology.
O grupo do LNBio pretende agora criar linhagens tumorais modificadas a partir de células humanas e iniciar os primeiros ensaios in vitro.
“Para isso estamos gerando os vírus recombinantes com genes humanos. A ideia é usar os mesmos imunomoduladores testados em camundongos”, contou Bajgelman.


domingo, 4 de março de 2018

Esta arma microscópica pode reinventar a luta contra o câncer



Células com câncer (CIPhotos/Thinkstock)

Raios laser microscópicos podem destruir as células responsáveis pela metástase, dizem cientistas. Entenda a descoberta

Por Claudia Gasparini access_time 17 set 2017, 16h14 - Publicado em 17 set 2017, 15h21 more_horiz

São Paulo — A guerra contra o câncer pode ganhar, em breve, um exército de pequenos (mas poderosos) aliados: raios laser minúsculos capazes de atrapalhar a disseminação de células cancerosas pelo organismo.

Capaz de revolucionar o tratamento da doença, a descoberta foi divulgada por Vladimir Zharov, da Universidade do Arkansas, e Mark Stockman, da Universidade Estadual da Geórgia, nos Estados Unidos.

Segundo a revista “The Economist”, os pesquisadores têm testado a hipótese de que uma “chuva” de raios microscópicos pode buscar e destruir células tumorais circulantes (CTC).

As CTCs se originam do tumor primário e, caso sejam negligenciadas, podem se alojar em diversas partes do corpo e desenvolver cânceres secundários. O processo é conhecido como metástase.   

O laser microscópico usado nos testes de Zharov e Stockman foi batizado como “spaser”, uma abreviação de “Surface-Plasmon Amplification by Stimulated Emission of Radiation” — em tradução livre, amplificação de plásmons de superfície por emissão estimulada de radiação.

Os tais “plásmons de superfície” são nuvens de elétrons que oscilam em uma superfície condutora elétrica, e são produzidas em resposta ao estímulo da luz.

Como os raios agem?

Os spasers têm 22 nanômetros (ou bilionésimos de um metro) de diâmetro e são compostos por um núcleo de ouro e uma capa de sílica com corantes fluorescentes. A parte externa do dispositivo também contém ácido fólico.

Esse último componente serve como uma bússola para encontrar a disseminação da doença. Ao contrário das células saudáveis, as células da metástase normalmente são recobertas por moléculas receptoras de folato. Revestido por ácido fólico, o spaser “gruda” nessas células e acaba sendo absorvido por elas.

O próximo passo é identificá-las. Ao lançar uma luz laser de baixa potência sobre o organismo do paciente com câncer, é possível ver as células cancerosas unidas aos spasers brilharem. Isso ajuda a revelar sua localização. 

Quando se aplica um laser mais forte, os pequenos dispositivos se transformam em armas destrutivas: estimulados pela luz, eles produzem plásmons que ganham temperatura, criam bolhas de vapor e finalmente explodem as células.

O sistema tem sido testado em animais, com resultados promissores. Os dois pesquisadores agora se preparam para fazer experimentos com seres humanos. Se tudo der certo, eventuais cânceres secundários poderão ser contidos enquanto se luta contra o câncer principal. 

Ainda não há como determinar quão completa seria a destruição de CTCs causada pelos raios. Porém, até uma eliminação parcial dessas células pode ajudar a inibir a metástase e, assim, contribuir decisivamente para o tratamento.


sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

A verdade sobre recusar tratamentos fúteis de doenças incuráveis


O jornalista Marcelo Rezende faz retiro espiritual (Reprodução/Instagram)
Recusar tratamentos fúteis e degradantes em casos de doenças graves e terminais é um direito, pouco conhecido e aceito, do paciente
Por Ana Claudia Arantes
access_time27 out 2017, 18h38 - Publicado em 27 out 2017, 12h00
http://veja.abril.com.br/blog/letra-de-medico/a-verdade-sobre-recusar-tratamentos-futeis-de-doencas-incuraveis/

Você tem câncer, daqueles considerados os mais graves e agressivos. Não há a menor possibilidade de cura. Nem rezando. Você diz que não quer continuar mais a ser torturado com remédios que te deixam com uma fadiga mortal, te fazem vomitar mais de dez vezes no dia, deixam suas mãos e pés queimando como em brasa e ao mesmo tempo formigando.

Você não tem mais forças para trabalhar e está começando a ficar difícil tomar banho sozinho. Não dorme por causa da dor que não passa com os remédios que te deram para tomar. Não sabe mais qual o sabor da comida, aliás, você talvez nem tenha fome e emagrece todo dia um pouco mais. Não há mais como encontrar dinheiro para pagar as consultas, os exames, as despesas com transporte e sua família já está indo a falência sem ter a sua ajuda financeira, já que você não consegue mais trabalhar. Seu cabelo ralo, sua pele cor de cinzas, sua barriga que cresce, seu cansaço que aumenta.
Tudo te leva a refletir que não existe sentido em continuar com um tratamento que só está te oferecendo muito, mas muito sofrimento. Mas você pode dizer ao seu oncologista que não quer mais? Sim.

A importância dos cuidados paliativos
Você é a pessoa que mais tem capacidade de decisão sobre o que considera digno e pertinente ao seu tratamento. Mas talvez você precise ter paciência com a medicina brasileira de modo geral, pois ainda não chegou ao conhecimento de todos os profissionais da saúde que tratam de pessoas com câncer o que há de mais moderno no tratamento desta doença tão devastadora: cuidados paliativos.

Nos nossos dias, em pleno curso de 2017, tivemos a noticia: TODOS OS PACIENTES COM CÂNCER – INOPERÁVEL OU COM METÁSTASES DEVEM RECEBER CUIDADOS PALIATIVOS JÁ AO DIAGNÓSTICO. A medicina descobriu, através de estudos totalmente baseados em evidências indiscutíveis: quem recebe cuidados paliativos chega a viver CINCO MESES a mais do que os pacientes que apenas recebem tratamentos contra o câncer que não controlam seus sintomas de sofrimento – (Estudo ENABLE III – Educate, Nurture, Advise, Before Life Ends – 2015).


E mais: se os cuidados paliativos forem oferecidos precocemente, a chance de resposta do tratamento do câncer aumenta em 15%. Além de tudo isso, a qualidade de vida é maior, o índice de depressão é menor, o respeito aos seus valores, o apoio incondicional aos seus familiares, a menor incidência de intervenções agressivas e torturadoras nos seus últimos tempos de vida levou os pesquisadores a recomendarem este cuidado a todos os pacientes com câncer.

Conceito pouco conhecido na medicina brasileira
Mas temos um problema extremamente grave no nosso país: muitos profissionais de saúde, desde os que trabalham em pronto socorro de hospital publico até aqueles que são reconhecidos como referências nacionais pensam que cuidados paliativos é não fazer nada e que recomendar esta assistência acelera a morte do paciente, mas isso é uma absoluta mentira.

Profissionais de saúde que jamais se debruçaram sobre qualquer informação de qualidade a respeito do tema, nunca fizeram nenhuma formação, nenhum tipo de estudo, nenhuma especialização reconhecida. Mal sabem como tratar a dor corretamente. Há quem se intitule geriatra por ter uma agenda cheia de pessoas idosas para atender. Mas nunca fizeram nenhuma especialização técnica na área. Eu costumo fazê-los refletir dizendo a caixa preferencial do banco só atende idosos, mas não se tornou geriatra por isso.
Tratamentos fúteis e degradantes
Assim é com cuidados paliativos: atender pessoas que morrem não transforma o profissional de saúde em alguém habilitado e capaz de lidar com o sofrimento humano que o fim da vida produz. Por isso, no caso que descrevo acima o mais comum é levar o paciente a fazer inumeráveis linhas de tratamento até seu último suspiro justificando que se está “lutando” pela vida dele.
Já ouvi histórias macabras de pessoas que morreram DURANTE a infusão de quimioterapia ou foram obrigadas a serem transportadas até a radioterapia agônicas e morreram na maca recebendo a radiação. Alguns me dizem que assim é lutar pela vida até o último minuto. Mas eu digo que assim é morrer errado.

Está errado tecnicamente obrigar um paciente e sua família a serem submetidos a qualquer tratamento degradante e fútil, que não muda em praticamente nada a chance de morte. Utilizar recursos de coação do tipo: mas você quer desistir de viver ou acusar os familiares de tentarem acelerar a morte de seu ente querido deveria ser crime hediondo, mas não é. Pacientes e seus familiares que recusam estes tratamentos são julgados e condenados como pessoas incapazes de decidir sobre o que é melhor para sua vida.

Marcelo Rezende e Steve Jobs
O maior exemplo disso atualmente foi o caso de Marcelo Rezende. Por ter recusado um tratamento dito convencional que não traria a ele nenhuma chance de cura foi duramente criticado, citado como exemplo do erro, da falta de coragem de tratar um câncer que todos sabiam ser incurável e extremamente agressivo, inclusive o próprio paciente. Foi criticado publicamente inclusive por médicos que talvez sofram muito por ter tanta dificuldade de saber o que fazer diante de um paciente que os questiona sobre as intenções de um tratamento sem resultado satisfatório para eles.

Quando o paciente diz que valoriza suas crenças religiosas ele está representando 80% da população brasileira (Kaiser/Economist Survey Highlights Americans’ Views and Experiences with End-of-Life Care, With Comparisons to Residents of Italy, Japan and Brazil, 2017) – que assume sem nenhum pudor que sua fé tem grande influência sobre suas decisões de saúde.
E os médicos e outros profissionais de saúde que tratam de pessoas com doenças graves e que se furtam a aprender e valorizar a espiritualidade e conhecer todos os aspectos relevantes da religião de seus pacientes em geral chegam a cometer graves erros com sua palavra mal utilizada. Desvalorizar a espiritualidade na população brasileira é o mesmo que abrir mão do recurso mais poderoso a favor da saúde de seu paciente e de sua adesão ao tratamento.
Os dilemas discutidos no caso do Marcelo Rezende dizem respeito principalmente à urgência que temos na formação técnica consolidada em cuidados paliativos no nosso país. Não tenho dúvida alguma que se este paciente tivesse tido alguma chance de escolha pela sua dignidade seguindo a medicina de mais alta qualidade dentro da prática de cuidados paliativos, evitando os tais tratamentos não convencionais que oneram tanto quanto o uso de quimioterápicos e outras drogas novas com baixíssima chance de resposta, ele teria seguido sua biografia em direção ao dia de sua morte com mais valor e significado de vida e de sua família.
Para quem ainda não sabe, Marcelo Rezende, Steve Jobs e milhares de pessoas que escolhem não tratar uma doença incurável escolhendo a qualidade de vida que os cuidados de conforto permitem não morreram por não aceitarem receber tratamentos fúteis apesar de convencionais. Eles morreram de câncer.