quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Mães de crianças com câncer do RJ contam como buscam força para manter os filhos firmes no tratamento


Mulheres de vários pontos do estado contam como dão apoio emocional aos filhos. Psicanalista ressalta que mães também precisam de espaço para expressar as próprias angústias.

Por Cristina Boeckel, G1 Rio
12/05/2018 06h00  Atualizado há menos de 1 minuto


Mães de crianças com câncer do RJ esbanjam força durante tratamento dos filhos

No dia 12 de julho do ano passado, a dona de casa Ariadna Costa, de 28 anos, levou o maior susto da vida: a filha caçula, Millena, de 6 anos, estava com leucemia. Para ela e outras mães, este domingo (13) é mais do que especial: é a data que lembra como é importante ser forte para ajudar os filhos a vencer um câncer.

G1 conversou com três mulheres que contaram sobre a importância do apoio para quem enfrenta uma doença grave já no começo da vida e mudaram completamente a rotina em busca da cura em outra cidade.

Moradora de Angra dos Reis, Ariadna foi obrigada a deixar as duas filhas mais velhas com parentes e veio para o Rio de Janeiro, para Millena ser tratada no Hospital do Fundão, na Ilha do Governador.

“Nós chegamos aqui no dia 11 de julho; no dia 12 eu tive o diagnóstico do que ela tinha, e no dia 13 ela começou a fazer a quimioterapia. Aí o médico falou para mim: ‘A sua filha está com leucemia e precisa fazer o tratamento’, e me explicou as coisas que ela ia ter que fazer. Porém no começo eu não entendi nada porque eu fiquei muito nervosa. Nunca imaginei que fosse um dia passar por isso, e estou aqui com ela”, contou.

Para Cristiane Ferreira, moradora de Queimados e mãe de Tamires, de 19 anos, já são 4 anos lutando contra um câncer no cérebro. O caminho do diagnóstico passou por diversas unidades de saúde até ter o tumor detectado por uma tomografia e uma ressonância. A adolescente passou por uma cirurgia no Instituto do Cérebro.

“Treze dias depois levei para tirar os pontos. O médico me chamou para conversar no dia seguinte. Voltei no outro dia e ele falou: ‘De hoje em diante vai se tratar no Inca’. Eu perguntei: ‘Por que no Inca?’ E ele falou porque ela tinha um câncer”, explicou Cristiane, emocionada.

Lucely Rodrigues deixou o trabalho em Campos dos Goytacazes, no norte do estado, para acompanhar o tratamento do filho, Pedrinho, de 4 anos. Ele trata uma leucemia no Instituto Nacional do Câncer. Para ela, o susto foi duplo: a filha mais velha, de 9 anos, já tinha sofrido com um câncer na perna dois anos antes.

“Foi muito difícil para mim porque a minha família tem vários casos assim. Inclusive em 2016 eu tive aqui com a minha filha, a dela foi um tumor na perna, e foi muito difícil. Eu perdi o meu pai, minha avó, a minha mãe com essa doença. Foi aquele choque”, ressaltou Lucely, destacando que mesmo com a intercorrência na família não esperava que o caçula ficasse doente.

Ariadna, Cristiane e Lucely vieram de outros municípios do Estado do Rio de Janeiro e estão abrigadas com os filhos durante o tratamento na Casa Ronald McDonald, na Tijuca, na Zona Norte, que recebe crianças com câncer que precisam de atendimento nas unidades de referência da capital.

Força para seguir
De acordo com Ana Sabrosa, diretora científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise no Rio de Janeiro, as crianças veem no olhar não somente da mãe, mas também de todos os familiares, a possibilidade de recuperação. Apesar da ideia de que as mães devem ser fortes no sofrimento, elas devem ter espaço para expressar as suas angústias.

“A criança vê nos olhos da mãe espelhada uma ideia de esperança, da possibilidade de cura. O olhar dos familiares mostra a chance que ela vai ter de lutar, de brincar. Independentemente de um sofrimento, tem algo nesse vínculo que vai precisar ser regado com muita tranquilidade e com a busca até de um especialista se for preciso", explicou a psicanalista.

A religião tem papel fundamental na vida de Lucely para se manter firme. “Eu peço muito força a Deus. Eu sou uma pessoa evangélica e peço força porque só Ele para me ajudar. Família, eu quase não tenho”.

Mesmo com pouca idade, a filha de Ariadna é a responsável por ajudá-la a manter o ânimo: “Ela sempre me passou mais força do que eu para ela”.

Millena conta o que diz quando percebe a mãe esmorecer.

“Eu falo que o meu tratamento vai acabar, minha quimioterapia, meus exames e vou embora”, ressaltou Millena, que sente saudades da família que ficou em Angra dos Reis.

Com o lema “não tem tempo ruim”, ela cortou os cabelos para apoiar a filha.
“Eu sempre gostei de cabelo curto, mas agora, outra vez, eu estou passando força para a minha filha. O cabelinho dela caiu todo de novo, então é tudo de novo”, contou Cristiane, que não deixou a vaidade de lado e pintou os fios curtos de vermelho.
·         RIO DE JANEIRO


terça-feira, 20 de novembro de 2018

Como falar sobre o câncer com filhos e netos


ConversaSobre o câncer: crianças percebem quando há algo errado, portanto não piore a situação com uma mentira que não se sustentará por muito tempo  Foto: https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Chemotherapy#/media/File:Chemotherapy_iv.jpg


Mesmo que a notícia vá causar apreensão e angústia, não finja que está tudo bem
Por Mariza Tavares — Rio de Janeiro

18/11/2018 06h00  

Além de ser um dos maiores desafios pessoais que se possa enfrentar, o câncer também traz um impacto enorme na vida familiar. Quando os filhos são adultos, supõem-se que vão reagir com maturidade e ajudar, embora nem sempre isso ocorra. Mas como abordar a questão com crianças e adolescentes? Mesmo que a notícia vá causar apreensão e angústia, não finja que está tudo bem. É o que prega a cartilha do National Cancer Institute, entidade norte-americana que é referência para a doença. Até os pequenos percebem quando há algo errado, portanto não piore a situação com uma mentira que não se sustentará por muito tempo. Também não se afaste de seus netos, nem deixe que seus filhos interrompam essa convivência, a não ser quando estiver cansado/a demais por causa do tratamento. Todos poderão ter que assumir novos papéis e responsabilidades, é fundamental abordar o problema abertamente.

O que as crianças devem saber: em primeiro lugar, que não têm qualquer culpa – o câncer não aconteceu por causa de algo que fizeram ou disseram. Explique que estar doente não significa que você vai morrer e que, além disso, os cientistas trabalham para descobrir novos remédios para combater a doença. Faça com que entendam que é normal se sentir triste, zangado ou com medo, que os sentimentos não precisam ser reprimidos e devem ser compartilhados. Em alguns casos, a criança pode se ressentir de não receber a mesma atenção de antes e apresentar regressão no comportamento, ou ir mal na escola. Não se furte de pedir auxílio em casa: filhos ou netos podem lavar a louça, arrumar seus quartos ou simplesmente fazer companhia. Como os adolescentes podem se retrair, sugira que conversem com outras pessoas do seu círculo: amigos ou adultos que possam dar esclarecimentos. Não deixe que se sintam excluídos e, na medida do possível, faça com que participem das decisões.

Voltando aos filhos que são adultos, principalmente aqueles que sempre viram pai e mãe como autênticas fortalezas à prova de qualquer intempérie: às vezes também é difícil para os pais pedirem ajuda, esse é um aprendizado para os dois lados. Eles devem ficar cientes do tratamento, dos medicamentos e efeitos colaterais, para que tenham a real dimensão do tempo e cuidado que devem dispensar. O Inca (Instituto Nacional do Câncer) estima que, entre 2018 e 2019, o Brasil tenha 1,2 milhão de novos casos de câncer. Apesar de tantas emoções envolvidas, pense em suas diretivas antecipadas de vontade: como gostaria de ser cuidado pela equipe médica se a doença evoluir para um quadro incurável e terminal. Embora 90% das pessoas digam que é importante conversar com os familiares sobre os cuidados no fim da vida, apenas 27% afirmam tê-lo feito.

https://g1.globo.com/bemestar/blog/longevidade-modo-de-usar/post/2018/11/18/como-falar-sobre-o-cancer-com-filhos-e-netos.ghtml

domingo, 4 de novembro de 2018

Após terapia experimental, médicos dizem que mulher em estágio terminal está livre do câncer



Direito de imagemARQUIVO PESSOAL Image caption Judy Perkins recebera o prognóstico de que viveria apenas três meses, mas tratamento experimental lhe permitiu não apenas sobrerviver, mas viajar e praticar canoagem (Foto: Arquivo Pessoal)

Judy Perkins havia recebido o prognóstico de que viveria apenas três meses mais; dois anos depois, ela vive com saúde graças a dose de 90 bilhões de suas próprias células, uma iniciativa que ainda precisa ser testada em grande escala.
Por BBC
04/06/2018 18h22  Atualizado há 13 horas

A vida de uma mulher com câncer de mama em estágio considerado terminal foi salva por um tratamento pioneiro, que consiste na aplicação de 90 bilhões de células imunológicas cujo objetivo é combater o tumor.

Segundo pesquisadores do Instituto Nacional do Câncer, nos EUA, o tratamento ainda é experimental, mas pode ter efeito transformador em todas as terapias de combate ao câncer.

A mulher em questão é a americana Judy Perkins, 49 anos, que havia recebido, dois anos atrás, o prognóstico de que teria apenas três meses de vida restantes. A moradora da Flórida tinha câncer de mama em estágio avançado, que estava se espalhando - já havia tumores do tamanho de uma bola de tênis em seu fígado e em outras partes do corpo - e não havia mais perspectiva com tratamentos convencionais.

Hoje, porém, não há vestígios do câncer em seu corpo, segundo médicos. E Judy tem aproveitado a vida viajando e praticando canoagem.

"Cerca de uma semana depois (do tratamento pioneiro), eu comecei a sentir algo. Eu tinha um tumor no peito e conseguia senti-lo encolher", diz Judy à BBC. "Uma ou duas semanas depois, ele desapareceu."

Ela lembra que, ao fazer o primeiro exame após passar pelo tratamento, viu a equipe médica "saltitando de empolgação".
Foi quando ela soube que teria uma chance de cura.

'Droga viva'
O tratamento a que Judy foi submetido consiste em uma "droga viva", feita a partir das próprias células dela, em um dos centros de referência de pesquisa de câncer do mundo.

"É o tratamento mais altamente personalizado que se possa imaginar", diz à BBC o médico Steven Rosenberg, chefe de cirurgias no Instituto Nacional do Câncer dos EUA.

A terapia ainda dependerá de uma grande quantidade de testes até que possa ser amplamente usada, mas começa da seguinte forma: o tumor do paciente é analisado geneticamente, para que sejam identificadas as raras mutações que podem tornar o câncer visível ao sistema imunológico do corpo – e que podem, portanto, ser formas de combater os tumores.

No caso de Judy, das 62 anormalidades genéticas do seu câncer, apenas quatro eram potencialmente atacáveis pelo sistema imunológico.

Na verdade, o sistema imunológico já está, naturalmente, combatendo os tumores, mas está perdendo as batalhas.

Por isso, o passo seguinte dos pesquisadores é analisar os glóbulos brancos (as células imunológicas do corpo) para extrair as que são capazes de atacar o tumor.

Essas células serão, então, reproduzidas em enormes quantidades em laboratório.
Judy recebeu 90 bilhões de suas próprias células, junto com medicamentos que "retiram os freios" do sistema imunológico.

Com isso, "as mesmas mutações que provocam o câncer acabam se tornando seu calcanhar de Aquiles", diz Rosenberg.

'Mudança de paradigma'
Vale lembrar, porém, que os resultados animadores vêm por enquanto desse único caso isolado, e pesquisas em populações maiores serão necessárias para confirmar a validade do tratamento.
O desafio, até agora, na terapia imunológica contra o câncer é que ela às vezes funciona muitíssimo bem em alguns pacientes, mas sem beneficiar a maioria dos doentes.

"(O tratamento) é altamente experimental, e estamos apenas começando a aprender a aplicá-lo, mas potencialmente ele vale para qualquer câncer", afirma Rosenberg.

"Ainda há muito trabalho a fazer, mas há potencial para uma mudança de paradigma no tratamento de câncer - uma droga sob medida para cada paciente. É muito diferente de qualquer outro tratamento."

Os detalhes do caso de Judy Perkins foram publicados no periódico "Nature Medicine".
Para o médico Simon Vincent, diretor de pesquisas da organização Breast Cancer Now, os resultados são "extraordinários".

"É a primeira oportunidade de ver esse tipo de imunoterapia (agindo) contra o tipo mais comum de câncer de mama", diz ele.
"Potencialmente, pode-se abrir uma área completamente nova de tratamento para um grande número de pessoas."


Nobel de Medicina premia americano e japonês por terapia contra o câncer


O japonês Tasuku Honjo e o americano James P. Allison, que dividem o Nobel de Medicina 2018 — Foto: Ryosuke Ozawa/Kyodo News via AP e Christoph Schmidt/dpa via AP
James P. Allison e Tasuku Honjo ganharam o prêmio de R$4 milhões nesta segunda-feira (01). Os cientistas descobriram um tipo de terapia contra o câncer que faz com que células de defesa do organismo voltem a atacar tumores.
Por Lara Pinheiro
01/10/2018 06h33  Atualizado há 20 minutos

James P. Allison e Tasuku Honjo são os ganhadores do Prêmio Nobel 2018 de Medicina. A Academia Sueca anunciou nesta segunda-feira (01) que o americano e o japonês irão dividir o prêmio de 9 milhões de coroas suecas, equivalente a R$ 4.098.402.

Os dois desenvolveram pesquisas, separadamente, sobre duas proteínas produzidas por tumores — a CTLA-4 e a PD-1 — que paralisam o sistema imune do paciente durante o tratamento de câncer.

"Os tumores produzem as proteínas, chamadas de checkpoints, que bloqueiam o linfócito T, que é a célula mais importante do sistema imune que ataca o tumor. Essas drogas [pesquisadas] retiram esse bloqueio e recuperam o poder de ataque dos linfócitos que estavam paralisados por essas proteínas", explica o oncologista Fernando Maluf, diretor associado do Centro de Oncologia da Beneficência Portuguesa de São Paulo.

O imunologista James P. Allison, 70, da Universidade do Texas, estudou a proteína CTLA-4. Ele descobriu que um bloqueio da proteína poderia retirar o freio sobre os linfócitos T, fazendo com que as células voltassem a atacar o tumor. Em 1994, Allison realizou o primeiro experimento em ratos, que ficaram curados após o tratamento.

Em 2010, um estudo clínico mostrou efeitos "impressionantes", segundo a Academia sueca, em pacientes com melanoma (um tipo de câncer de pele) avançado, que não haviam sido observados antes.

Já o imunologista Tasuku Honjo, 76, da Universidade de Kyoto, no Japão, estudou uma outra proteína, a PD-1, que também atuava sobre os linfócitos T, só que de forma diferente. Após experimentos em laboratório, um estudo realizado em 2012 também demonstrou eficácia em tratar pacientes com diversos tipos de câncer.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Luta contra o câncer de mama


Técnica reduz de 40 para 5 sessões de radioterapia contra tipo de câncer


Estudos clínicos demonstraram que a técnica é tão eficaz quanto a convencional (iStock/Thinkstock)
Surgem no País as primeiras iniciativas de radioterapia ultra hipofracionada contra tumor na próstata, que reduz o número de sessões em 87,50%
Por Estadão Conteúdo
access_time19 jul 2018, 19h14 - Publicado em 19 jul 2018, 19h10
São Paulo – Uma nova técnica tem permitido reduzir o número de sessões de radioterapia contra o câncer de próstata. Para a doença, geralmente são previstas 40 sessões. Com o tratamento chamado de hipofracionamento moderado, chegou-se a 20. Agora, surgem no País as primeiras iniciativas de radioterapia ultra hipofracionada contra esse tipo de tumor, que reduz o número de sessões para cinco.

Nesse formato, são aplicadas altas doses de radiação sobre o tumor, o que permite menos aplicações. A abordagem, também conhecida como hipofracionamento extremo ou SBRT, já é adotada contra alguns tipos de câncer, como o de pulmão. Mas é nova quando se trata do de próstata – segundo mais prevalente entre os homens. Estima-se que, neste ano, serão 68.220 novos casos da doença.
A opção começou a ser oferecida nos últimos meses no Hospital Sírio-Libanês e no Mãe de Deus, em Porto Alegre. Já no A. C. Camargo Cancer Center, os dois primeiros casos de SBRT foram feitos este mês. “Os benefícios são menor tempo de tratamento, menos transtorno (do paciente) com deslocamento e, muito provavelmente, melhora do índice de controle bioquímico da doença”, afirma Antônio Cássio Pelizzon, líder da equipe de radioterapia do A. C. Camargo.
O Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, também se prepara para aderir ao hipofracionamento extremo para o câncer de próstata, após a instalação de um equipamento inédito no País, o acelerador linear Halcyon. Além de permitir menos sessões, torna cada sessão mais rápida – cai de 25 minutos para oito. “Em vez de tratar quatro pacientes por hora, posso tratar seis. Isso amplia o acesso, agrega valor e reduz o custo da inovação”, diz Rodrigo Hanriot, coordenador de radioterapia do hospital.
Por enquanto, o hipofracionamento extremo é indicado para tumores restritos à próstata, de risco baixo ou intermediário. Pacientes com problemas crônicos no trato urinário não são bons candidatos – estudos mostram que, especialmente nesse grupo, pode haver efeitos colaterais (como ardor e aumento da frequência urinária), diz Andrea Barleze da Costa, gestora de Radioterapia do Mãe de Deus.
O hipofracionamento moderado ganhou força após dez estudos clínicos de fase 3 (alto nível de evidência), conduzidos em grandes centros de pesquisa, demonstrarem que a técnica é tão eficaz quanto a convencional. Para Arthur Accioly Rosa, da Sociedade Brasileira de Radioterapia, o modelo é uma mudança de paradigma.
Eficiente, a técnica se tornou tendência em vários países. Mas, como diz Elton Leite, do Instituto do Câncer de São Paulo (Icesp), a popularização no País envolve questões ligadas a equipamentos e modelos de remuneração. Para aplicar altas doses de radiação com segurança, é preciso tecnologia que permita monitorar a localização precisa do tumor.
Uma opção é o IGRT ( radioterapia guiada por imagem), pouco disponível no Brasil e sem ressarcimento pelo SUS e pelas operadoras. Outra é o Calypso, recém-instalado pelo Sírio, que trabalha com emissão de sinais – dispositivos implantados na próstata avisam (25 vezes por segundo) se está no alvo e, diante de um desvio, a radiação é interrompida.
De modo geral, a radioterapia no País é paga conforme o total de sessões – se há menos, o valor cai. “É um verdadeiro paradoxo”, diz João Luís Fernandes da Silva, do Departamento de Radioterapia do Sírio. Por isso, hospitais têm negociado pacotes com operadoras para todo o tratamento.
Jornada
Quando José Nei Garcez, de 80 anos, descobriu que tinha câncer de próstata, em março de 2017, iniciou uma jornada em busca de tratamento. Morador de Dom Pedrito (RS), na fronteira com o Uruguai, passou por médicos de outras duas cidades antes de ser indicado para o hipofracionamento extremo no Hospital Mãe de Deus.
Após uma semana, voltou para casa. “Se fossem muitos dias, era capaz de adoecer mais. Estava com saudade de casa, dos filhos”, diz. “O tratamento em menos tempo foi grande vantagem para o aspecto emocional”, conta a filha Clarisse, de 41 anos. Ele, que faz tratamento hormonal a cada três meses, diz não sentir efeito colateral. “Hoje me sinto ótimo. Foi um sucesso.”

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Como um câncer aos 37 anos mudou minha vida


'Eu ainda pensava em mim como uma jovem mulher, não como uma mãe de meia-idade. Mas nessa hora cheguei a pensar que não veria mais minha filha crescer', diz Appleby (Foto: Arquivo pessoal)

Mãe de uma menina de três anos, britânica relata o impacto que o diagnóstico teve em sua vida e como encontrou forças para enfrentá-lo.

Por BBC
08/01/2018 08h37  Atualizado há menos de 1 minuto

Carly Appleby não ficou convencida quando os médicos descartaram um pequeno nódulo em seu seio, que parecia insignificante. Em fevereiro de 2017, ela foi diagnosticada com câncer de mama em estágio 3, localmente avançado. Aqui, a jovem mãe de 37 anos descreve o impacto da notícia e sua jornada desde então.
"Fazia um dia lindo e ensolarado em Costwolds (cadeia de pequenas colinas no centro da Inglaterra) quando fui diagnosticada com câncer de mama em estágio 3 - o que significa que ele já havia se espalhado para além da área do tumor inicial, que, no meu caso, foi nos linfonodos do braço.
Ainda na clínica, sentei, com meu marido do lado. Nós dois estávamos atordoados. Tenho 37 anos, sou uma mulher em forma e saudável - ou ao menos era isso que eu pensava -, sem nenhum histórico de câncer de mama na família.
A princípio, quando fui à consulta com minha ginecologista, ela descartou a possibilidade na hora. Passou menos de cinco minutos me examinando, encontrou um nódulo no meu seio - menor do que um grão de arroz, duro. 'Provavelmente é algo hormonal. Nada para se preocupar. Volte só se ele não for embora em algum tempo', disse ela tranquila.
Alguns meses se passaram e eu percebo que, sim, ele ainda está ali. Volto ao médico, desta vez para ver outro ginecologista. Ele me examina melhor, mas a conclusão é a mesma: 'Provavelmente, é um caroço gorduroso', diz. Um sinal de que estou ficando velha, eu penso.
Mas me incomoda. Aquilo não parece certo. Meu seio esquerdo doi quando minha filha de três anos brinca comigo ou me abraça.
Pedi para ir a uma clínica especializada e levei minha mãe para me dar apoio moral. Estava nervosa.
O médico me examina e diz: 'Não acho que seja nada para você se preocupar'. Infelizmente, não foi o que a ultrassonografia e a mamografia mostraram. Eu tinha uma área grande de calcificação - que costuma ser o sinal do início do câncer de mama. Eles fizeram uma biópsia dolorida e avaliaram os linfonodos embaixo do meu braço.
Todo esse processo teve um impacto enorme em mim. Eu nunca tinha pensado sobre minha própria morte. Eu ainda pensava em mim como uma jovem mulher, não como uma mãe de meia-idade. Mas nessa hora eu cheguei a pensar que não veria mais minha própria filha crescer.
Fiquei ansiosa sobre contar a outras pessoas sobre meu diagnóstico, mas eu queria conscientizar minhas amigas sobre o problema, então decidi usar as redes sociais. As respostas de apoio se multiplicaram.
O tratamento começou logo. Eu precisava de seis ciclos de quimioterapia, tinha que remover glândulas linfáticas de meu braço esquerdo, fazer uma mastectomia e, em seguida, radioterapia. Seria um longo ano, mas, ao menos, eu esperava estar livre do câncer no final dele.
O primeiro ciclo de quimioterapia não foi tão assustador quanto imaginei. Outros remédios foram aplicados em injeções lentas em uma cânula na minha mão. Todo o processo demorava três horas - e, enquanto isso, eu bebia muito chá.
Eu me sentia péssima nos dias que se sucediam ao tratamento. Era como estar de ressaca, só que sem a parte boa de uma noite toda bebendo. Não tinha energia nenhuma, não tinha apetite, me sentia doente, com muita sede e tudo doía. Ficava muito mal e desanimada. Mas depois disso, começava a me sentir mais normal.
Fiquei feliz com o início do tratamento. Eu pensava na quimioterapia varrendo o câncer para fora meio que como em um jogo de computador - como se o Pac-Man estivesse devorando todas as células ruins do câncer. Zap, zap, zap.
'Eu vou perder meu cabelo?', foi uma das primeiras perguntas que fiz ao médico que, obviamente, confirmou o que eu temia. Posso parecer vaidosa, mas acho que essa foi uma das coisas mais difíceis em todo o processo desde que soube do diagnóstico.
Comecei a procurar perucas. "Que tal uma peruca loira, mãe?", perguntou minha filha. "Aí você pode ficar mais parecida comigo!". Eu me fortaleço com o companheirismo dela. Juntas, escolhemos uma peruca de cabelo loiro e curto.
Decidimos que minha peruca precisa de um nome. Pensei em Betty ou Bertha, aí meu marido sugeriu "Chewbacca", do Star Wars, e minha filha veio com "Hairy Maclary from Donaldson's Dairy", um de seus livros favoritos. A gente riu bastante indo para casa.
Alguns dias depois, cortei o cabelo o mais curto possível. Queria diminuiu o choque que sentiria quando começasse a cair. Faz bem quando você está no controle disso.
Mandei à família e aos amigos a foto do meu cabelo curtinho. "Você parece mais jovem", disse minha irmã. Não acreditei nela.
Em todo o processo, minha filha parecia não estar entendendo muito bem o que estava acontecendo. Ela me perguntou se também iria perder cabelo e disse que não queria me ver careca. "Quem queria?", eu penso comigo mesma. Decidimos comprar uma peruca de brinquedo para ela.
Mas ela ainda ficava confusa com a quantidade de presentes que recebia. Houve uma onda enorme de cartões, flores, mensagens de esperança...e comida! Muita comida deliciosa! É engraçado como as pessoas reagem de forma diferente a essas notícias que todos temos que processar.
Meses depois, eu não me reconhecia mais no espelho. Inchada por causa dos esteroides, não tinha mais cílios, nem sobrancelhas, e estava careca.
Eu olhava invejosa para a cabeça do meu marido e dizia: "Mal posso esperar para ter a mesma quantidade de cabelo que você!" Nós dois ríamos - ele nem tem muito cabelo, mas já tinha mais do que eu.
No dia da cirurgia, eu fiquei um pouco vulnerável por ser operada sem ter nenhum cabelo. Eu estava sempre com lenços na cabeça ou então com minhas perucas - nós demos o nome de Betty para uma e Brunetti para outra. Mas eu não podia ter nenhuma delas comigo na cirurgia.
Quando voltei dela, não conseguia me mexer. Minhas pernas estavam cobertas por uma manta, que se move para cima e para baixo para evitar a coagulação do sangue. Tinha um tubo de oxigênio no meu nariz e eu estava com um catéter. No meu braço havia um dreno, e o líquido dentro dele me lembrava um milkshake de morango.
Eu podia apertar um botão para aliviar a dor, mas eu não reagia bem a morfina.
Optei pela reconstrução imediata do meu seio, o que significava um expansor de silicone temporário. Quando olhei pela primeira vez para o meu peito após a cirurgia, fiquei decepcionada em ver que estava praticamente reto. O implante iria inflar gradualmente para esticar a pele restante.
Minha cirurgiã disse que a operação havia sido bem-sucedida e que ela não detectara mais traços de tumor. Ela me visitava duas vezes durante o turno dela, parecia realmente se importar comigo - tinha mais ou menos a minha idade.
Na recuperação, eu tinha dificuldades para me mexer, para dormir e me vestir, então fiquei no hospital por cinco dias. Meu marido me visitava com minha filha, que fez quatro anos nesse meio tempo. Ela insistia em carregar meu dreno para o banheiro para mim. Ele tinha que me acompanhar em todos os lugares. Até que finalmente o removeram do meu braço - mas a dor que você sente quando isso acontece é como se alguém tivesse puxando uma corda de dentro de você.
Nas semanas seguintes, meu expansor no peito foi inflado com 50 ml de soro injetadas de cada vez . "Quantas são necessárias?", eu perguntei. "Quatrocentas", respondeu minha médica, "o peso do seu antigo seio".
"Então há uma ciência por trás disso", repliquei. Nós duas rimos na hora.
Mas eu fiquei chateada ao ver minha cicatriz. Não tinha cabelo, não tinha peitos, não tinha menstruação. O câncer de mama realmente rouba tudo o que é feminino em você. Mas eu estou viva! E o câncer já está fora de mim.
Eu também tenho o conforto das muitas mulheres jovens que também estão passando pela mesma situação. A Younger Breast Cancer Network (Rede Jovem de Câncer de Mama, em tradução livre) é um grupo online com mais de 3 mil mulheres com menos de 45 anos que compartilham suas experiências umas com as outras.
Outro dia, olhei no espelho e vi que meus cílios tinham voltado. Que momento incrível! Meu cabelo também começou a crescer de novo. Aos poucos, minha energia está voltando.
Cinco semanas depois da minha cirurgia, eu soube que havia tido uma resposta patológica completa. Era a melhor notícia possível! Significa que não há mais nenhum sinal de câncer nem no seio, nem em nenhum lugar. O tumor foi completamente erradicado pela quimio. Pac-Man realmente devorou todas aquelas células cancerosas.
Leva um tempo para você se acostumar com o fato de que não há mais evidência nenhuma da doença depois de meses de ansiedade.
Tenho uma tomografia agendada para fazer a preparação para a radioterapia e minha primeira tatuagem: três pequenos pontos verdes para que os técnicos possam saber onde alinhar a aplicação.
Também tomo injeções de quimio a cada três semanas na coxa e comecei a fazer um tratamento hormonal que fará parte da minha rotina diária pelos próximos 10 anos, uma tentativa de impedir o câncer de voltar.
Mas tudo isso combinado faz com que eu tenha sintomas de menopausa. As ondas de calor e as noites de suadeira são mais duas coisas que estou tendo que lidar aos 30 anos.
Passei por 15 sessões de radioterapia, indo todos os dias ao hospital para o tratamento. Nas redes sociais, descobri que muitos pacientes tocavam um sino no dia que terminavam a última sessão. Consegui que instalassem um na unidade oncológica do hospital onde eu estava e logo bati o sino bem alto para marcar o fim do meu tratamento - todos aplaudiram em volta. Não acredito que acabou!
Alguém me disse uma vez que ter câncer faz você perceber o quanto é amada. Agora que acho que cheguei ao fim dessa jornada, posso dizer que isso é a mais pura verdade."