quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Luta contra o câncer de mama


Técnica reduz de 40 para 5 sessões de radioterapia contra tipo de câncer


Estudos clínicos demonstraram que a técnica é tão eficaz quanto a convencional (iStock/Thinkstock)
Surgem no País as primeiras iniciativas de radioterapia ultra hipofracionada contra tumor na próstata, que reduz o número de sessões em 87,50%
Por Estadão Conteúdo
access_time19 jul 2018, 19h14 - Publicado em 19 jul 2018, 19h10
São Paulo – Uma nova técnica tem permitido reduzir o número de sessões de radioterapia contra o câncer de próstata. Para a doença, geralmente são previstas 40 sessões. Com o tratamento chamado de hipofracionamento moderado, chegou-se a 20. Agora, surgem no País as primeiras iniciativas de radioterapia ultra hipofracionada contra esse tipo de tumor, que reduz o número de sessões para cinco.

Nesse formato, são aplicadas altas doses de radiação sobre o tumor, o que permite menos aplicações. A abordagem, também conhecida como hipofracionamento extremo ou SBRT, já é adotada contra alguns tipos de câncer, como o de pulmão. Mas é nova quando se trata do de próstata – segundo mais prevalente entre os homens. Estima-se que, neste ano, serão 68.220 novos casos da doença.
A opção começou a ser oferecida nos últimos meses no Hospital Sírio-Libanês e no Mãe de Deus, em Porto Alegre. Já no A. C. Camargo Cancer Center, os dois primeiros casos de SBRT foram feitos este mês. “Os benefícios são menor tempo de tratamento, menos transtorno (do paciente) com deslocamento e, muito provavelmente, melhora do índice de controle bioquímico da doença”, afirma Antônio Cássio Pelizzon, líder da equipe de radioterapia do A. C. Camargo.
O Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, também se prepara para aderir ao hipofracionamento extremo para o câncer de próstata, após a instalação de um equipamento inédito no País, o acelerador linear Halcyon. Além de permitir menos sessões, torna cada sessão mais rápida – cai de 25 minutos para oito. “Em vez de tratar quatro pacientes por hora, posso tratar seis. Isso amplia o acesso, agrega valor e reduz o custo da inovação”, diz Rodrigo Hanriot, coordenador de radioterapia do hospital.
Por enquanto, o hipofracionamento extremo é indicado para tumores restritos à próstata, de risco baixo ou intermediário. Pacientes com problemas crônicos no trato urinário não são bons candidatos – estudos mostram que, especialmente nesse grupo, pode haver efeitos colaterais (como ardor e aumento da frequência urinária), diz Andrea Barleze da Costa, gestora de Radioterapia do Mãe de Deus.
O hipofracionamento moderado ganhou força após dez estudos clínicos de fase 3 (alto nível de evidência), conduzidos em grandes centros de pesquisa, demonstrarem que a técnica é tão eficaz quanto a convencional. Para Arthur Accioly Rosa, da Sociedade Brasileira de Radioterapia, o modelo é uma mudança de paradigma.
Eficiente, a técnica se tornou tendência em vários países. Mas, como diz Elton Leite, do Instituto do Câncer de São Paulo (Icesp), a popularização no País envolve questões ligadas a equipamentos e modelos de remuneração. Para aplicar altas doses de radiação com segurança, é preciso tecnologia que permita monitorar a localização precisa do tumor.
Uma opção é o IGRT ( radioterapia guiada por imagem), pouco disponível no Brasil e sem ressarcimento pelo SUS e pelas operadoras. Outra é o Calypso, recém-instalado pelo Sírio, que trabalha com emissão de sinais – dispositivos implantados na próstata avisam (25 vezes por segundo) se está no alvo e, diante de um desvio, a radiação é interrompida.
De modo geral, a radioterapia no País é paga conforme o total de sessões – se há menos, o valor cai. “É um verdadeiro paradoxo”, diz João Luís Fernandes da Silva, do Departamento de Radioterapia do Sírio. Por isso, hospitais têm negociado pacotes com operadoras para todo o tratamento.
Jornada
Quando José Nei Garcez, de 80 anos, descobriu que tinha câncer de próstata, em março de 2017, iniciou uma jornada em busca de tratamento. Morador de Dom Pedrito (RS), na fronteira com o Uruguai, passou por médicos de outras duas cidades antes de ser indicado para o hipofracionamento extremo no Hospital Mãe de Deus.
Após uma semana, voltou para casa. “Se fossem muitos dias, era capaz de adoecer mais. Estava com saudade de casa, dos filhos”, diz. “O tratamento em menos tempo foi grande vantagem para o aspecto emocional”, conta a filha Clarisse, de 41 anos. Ele, que faz tratamento hormonal a cada três meses, diz não sentir efeito colateral. “Hoje me sinto ótimo. Foi um sucesso.”

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Como um câncer aos 37 anos mudou minha vida


'Eu ainda pensava em mim como uma jovem mulher, não como uma mãe de meia-idade. Mas nessa hora cheguei a pensar que não veria mais minha filha crescer', diz Appleby (Foto: Arquivo pessoal)

Mãe de uma menina de três anos, britânica relata o impacto que o diagnóstico teve em sua vida e como encontrou forças para enfrentá-lo.

Por BBC
08/01/2018 08h37  Atualizado há menos de 1 minuto

Carly Appleby não ficou convencida quando os médicos descartaram um pequeno nódulo em seu seio, que parecia insignificante. Em fevereiro de 2017, ela foi diagnosticada com câncer de mama em estágio 3, localmente avançado. Aqui, a jovem mãe de 37 anos descreve o impacto da notícia e sua jornada desde então.
"Fazia um dia lindo e ensolarado em Costwolds (cadeia de pequenas colinas no centro da Inglaterra) quando fui diagnosticada com câncer de mama em estágio 3 - o que significa que ele já havia se espalhado para além da área do tumor inicial, que, no meu caso, foi nos linfonodos do braço.
Ainda na clínica, sentei, com meu marido do lado. Nós dois estávamos atordoados. Tenho 37 anos, sou uma mulher em forma e saudável - ou ao menos era isso que eu pensava -, sem nenhum histórico de câncer de mama na família.
A princípio, quando fui à consulta com minha ginecologista, ela descartou a possibilidade na hora. Passou menos de cinco minutos me examinando, encontrou um nódulo no meu seio - menor do que um grão de arroz, duro. 'Provavelmente é algo hormonal. Nada para se preocupar. Volte só se ele não for embora em algum tempo', disse ela tranquila.
Alguns meses se passaram e eu percebo que, sim, ele ainda está ali. Volto ao médico, desta vez para ver outro ginecologista. Ele me examina melhor, mas a conclusão é a mesma: 'Provavelmente, é um caroço gorduroso', diz. Um sinal de que estou ficando velha, eu penso.
Mas me incomoda. Aquilo não parece certo. Meu seio esquerdo doi quando minha filha de três anos brinca comigo ou me abraça.
Pedi para ir a uma clínica especializada e levei minha mãe para me dar apoio moral. Estava nervosa.
O médico me examina e diz: 'Não acho que seja nada para você se preocupar'. Infelizmente, não foi o que a ultrassonografia e a mamografia mostraram. Eu tinha uma área grande de calcificação - que costuma ser o sinal do início do câncer de mama. Eles fizeram uma biópsia dolorida e avaliaram os linfonodos embaixo do meu braço.
Todo esse processo teve um impacto enorme em mim. Eu nunca tinha pensado sobre minha própria morte. Eu ainda pensava em mim como uma jovem mulher, não como uma mãe de meia-idade. Mas nessa hora eu cheguei a pensar que não veria mais minha própria filha crescer.
Fiquei ansiosa sobre contar a outras pessoas sobre meu diagnóstico, mas eu queria conscientizar minhas amigas sobre o problema, então decidi usar as redes sociais. As respostas de apoio se multiplicaram.
O tratamento começou logo. Eu precisava de seis ciclos de quimioterapia, tinha que remover glândulas linfáticas de meu braço esquerdo, fazer uma mastectomia e, em seguida, radioterapia. Seria um longo ano, mas, ao menos, eu esperava estar livre do câncer no final dele.
O primeiro ciclo de quimioterapia não foi tão assustador quanto imaginei. Outros remédios foram aplicados em injeções lentas em uma cânula na minha mão. Todo o processo demorava três horas - e, enquanto isso, eu bebia muito chá.
Eu me sentia péssima nos dias que se sucediam ao tratamento. Era como estar de ressaca, só que sem a parte boa de uma noite toda bebendo. Não tinha energia nenhuma, não tinha apetite, me sentia doente, com muita sede e tudo doía. Ficava muito mal e desanimada. Mas depois disso, começava a me sentir mais normal.
Fiquei feliz com o início do tratamento. Eu pensava na quimioterapia varrendo o câncer para fora meio que como em um jogo de computador - como se o Pac-Man estivesse devorando todas as células ruins do câncer. Zap, zap, zap.
'Eu vou perder meu cabelo?', foi uma das primeiras perguntas que fiz ao médico que, obviamente, confirmou o que eu temia. Posso parecer vaidosa, mas acho que essa foi uma das coisas mais difíceis em todo o processo desde que soube do diagnóstico.
Comecei a procurar perucas. "Que tal uma peruca loira, mãe?", perguntou minha filha. "Aí você pode ficar mais parecida comigo!". Eu me fortaleço com o companheirismo dela. Juntas, escolhemos uma peruca de cabelo loiro e curto.
Decidimos que minha peruca precisa de um nome. Pensei em Betty ou Bertha, aí meu marido sugeriu "Chewbacca", do Star Wars, e minha filha veio com "Hairy Maclary from Donaldson's Dairy", um de seus livros favoritos. A gente riu bastante indo para casa.
Alguns dias depois, cortei o cabelo o mais curto possível. Queria diminuiu o choque que sentiria quando começasse a cair. Faz bem quando você está no controle disso.
Mandei à família e aos amigos a foto do meu cabelo curtinho. "Você parece mais jovem", disse minha irmã. Não acreditei nela.
Em todo o processo, minha filha parecia não estar entendendo muito bem o que estava acontecendo. Ela me perguntou se também iria perder cabelo e disse que não queria me ver careca. "Quem queria?", eu penso comigo mesma. Decidimos comprar uma peruca de brinquedo para ela.
Mas ela ainda ficava confusa com a quantidade de presentes que recebia. Houve uma onda enorme de cartões, flores, mensagens de esperança...e comida! Muita comida deliciosa! É engraçado como as pessoas reagem de forma diferente a essas notícias que todos temos que processar.
Meses depois, eu não me reconhecia mais no espelho. Inchada por causa dos esteroides, não tinha mais cílios, nem sobrancelhas, e estava careca.
Eu olhava invejosa para a cabeça do meu marido e dizia: "Mal posso esperar para ter a mesma quantidade de cabelo que você!" Nós dois ríamos - ele nem tem muito cabelo, mas já tinha mais do que eu.
No dia da cirurgia, eu fiquei um pouco vulnerável por ser operada sem ter nenhum cabelo. Eu estava sempre com lenços na cabeça ou então com minhas perucas - nós demos o nome de Betty para uma e Brunetti para outra. Mas eu não podia ter nenhuma delas comigo na cirurgia.
Quando voltei dela, não conseguia me mexer. Minhas pernas estavam cobertas por uma manta, que se move para cima e para baixo para evitar a coagulação do sangue. Tinha um tubo de oxigênio no meu nariz e eu estava com um catéter. No meu braço havia um dreno, e o líquido dentro dele me lembrava um milkshake de morango.
Eu podia apertar um botão para aliviar a dor, mas eu não reagia bem a morfina.
Optei pela reconstrução imediata do meu seio, o que significava um expansor de silicone temporário. Quando olhei pela primeira vez para o meu peito após a cirurgia, fiquei decepcionada em ver que estava praticamente reto. O implante iria inflar gradualmente para esticar a pele restante.
Minha cirurgiã disse que a operação havia sido bem-sucedida e que ela não detectara mais traços de tumor. Ela me visitava duas vezes durante o turno dela, parecia realmente se importar comigo - tinha mais ou menos a minha idade.
Na recuperação, eu tinha dificuldades para me mexer, para dormir e me vestir, então fiquei no hospital por cinco dias. Meu marido me visitava com minha filha, que fez quatro anos nesse meio tempo. Ela insistia em carregar meu dreno para o banheiro para mim. Ele tinha que me acompanhar em todos os lugares. Até que finalmente o removeram do meu braço - mas a dor que você sente quando isso acontece é como se alguém tivesse puxando uma corda de dentro de você.
Nas semanas seguintes, meu expansor no peito foi inflado com 50 ml de soro injetadas de cada vez . "Quantas são necessárias?", eu perguntei. "Quatrocentas", respondeu minha médica, "o peso do seu antigo seio".
"Então há uma ciência por trás disso", repliquei. Nós duas rimos na hora.
Mas eu fiquei chateada ao ver minha cicatriz. Não tinha cabelo, não tinha peitos, não tinha menstruação. O câncer de mama realmente rouba tudo o que é feminino em você. Mas eu estou viva! E o câncer já está fora de mim.
Eu também tenho o conforto das muitas mulheres jovens que também estão passando pela mesma situação. A Younger Breast Cancer Network (Rede Jovem de Câncer de Mama, em tradução livre) é um grupo online com mais de 3 mil mulheres com menos de 45 anos que compartilham suas experiências umas com as outras.
Outro dia, olhei no espelho e vi que meus cílios tinham voltado. Que momento incrível! Meu cabelo também começou a crescer de novo. Aos poucos, minha energia está voltando.
Cinco semanas depois da minha cirurgia, eu soube que havia tido uma resposta patológica completa. Era a melhor notícia possível! Significa que não há mais nenhum sinal de câncer nem no seio, nem em nenhum lugar. O tumor foi completamente erradicado pela quimio. Pac-Man realmente devorou todas aquelas células cancerosas.
Leva um tempo para você se acostumar com o fato de que não há mais evidência nenhuma da doença depois de meses de ansiedade.
Tenho uma tomografia agendada para fazer a preparação para a radioterapia e minha primeira tatuagem: três pequenos pontos verdes para que os técnicos possam saber onde alinhar a aplicação.
Também tomo injeções de quimio a cada três semanas na coxa e comecei a fazer um tratamento hormonal que fará parte da minha rotina diária pelos próximos 10 anos, uma tentativa de impedir o câncer de voltar.
Mas tudo isso combinado faz com que eu tenha sintomas de menopausa. As ondas de calor e as noites de suadeira são mais duas coisas que estou tendo que lidar aos 30 anos.
Passei por 15 sessões de radioterapia, indo todos os dias ao hospital para o tratamento. Nas redes sociais, descobri que muitos pacientes tocavam um sino no dia que terminavam a última sessão. Consegui que instalassem um na unidade oncológica do hospital onde eu estava e logo bati o sino bem alto para marcar o fim do meu tratamento - todos aplaudiram em volta. Não acredito que acabou!
Alguém me disse uma vez que ter câncer faz você perceber o quanto é amada. Agora que acho que cheguei ao fim dessa jornada, posso dizer que isso é a mais pura verdade."

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Radioterapia de prótons pode evitar que crianças curadas voltem a ter câncer uma segunda vez


Paciente recebe terapia de prótons no Hospital Universitário de Heidelberg, na Alemanha (Foto: Siemens Divulgação )

Tratamento contra o câncer impede que radiação afete tecidos saudáveis. Entenda por que isso é particularmente importante em tumores infantis.

Por Monique Oliveira, G1
12/12/2017 06h25  Atualizado há 2 horas

Um tipo de radioterapia contra o câncer com base em prótons, as partículas subatômicas de carga positiva, impede que a radiação atinja tecidos saudáveis. Isso evita o surgimento de tumores "radioinduzidos" décadas após o tratamento, dizem especialistas, e isso é especialmente importante para o tratamento em crianças.

O primeiro aparelho foi aprovado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) no início do novembro para uso no Brasil. No entanto, os custos, a necessidade de grande infraestrutura e o fato de seus benefícios nem sempre serem imediatos ainda são impeditivos para que o acesso a esse tratamento seja ampliado rapidamente.

A terapia tem como principal vantagem sua especificidade: a radiação atinge somente o tumor. Quando fazemos uma radioterapia comum contra um tumor específico, por exemplo, outros tecidos adjacentes, saudáveis, são atingidos. Em alguns casos, mas não frequentemente, esses tecidos antes normais podem se transformar em tumores induzidos por radiação décadas mais tarde.
Qual a diferença entre radioterapia e quimioterapia?
A radioterapia utiliza a radiação para “arrancar” o DNA das células malignas e, com isso, destruí-las. A usada na medicina é de um tipo específico: a ionizante. Essa radiação tem uma energia tão forte que consegue desprender os elétrons do átomo, o que altera totalmente a estrutura do alvo.
Já a quimioterapia, não tem por base a radiação, mas o uso de compostos químicos que circulam pela corrente sanguínea. Uma outra diferença é que a quimioterapia tem por alvo também a metástase, e não só o tumor de origem, já que circula por todo o corpo.

O problema pode ocorrer quando os tumores que recebem a radiação são infantis -- e essas crianças que receberam a radiação têm de enfrentar um segundo câncer quando ficam mais velhas, como resultado do tratamento feito quando jovens. Um dos tumores induzidos por radiação, por exemplo, é o linfoma (tumores do sistema linfático, responsável pela produção dos glóbulos brancos) e o sarcoma (tumores das partes moles, como aqueles de tecidos musculares).

“Em uma pessoa que recebe a radioterapia aos 60 anos, isso não é uma preocupação, mas em crianças, sim”, diz Antônio Cássio Pellizzon, diretor de radioterapia do A.C. Camargo Cancer Center.

Para tentar resolver esse problema, a medicina há algum tempo tem apostado na terapia de prótons, ou “proton beam therapy”, como é comumente mencionada em artigos científicos.



A terapia chegou a ser objeto de uma disputa no Reino Unido há três anos. O menino Ashya King estava recebendo o tratamento para um tumor de cérebro, mas foi retirado do hospital pela família, que o levou para a Espanha.
Eles iriam vender um apartamento na Espanha para que King pudesse realizar a terapia de prótons na República Tcheca. A família chegou a ser presa em Madri porque a remoção não teria sido autorizada por médicos, mas solta logo depois. Em 2015, a família divulgou que o menino não tinha mais sinais do tumor.

A terapia está disponível em larga escala nos Estados Unidos e em alguns países da Europa e da Ásia. Não há tratamento disponível na América Latina, embora haja informações de que um aparelho tenha sido vendido na Argentina.

Em relação ao Brasil, a empresa americana que teve o aparelho aprovado na Anvisa, a Varian Medical Systems, informa que mantém negociações no país. “Existe um interesse crescente de algumas instituições líderes no Brasil para analisar a tecnologia, bem como o investimento envolvido, mas não podemos dar mais detalhes”, disse Mark Plungy, do marketing da Varian.

A terapia e as evidências
Induzida por prótons, a nova terapia consegue ser direcionada especificamente para o tumor-alvo. Células saudáveis, dessa maneira, ficam praticamente livres da radiação. Uma outra indicação da abordagem é a aplicação em alguns tumores inoperáveis, como alguns de cabeça e pescoço. Células malignas próximas a regiões sensíveis no cérebro, por exemplo, também se beneficiaram de uma radiação mais focada -- como foi o caso do garoto no Reino Unido.
Especialistas salientam que a principal vantagem da terapia de prótons sobre as atuais é justamente a pouquíssima radiação que vai para os tecidos saudáveis. Mas não há evidências de que a terapia de prótons seja mais eficazes que os tratamentos usados atualmente.

"Ainda não foram apresentados estudos dizendo que o benefício clínico é superior", diz Arthur Rosa, presidente da Sociedade Brasileira de Radiologia. "Mas você entrega muito menos dose nos tecidos adjacentes. Quanto menos radiação espalhada, melhor."

Indicações de uso
Hoje, a terapia tem indicação específica (o que significa que seria uma das primeiras indicações terapêuticas) para tumores oculares, tumores da espinha, tumores da base do crânio e tumores do fígado. Outras indicações poderiam ser avaliadas a depender do caso. “Uma mulher com câncer de mama, por exemplo, que, por alguma cardiopatia, não poderia receber nenhuma radiação no coração”, diz Pelizzon.

Outra indicação da terapia de prótons é em áreas que já receberam radiação anteriormente. “Se esse tumor volta, não são todos os casos em que a radioterapia pode ser indicada novamente. Os tumores de próstata são exemplos disso também por uma série de condições anatômicas”, explica Pellizzon.

A diferença da terapia de prótons para as terapias atuais
Na radioterapia por feixe de fótons, como é chamada a radioterapia mais usual, a radiação costuma atravessar o corpo do paciente, explica Eduardo Weltman, médico rádio-oncologista do Centro de Oncologia e Hematologia do Hospital Albert Einstein. É essa mesma radiação que faz as imagens por raio-x. As radiografias são produzidas justamente porque a radiação atravessa o corpo.

Já no caso dos prótons, as partículas são jogadas diretamente no corpo, e elas não atravessam totalmente o organismo como no caso dos fótons – fato que lhes confere maior especificidade para atingir no tumor. “Quando o próton sai, ele vai até uma determinada profundidade e isso é a vantagem”, diz Weltman.

"Uma característica interessante do próton é que ele só vai se ionizar e liberar energia em uma determinada profundidade, e isso é fundamental", diz Rosa. O mecanismo descrito pelo especialista é conhecido como 'Pico de Bragg'.

O acelerador de partículas também demanda mais espaço e tecnologia porque os prótons têm mais massa que os elétrons; com isso, o custo é maior.

Uma das vantagens, no entanto, é que um mesmo acelerador de partículas pode tratar ao mesmo tempo 4 pacientes. “Se pensarmos em uma analogia, é como se fosse uma sala com um ar condicionado, por exemplo. A energia gerada pode tratar esses pacientes ao mesmo tempo”, explica Pellizzon.

A disponibilidade e o problema do custo
Toda a infraestrutura necessária para disponibilizar a terapia de prótons chegou a custar US$ 200 milhões no passado, com a necessidade de 5 mil m² de área dedicada. Hoje, esse montante é de US$ 30 milhões para algo entre 700 e 800 metros -- o preço, contudo, não caiu o suficiente para ser adotado em larga escala.

“Hoje, um acelerador linear ocupa 40 m²”, diz Pellizzon. “Então, a terapia de prótons, além de ter um custo mais alto, também tem uma demanda de espaço que é cara em muitas cidades”, completa.

Outra questão é que o acelerador deve ser instalado com especificações rígidas -- como a necessidade de quatro andares para que a radiação não atinja o solo, e que o local suporte o peso dos equipamentos.

O superintendente de Negócios do A.C. Camargo Cancer Center, José Marcello Amatuzzi, diz que avalia a chegada da terapia de prótons no Brasil há dois anos. “Estamos acompanhando os preços”, diz.

Segundo Amatuzzi, mesmo com o alto investimento, o retorno da tecnologia só viria daqui a três anos pela dificuldade de implementação da infraestrutura – que depende de um síncroton, um acelerador de partículas capaz de produzir o feixe de energia que irá ser direcionado ao tumor.

Já Eduardo Weltman, do Einstein, diz que já dá para alguns centros no Brasil começaram a pensar na implementação, e é o que deve acontecer nos próximos anos.

“O avanço foi muito grande e os aparelhos ficaram mais portáveis, mas, claro, não vai ser algo que vai dar lucro, pelo contrário, muitos centros nos Estados Unidos estão quebrando. Então, isso vai vir de instituições que não têm o lucro como uma meta primordial”, diz.

Há riscos também de o aparelho gerar processos judiciais para a utilização pelo alto custo – e não se sabe como será a regulamentação no Brasil.

Para Arthur Rosa, uma estratégia interessante é o desenvolvimento de um centro de prótons público ou privado que pudesse atender pacientes de diversos hospitais. "Se há vários centros, algumas máquinas podem ficar ociosas porque a terapia acaba tendo uma utilização mais específica. O melhor seria um consórcio para que um único centro pudesse atender a vários pacientes."


terça-feira, 7 de agosto de 2018

Pesquisa indica que 40% dos casos de câncer estão associados a sobrepeso


Dieta saudável e perda de peso ajudam a reduzir riscos Divulgação

Excesso de peso aumenta risco de desenvolver 13 tipos de tumor
03/10/2017 18:51:13
AFP - http://odia.ig.com.br/mundoeciencia/2017-10-03/pesquisa-indica-que-40-dos-casos-de-cancer-estao-associados-a-sobrepeso.html
Washington, EUA - Cerca de 40% dos casos de câncer detectados nos Estados Unidos em 2014 — mais de 630 mil no total — estão associados ao excesso de peso, indicaram especialistas nesta terça-feira, pedindo que as ações preventivas sejam intensificadas.
Em um país em que 71% dos adultos têm sobrepeso ou obesidade, as conclusões dos Centros para o Controle e Prevenção de Doenças (CDC) "são motivo de preocupação", disse a diretora da agência, Brenda Fitzgerald.
"A maioria dos adultos americanos pesa mais do que o recomendado, e ter sobrepeso põe as pessoas em alto risco de sofrer de diferentes tipos de câncer", disse em um comunicado.
"Atingindo um peso saudável e mantendo-o, todos podemos ter um papel na prevenção do câncer", acrescentou.
Está demonstrado que ter excesso de peso aumenta o risco de desenvolver 13 tipos de tumor, incluindo o câncer de esôfago, de tireoide, de mama pós-menopausa, de vesícula, estômago, fígado, pâncreas, rim, ovários, útero, cólon e reto.
A taxa de tumores associados à obesidade está aumentando, em contraste com a taxa total de casos de câncer, que diminuiu desde os anos 90.
O câncer colorretal foi o único câncer associado ao peso que diminuiu entre 2005 e 2014, com uma queda de 23%, em grande parte graças à melhora do diagnóstico, segundo o relatório.
O resto de casos associados ao peso aumentaram 7% na última década.
SAIBA MAIS
Aproximadamente dois terços dos 630 mil casos de 2014 associados ao peso ocorreram em pessoas de 50 a 74 anos, sendo as mulheres as mais afetadas, com 55% dos tumores diagnosticados associados ao peso, em comparação com 24% nos homens.
Segundo os últimos dados dos CDC, 32,8% dos americanos têm sobrepeso e 37,9% são obesos.
Uma pessoa é considerada acima do peso quando seu índice de massa corporal (IMC, o resultado da divisão do peso pela altura ao quadrado) é entre 25 e 29,9, e obesa quando o IMC é 30 ou mais.


quinta-feira, 5 de julho de 2018

Avatar do câncer



Médicos recriam, em animais, os tumores dos pacientes. O modelo é usado para testar os remédios mais eficazes para cada caso

20/04/18 - 18h00
Uma experiência pioneira no Brasil está sendo conduzida no Hospital A C Camargo Cancer Center, em São Paulo. Lá, pacientes começam a ter adicionado ao tratamento um recurso que vem sendo chamado de “avatar do câncer”. Uma amostra do tumor de cada um é reproduzida e cresce implantada em um camundongo, sob a pele ou no órgão correspondente do animal, funcionando como um espelho da doença. Em casos difíceis, a estratégia é valiosa. Por meio dela, os médicos podem experimentar contra aquele tumor específico remédios que podem ser mais eficazes e observar seu comportamento, inclusive agressividade, mas de forma que o corpo do paciente fique preservado de eventuais prejuízos que as tentativas possam trazer.

A aplicação clínica no A C Camargo começou há cerca de um ano e meio, em pacientes com tumores tradicionalmente mais agressivos, como melanoma (tipo de câncer de pele) e algumas variedades de tumor de rim. “O trabalho é inicial, mas os resultados são muito interessantes”, afirma a médica Vilma Regina Martins, superintendente de pesquisas da instituição, referência no combate à enfermidade no País.


“Os resultados obtidos até agora são muito interessantes” Vilma Martins, médica do AC Camargo Cancer Center

O que anima os médicos são especialmente as respostas que podem ser observadas em relação aos medicamentos. No avatar são testadas medicações novas, em geral com tempo de uso mundial insuficiente para conclusões definitivas sobre sua eficácia de maneira generalizada. Além disso, em muitos casos esses remédios funcionam muito bem para um paciente, mas não dão resultado, ou pelo menos não tão bons, para outro, apesar de o tipo de tumor ser o mesmo. “Os mini-tumores fazem parte da oncologia de precisão. Quanto mais personalizado o tratamento, melhor”, explica Luiz Henrique Araújo, pesquisador do Instituto Nacional do Câncer, no Rio de Janeiro. Em trabalho recente, o médico George Vlachoginannis, do Instituto de Pesquisa do Câncer, de Londres, atestou a eficácia do recurso. “Os modelos em animais funcionam como o tumor do humano. Por isso, são muito eficientes para que possamos estimar as reações dos pacientes”, disse à ISTOÉ. C.P.

Espelho perfeito
Como são feitas as amostras
 São extraídas células do tumor do paciente
 São injetadas em camundongos, de preferência no órgão correspondente ao atingido no paciente
 Após um período variável, o animal desenvolve tecido tumoral bastante semelhante ao registrado no doente


quarta-feira, 13 de junho de 2018

Justiça limita reajuste de planos de saúde individuais a 5,72%



Em 2015, 2016 e 2017, os reajustes permitidos pela agência superaram 13% ao ano (Thinkstock/VEJA)
Ação do Idec se baseou em relatório do TCU que aponta distorções, abusividade e falta de transparência na metodologia usada para calcular o reajuste
Por Redação https://veja.abril.com.br/economia/justica-limita-reajuste-de-planos-de-saude-individuais-a-572/
access_time13 jun 2018, 15h26 - Publicado em 13 jun 2018, 13h09

O juiz José Henrique Prescendo, da 22ª Vara Cível Federal de São Paulo, determinou que a Agência Nacional de Saúde Complementar (ANS) aplique a inflação do setor de saúde como teto para reajuste dos planos de saúdeindividuais e familiares em 2018. Dessa forma, a correção desses planos fica limitada a 5,72% – porcentual equivalente à variação do IPCA relativo a saúde e cuidados pessoais.
A decisão foi dada em ação civil pública ajuizada pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), que se baseou em relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) que aponta distorções, abusividade e falta de transparência na metodologia usada pela ANS para calcular o porcentual máximo de reajuste de 9,1 milhões de beneficiários de planos individuais. Em 2015, 2016 e 2017, os reajustes permitidos pela agência superaram 13% ao ano.
 “Essa decisão faz justiça aos milhões de consumidores lesados pela agência, seja por impedir que uma metodologia equivocada continue prejudicando consumidores em todo o país, seja por reconhecer que a agência vem, há anos, faltando com a transparência e privilegiando os interesses das empresas em detrimento dos consumidores” afirma em nota a presidente do Conselho Diretor do Idec, Marilena Lazzarini.
Segundo o Idec, a metodologia utilizada pela ANS para calcular o índice máximo é essencialmente a mesma desde 2001 e leva em consideração a média dos porcentuais de reajuste aplicados pelas operadoras aos planos coletivos com mais de trinta usuários. O problema é que os reajustes dos coletivos, base para calcular o aumento dos individuais, são informados pelas próprias operadoras à ANS e não são checados ou validados de forma adequada, de acordo com o relatório do TCU.
Na ação, o Idec aponta ainda outra distorção no cálculo dos reajustes aplicados desde 2009 aos planos de saúde. Com base no relatório do TCU, o Idec afirma que a ANA computou duas vezes o impacto dos custos com atualizações de procedimentos obrigatórios.
Procurada, a ANS informou que irá recorrer da decisão e que “repudia ações desprovidas de fundamentação técnica e que acabam causando comoção social e viés pró-judicialização de temas sob responsabilidade do órgão regulador”.
“A reguladora reafirma ainda que todas as suas decisões são baseadas em informações técnicas e que é preciso considerar que o setor de planos de saúde possui características específicas que influenciam a formação do percentual de reajuste, como a variação da frequência de utilização e variação de custos em saúde, crescente em todo o mundo”, afirma em nota

NOTA DO VIDA COM CÂNCER: dias depois a ANS entrou na justiça e derrubou a liminar.