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quarta-feira, 21 de junho de 2023

Tratamento revolucionário contra câncer de medula óssea tem 90% de sucesso

8 de junho de 2023 - 

Por Vitor Guerra

Um tratamento revolucionário para pacientes com câncer de medula óssea. Com a técnica CAR-T, os pesquisadores conseguiram o índice de 90% de remissão nos mais de 74 pacientes tratados. Vitória da ciência!

A conquista sem precedentes vem da Hadassah University Medical Center, em Jerusalém, em Israel, que usou a técnica que treina e fortalece as células de defesa do paciente, fazendo com que elas combatam o câncer mais efetivamente.

O câncer de medula óssea, ou mieloma múltiplo, é a segunda doença hematológica mais comum, atrás apenas do linfoma. A doença se manifesta em células do sangue chamadas plasmócitos, produzidas na medula.

Como é o tratamento inovador

Na pesquisa, foi aplicada a técnica chamada de CAR-T, bastante utilizada em tecnologia de engenharia genética, apresentando ótimos resultados no combate ao câncer.

A Chimeric Antigen Receptor T-Cell Therapy, estimula o próprio sistema imunológico do paciente para destruir o câncer que acomete o corpo.

Depois de coletar células saudáveis do paciente, os pesquisadores programam os glóbulos brancos (responsáveis pela defesa do organismo) e separaram as células T, que são as responsáveis ativamente pelo sistema imunológico.

Separar os glóbulos vermelhos dos brancos é um processo complexo: pode levar de duas a quatro horas e se assemelha à doação de sangue. Com as células separadas, é realizado um processo de engenharia genética.

Essas células T, que agora foram modificadas, são injetadas novamente no paciente e ajudam a destruir o câncer.

“Os resultados do tratamento CAR-T são impressionantes, garantindo aos pacientes mais anos e muita qualidade de vida”, disse a professora Polina Stepensky, chefe do Departamento de Imunologia.

Fila de espera

O mieloma múltiplo é uma doença que foi considerada por muitos médicos incurável, mas o resultado apresentado pela Universidade de Hadassah pode mudar esse diagnóstico.

A série de experimentos realizados no departamento levou a uma fila de espera grande.

“Temos uma lista de espera de mais de 200 pacientes de Israel e de várias partes do mundo”, disse Polina.

A pesquisadora ainda acrescentou que por ser um tratamento mais complexo, podendo ser realizado apenas com um paciente por semana, acaba dificultando um pouco o processo.

O mieloma múltiplo

O mielo é um tipo de câncer que aparece na medula óssea.

A doença tem esse nome porque normalmente o câncer costuma afetar várias áreas do corpo, como o crânio, pelve, costelas e a coluna.

O mieloma é também um câncer silencioso em seu estágio inicial, mas à medida que vai evoluindo pode fazer com que o paciente sinta falta de ar, dor óssea e fadiga.

Sendo mais comum em pessoas com mais de 60 anos, a doença acomete mais homens do que mulheres. Em 2021, a jornalista Cristiana Lôbo foi vencida pela doença. Ela morreu aos 63 anos.

Tratamento sofisticado

A disponibilidade do CAR-T ainda é baixa. Hoje, somente dois países possuem o tratamento, China e Estados Unidos.

O custo é alto, próximo de US$ 400.000 (R$ 2 milhões de reais), mas o tratamento contra o câncer de medula que levou a remissão de 90% dos pacientes em Hadassah é diferente.

“O tratamento é mais sofisticado e avançado do que o oferecido no mundo. A ideia é avançar no desenvolvimento e permitir que o CAR-T seja benéfico e acessível para pacientes com outros tipos de câncer”, disse Polina.

Com informações do The Jerusalem Post

 

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

A descoberta sobre o sistema imunológico que pode ajudar a combater todos os tipos de câncer



James Gallagher - @JamesTGallagherRepórter de ciência e saúde
 tratamento de diversos tipos de câncer
Uma recente descoberta sobre o nosso sistema imunológico pode se tornar uma arma para tratar todos os tipos de câncer.
Uma equipe de cientistas da Universidade de Cardiff, no País de Gales, desenvolveu um método em laboratório que destrói o câncer de próstata, mama, pulmão e outros tipos.
Os achados, divulgados na publicação científica Nature Immunology, ainda não foram testados em pacientes, mas têm um "enorme potencial", afirmam os pesquisadores.
Para especialistas que não participaram da pesquisa, ainda que o trabalho esteja num estágio inicial, ele é bastante promissor.
O que eles descobriram?
Nosso sistema imunológico é a defesa natural do corpo contra infecções, mas ele também ataca células cancerosas.
A equipe da Universidade de Cardiff estava em busca de maneiras novas e "não convencionais" de fazer com que o sistema imunológico atacasse naturalmente tumores.
Eles encontraram uma célula-T (ou linfócito T) com um novo tipo de "receptor" que identifica e ataca células cancerosas, ignorando as saudáveis.
A diferença nesta célula imunológica é que ela pode escanear o corpo em busca de ameaças que devem ser eliminadas e atacar uma ampla variedade de cânceres.
"Há uma possibilidade de que ele possa tratar todos os pacientes", afirmou o professor Andrew Sewell à BBC. "Antes ninguém acreditava que isso fosse possível."
Como ela funciona?
As células T têm "receptores" na superfície que permitem a elas "enxergar" em um nível químico.
Os pesquisadores da Universidade de Cardiff descobriram que a célula T e seu receptor podem encontrar e destruir uma gama de células cancerosas no pulmão, na pele, no sangue, no cólon, na mama, nos ossos, na próstata, no ovário, no rim e na coluna cervical.
E fazem isso deixando intocados os tecidos "normais".
ancerosas
O modo exato como que isso acontece ainda está sendo pesquisado.
Esse receptor da célula T em particular interage com uma molécula chamada MR1, presente na superfície de todas as células do corpo humano.
Acredita-se que a MR1 seja a responsável por sinalizar ao sistema imunológico o metabolismo disfuncional em curso dentro de uma célula cancerosa.
"Somos os primeiros a descrever a célula T que encontra o MR1 nas células cancerosas — isso não tinha sido feito antes, foi a primeira vez", disse à BBC o pesquisador Garry Dolton.
Por que essa descoberta é relevante?
Terapias com células T já existem e o desenvolvimento de imunoterapias contra o câncer tem sido um dos avanços mais empolgantes nesse campo.
O mais famoso exemplo é o chamado CAR-T, uma droga viva produzida por meio de engenharia genética em células T para procurarem e destruírem o câncer.
O CAR-T pode trazer resultados incríveis que levam alguns pacientes do estágio de doença terminal para a completa remissão.
Essa abordagem é, no entanto, extremamente específica e funciona com apenas um número limitado de cânceres onde há um alvo claro para treinar a "mira" das células T.



E também enfrenta dificuldades em combater "cânceres sólidos" — aqueles que formam tumores em vez de sangue canceroso como a leucemia.
Já os pesquisadores da Universidade de Cardiff afirmam que o receptor da célula T pode levar a um tratamento de câncer "universal".
Mas como isso funciona na prática?
A ideia é extrair uma amostra de sangue do paciente em tratamento contra o câncer.
As células T seriam extraídas e modificadas geneticamente a fim de reprogramá-las para constituir o receptor que encontra o câncer.
Essas células aperfeiçoadas seriam cultivadas em largas quantidades em laboratório e depois reinseridas no paciente. É o mesmo processo usado na terapia CAR-T.
No entanto, essa pesquisa da Universidade de Cardiff foi testada apenas em animais e células em laboratório, e testes em humanos demandam mais etapas de segurança.
O que dizem outros especialistas?
Lucia Mori e Gennaro De Libero, da Universidade de Basileia, na Suíça, afirmam que essa pesquisa tem um "enorme potencial", mas ainda é cedo para afirmar que ela poderia funcionar para todos os tipos de câncer.
enfermo são reprogramados para reconhecerem as células cancerosas
"Estamos muito empolgados com as funções imunológicas dessa nova população de células T e o uso potencial do receptor na terapia de células tumorais", dizem.
Daniel Davis, professor de imunologia da Universidade de Manchester, na Inglaterra, afirmou que "por ora, ainda é uma pesquisa em estágio bastante inicial e nem perto de se tornar um tratamento real para pacientes".
"Mas não há dúvidas de que é uma descoberta bastante empolgante, tanto para o avanço do nosso conhecimento sobre o sistema imunológico quanto para o desenvolvimento de novos tratamentos."


terça-feira, 29 de outubro de 2019

Cura de brasileiro cria nova esperança contra o câncer terminal

Brasileiro de 63 anos tem remissão de linfoma não Hodkings avançado após ser submetido a terapia inédita na América Latina. Responsáveis pelo teste, cientistas da USP desenvolvem uma metodologia nacional da técnica há quatro anos

PO Paloma Oliveto
postado em 12/10/2019 07:00 / atualizado em 12/10/2019 16:57


O paciente voltou a engordar e terá alta hoje: análise do tipo de remissão, se foi completa ou parcial, sairá em três meses(foto: Agência Fapesp/Divulgação)

Considerada uma das mais promissoras terapias de combate aos tumores hematológicos dos últimos tempos, as células CAR T foram usadas, pela primeira vez, na América Latina para tratar um paciente terminal de linfoma não Hodkings avançado, com prognóstico de menos de um ano de vida. O procedimento experimental foi realizado por médicos e pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP/USP) em setembro e resultou na remissão da doença.

Embora não necessariamente signifique a cura — entre 20% e 30% das pessoas com linfomas e leucemias tratadas com esse tipo de célula, do próprio paciente, têm recidiva em alguns anos —, o homem de 63 anos não apresenta mais os sintomas que tinha ao dar entrada no Hospital das Clínicas da FMRP. Antes de se submeter ao procedimento, ele sofria de perda acentuada de peso, suores noturnos e muitas dores, o que obrigava os médicos a tratá-lo com dose máxima de morfina. Agora, voltou a engordar, não tem mais sudorese nem precisa do forte opioide. Os médicos responsáveis ressaltam que, apenas daqui a três meses, será possível avaliar se a remissão foi completa ou parcial, mas estão otimistas com o tratamento. Hoje, o paciente terá alta.

Células CAR T são retiradas do paciente e modificadas geneticamente para que, quando reintroduzidas no organismo, formem um exército robusto de soldados que mirem um alvo específico do tumor, o destruam e mantenham intactas as estruturas saudáveis do organismo. Mesmo depois de matar as células doentes, elas ficam em alerta na corrente sanguínea para que, ao identificarem uma tentativa do câncer de reaparecer, o ataquem novamente. No Brasil, esse tratamento não está disponível. Nos Estados Unidos e em países que exportaram a tecnologia, o preço pode ultrapassar US$ 1 milhão.

O tratamento bem-sucedido foi realizado no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), a partir de uma pesquisa que está sendo realizada na universidade, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). De acordo com os médicos que desenvolveram a metodologia nacional, o custo foi de apenas R$ 150 mil. Essa terapia, porém, ainda é experimental e não está disponível.

O paciente, diagnosticado em 2017 e sem sucesso nas diversas quimioterapias desde então, foi beneficiado pelo chamado uso compassivo, quando já não há nenhuma opção e, portanto, é possível tratá-lo com métodos experimentais. A equipe da USP, composta por 20 pesquisadores, desenvolve o método nacional de células CAR T há quatro anos.

“Trata-se de uma tecnologia muito recente e de uma conquista que coloca o Brasil em igualdade com países desenvolvidos. É um trabalho de grande importância social e econômica para o país”, afirmou à Agência Fapesp Dimas Tadeu Covas, coordenador do Centro de Terapia Celular (CTC) da USP. De acordo com Renato Cunha, médico e pesquisador do CTC, a intenção, agora, é ampliar o protocolo do estudo e atender mais voluntários. Ele contou ao Jornal da USP que outros dois pacientes com linfomas graves estão perto de receber a infusão das células reprogramadas.
Entusiasmo
O hematologista Alexandre Caio, do Instituto OncoVida/Oncoclínicas, está entusiasmado com o anúncio do tratamento feito pelos colegas de São Paulo. Ele conta que um de seus pacientes participou de uma pesquisa em Israel com células CAR T, e apenas a infusão saiu por US$ 70 mil, mesmo sendo experimental. “É um procedimento inviável no cenário brasileiro. Quando você tem um tratamento exitoso e célere como o da USP no cenário do Sistema Único de Saúde, isso é fantástico. Dá ao paciente do SUS a esperança de ter essa possibilidade de tratamento. É algo que poderá beneficiar todos os brasileiros. Esse tipo de pesquisa nos dá orgulho do SUS, orgulho da medicina pública e mostra que é preciso investimento nas universidades, nos hospitais universitários”, defende.

Caio ressalta que, mesmo nos Estados Unidos, onde está aprovado desde 2018, o tratamento com células CAR T para linfomas e leucemias não é indicado como primeira linha, ou seja, a primeira opção. Para chegar a ele, a resposta do paciente às linhas à base de quimioterapia têm de ter falhado. O hematologista lembra que, com os quimioterápicos, as chances de cura de tumores hematológicos chegam a 90%, dependendo do estágio da doença. Outra possibilidade das células CAR T, diz Alexandre Caio, é fazer a ponte entre o tratamento padrão e o transplante de medula óssea.

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/ciencia-e-saude/2019/10/12/interna_ciencia_saude,796890/cura-de-brasileiro-cria-nova-esperanca-contra-o-cancer-terminal.shtml

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Terapia genética para o câncer deve chegar ao Brasil em 2018


Após tentar vários tratamentos, Márcia D'Umbra, 50, passou por um tratamento experimental com terapia celular em Israel. 'Era uma situação de total risco', relata. (Foto: Marcelo Brandt/G1)

Salto estratégico na oncologia, a terapia capaz de ensinar células do sistema imune a lutar contra o tumor deve chegar ao país no ano que vem. Hospital em São Paulo já prepara infraestrutura.



Por Carolina Dantas e Monique Oliveira, G1
17/10/2017 05h00  Atualizado há menos de 1 minuto

A estratégia de editar geneticamente nossas células de defesa para que elas "aprendam" a combater o câncer parece não estar tão longe do alcance dos brasileiros. Aprovada nos Estados Unidos comercialmente no final de agosto, a terapia que promete ser um salto importante na oncologia está na mira de vários centros no país e um deles reuniu condições para trazer a terapia no ano que vem -- depois de levar pacientes brasileiros para instituições de excelência fora do país.

Foi o que aconteceu com Márcia D'Umbra, de 50 anos, que venceu um melanoma agressivo após se submeter a este tipo de tratamento em Israel

Enquanto o Inca (Instituto Nacional do Câncer), público, que tem estudos em cobaias com a terapia desde os anos 1990, busca financiamento para levar a terapia adiante, o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, privado, anuncia que deve fazer os primeiros tratamentos experimentais no Brasil em 2018. O hospital separou uma sala especial para isso e já tem pesquisadores nos Estados Unidos em treinamento. A ideia é ser o primeiro centro de terapia genética do câncer na América Latina.

O investimento do Einstein para começar a terapia por aqui está avaliado em US$ 7 milhões (mais de R$ 22 milhões) -- com US$ 2 milhões (cerca de R$ 6,3 milhões) destinados a uma sala especial de esterilização. "É uma estimativa genérica porque, mais importante que a infraestrutura, vão ser os investimentos em pesquisa", diz Wilson Pedreira, diretor do Centro de Oncologia do Einstein.

Fora do país, o custo dos tratamentos para os pacientes gira em torno de US$ 300 mil (cerca de R$ 945 mil), como mostra detalhamento abaixo.

O G1 entrou em contato com o Hospital Sírio Libanês e com o A.C Camargo, outros centros de referência no tratamento do câncer no Brasil, e nenhum dos dois apresentou projetos a curto prazo para implementar essas novas terapias. "As barreiras são financeiras e tecnológicas", disse Yana Novis, coordenadora de onco-hematologia do Centro de Oncologia do Hospital Sírio- Libanês.

A primeira das novas terapias para o câncer que deve chegar ao Einstein é a TIL, indicada para o melanoma. Mais para frente, serão disponibilizados protocolos de CART-CELL, imunoterapia que tem apresentado bons resultados em leucemias. Essas terapias, no entanto, ainda deverão ser regulamentadas por órgãos reguladores e comitês de pesquisa.

De qualquer modo, segundo especialistas ouvidos pela reportagem, não se trata de anunciar uma terapia longínqua, fruto de um otimismo um tanto precipitado: de fato, a imunoterapia genética, façanha que desde os anos 1980 tem sido apontada como o "sonho" da medicina no câncer, pode ser a diferença entre a remissão e a cura no tratamento de tumores no país.

Trata-se de um salto estratégico muito mais que apenas mais uma novidade em tratamentos. A medicina com a imunoterapia genética tem a possibilidade de fazer com que o corpo "aprenda" a combater o tumor caso ele volte -- técnica que é bem diferente de eliminar células cancerígenas por meio de cirurgia ou quimioterapia.

"Essa é uma terapia que ficou quente nos últimos anos porque os resultados em leucemia foram muito promissores", diz Martin Hernan Bonamino, pesquisador do Inca e coordenador do grupo de câncer da Fiocruz.
"É o mesmo conceito hoje da Aids, o câncer pode deixar de ser letal e ser controlável. As terapias estão caminhando nesse sentido", diz Wilson Pedreira, diretor do Centro de Oncologia do Einstein.
"São as células-soldado do sistema imune que entram em ação contra o tumor”, diz Antonio Carlos Buzaid, oncologista do Hospital Israelita Albert Einstein, especializado em melanoma.

Não à toa o número de estudos clínicos que estão investigando a nova estratégia é alto e, se considerarmos os números de estudos ainda em andamento, a probabilidade de novas descobertas serem feitas nos próximos anos é ainda maior.

Em consulta feita no dia 20 de setembro no clinicaltrials.gov, plataforma que cadastra estudos clínicos em todo mundo, havia o registro de 382 estudos clínicos com CART-Cell, com 195 deles recrutando pacientes e 75 deles completados.

Como qualquer nova terapia, contudo, os desafios também são novos -- muitos deles desconhecidos da oncologia até agora.

As principais estratégias
Disponível apenas para alguns tipos de câncer, são três as principais estratégias de terapias celulares: CART-Cell, disponível para leucemia; T CELL "Engendrado", pesquisada para melanoma e sarcoma; e TIL, usada também para o melanoma. Confira como funciona cada uma delas:
1 - CART-Cell

A estratégia da CART-Cell consiste em habilitar linfócitos T, células de defesa do corpo, com receptores capazes de reconhecer o tumor. O ataque é contínuo e específico e, na maioria das vezes, basta uma única dose.

Indicações até agora: Linfomas e leucemia linfoide aguda (o câncer mais comum em crianças). Nas leucemias em crianças, a taxa de sucesso dessa terapia é alta (superior a 50%, em média).

Onde o processo está mais avançado: Estados Unidos.

Preço: Os processos são experimentais. Nos Estados Unidos, no entanto, é possível pagar para entrar no protocolo. Por lá, a terapia sai por US$ 300 mil (cerca de R$ 945 mil) em média.

2 - T CELL 'Engendrado'
O processo é parecido com o do CART-Cell. A diferença aqui é que, enquanto a célula de defesa reconhece antígenos (partícula que deflagra a produção de um anticorpo específico) na superfície do tumor, o T CELL engendrado é capaz de reconhecer antígenos mais profundos que são processados e apresentados na superfície da célula cancerosa.

Onde está sendo estudado: National Institute of Health (Estados Unidos).
Indicações com mais sucesso até agora: Melanoma (câncer grave de pele) e Sarcoma sinovial (tumor das partes moles).

Estimativa de custo: Não há ainda. Os resultados são bem preliminares mas há pacientes aparentemente curados com essa técnica.

3 - Terapia 'TIL'
O processo consiste em retirar o tumor do paciente e extrair as células de defesa (linfócitos T que infiltram o tumor), cultivá-las em laboratório, expandir em grande quantidade e depois reinjetá-las no paciente.

Ao contrário do CART-Cell, não há terapia genética e o processo tende a ser mais seguro (embora ainda seja bem mais complicado que as terapias convencionais).

Onde está sendo estudada: Israel, Holanda e Estados Unidos; no Brasil, o Hospital Israelita Albert Einstein planeja para o próximo ano iniciar os tratamentos dos primeiros pacientes.

Indicação: Melanoma, com taxa de cura em torno de 30% dos casos
Preço estimado: US$ 200 mil em Israel ( cerca de R$ 630 mil)

Um caso de cura


A americana Ava Christianson (Foto: Reprodução/Facebook/Bethany George Christianson)

Ava Christianson já tinha passado por várias rodadas de quimioterapia e estava pronta para mais uma. Acabou se tornando um dos casos mais repercutidos de cura pela nova terapia chamada de CAR T-Cell.

O procedimento, de acordo com reportagem do "The Washington Post", demorou cinco minutos no Centro Clínico dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH) -- na época, a garota tinha 8 anos e convivia com a doença desde os 4 anos. A remissão da doença começou um mês depois.

O rápido procedimento passado por Christianson é a injeção de suas próprias células T, parte fundamental do nosso sistema imunológico. Elas foram modificadas para rastrear e matar as células tumorais.



Christianson era a paciente teste de nº de 18 do NIH, que ainda é o centro-chefe das pesquisas sobre o novo tratamento. Os resultados positivos direcionaram à aprovação pela FDA, órgão similar à Anvisa dos EUA. A Novartis, empresa que possui a patente, informa que a taxa de remissão nestes casos é, em média, de 83%.

Brasileiros buscam solução fora
Já existem pacientes brasileiros que viajaram para o exterior atrás de uma cura com a terapia. Márcia D'Umbra, de 50 anos, sobreviveu a um melanoma agressivo após se submeter ao tratamento do TIL, em Israel, há 5 anos. "Quando vou ao consultório, o médico brinca: estou quase achando que você está curada". "Era a única chance que ela tinha", diz Antonio Buzaid, do Einstein, que ajudou Márcia a conseguir o tratamento em Israel.

"Depois de Israel, não tinha mais o que fazer no meu caso. Era uma situação de total risco", diz Márcia.

Antes da viagem a Israel, Márcia tentou todos os protocolos clínicos para o tratamento do melanoma no Brasil. Passou por quimioterapia e por medicamentos de ponta disponíveis para a condição, como o ipilunumab. A família também chegou a procurar um tratamento nos Estados Unidos, mas Márcia não correspondia a todos os critérios para entrar no protocolo.

Com o melanoma em metástase, Márcia chegou a ter dois tumores no sistema nervoso central. Cinco anos após a terapia em Israel, ela conta da vida normal que passou a levar, livre dos tumores que tinham se espalhado por seu corpo.

"Quando eu fiquei doente, eu tinha metástase cerebral, eu não podia mais dirigir, eu perdi todo o domínio da minha vida, de tudo. Hoje eu tenho uma vida normal", relembra.

As dificuldades do tratamento
Apesar de já estar disponível para algumas condições e se revelar promissor, na prática, o processo do tratamento da terapia genética é bastante complexo e desafiador. Por esse motivo, poderá levar algum tempo até que o procedimento esteja disponível para mais tipos de câncer.

Veja abaixo algumas das barreiras ainda a serem vencidas:

Efeitos colaterais: estudo publicado na "Nature Review Clinical Oncology” alerta para efeitos colaterais letais da terapia -- como a toxicidade neurológica e o inchaço no cérebro. Uma outra questão é a chamada "síndrome de liberação de citoquinas (SIR)", resposta imune progressiva que causa sintomas semelhantes à gripe, mas com potencial fatal nos pacientes.

Especificidade: para garantir o sucesso da terapia, os cientistas modificam o linfócito T para que ele seja capaz de reconhecer uma estrutura específica do tumor. Isso é, ao mesmo tempo, o motivo do sucesso e do eventual fracasso da terapia, pois caso essa estrutura utilizada para "ativar" o linfócito não seja de fato específica e, por algum motivo, o paciente tenha a presença desses antígenos em alguma outra parte do corpo, a terapia perde a sua especificidade. Resultado: a célula de defesa também poderá atacar células do corpo saudáveis, uma vez que o linfócito está treinado para reconhecer especificamente essa estrutura e não o tumor por inteiro.

"Esse é um processo muito complexo e é por esse motivo que a terapia não está disponível para mais condições", diz Antonio Carlos Buzaid, oncologista do Hospital Israelita Albert Einstein, especializado em melanoma. "Não é para todo mundo porque ela será desenhada para tumores específicos".

"Um estudo clínico que testou a terapia para o controle de câncer de mama com antígeno HER 2 acabou não funcionando por esse motivo. Uma paciente que tinha um pouquinho desses receptores no pulmão morreu com o órgão totalmente destruído em horas".

Precocidade: de acordo com Yana Novis, coordenadora de onco-hematologia do Centro de Oncologia do Hospital Sírio- Libanês, ainda não há tempo suficiente em testes para avaliar os efeitos do tratamento a longo prazo no corpo humano.

"Muito importante quando se mexe com engenharia genética é tentar entender o que esse tipo de terapia pode, quem sabe, trazer de impacto no futuro", disse.

"Os estudos são todos precoces e os pacientes precisam ser acompanhados em um período de tempo mais longo. Precisamos ver se além de trazer a cura, podemos trazer algum outro impacto na vida do paciente", explicou.

"Isso porque quando você está ativando todo um sistema imune para combater um câncer, você não tem tanto controle sobre ele. É uma preocupação que todos têm com CAR-T. Pode ser que não aconteça nada, pode ser que esse sistema imunológico desregulado por nós de uma maneira a curar uma doença, possa causar outra no futuro”, aponta.

Logística: Atualmente, as terapias celulares estão sendo voltadas especificamente para cada paciente. "Isso é um desafio logístico importante, as células têm que viajar, ser modificadas e devolvidas. O reparo leva de 20 a 30 dias", relata o oncologista do Inca.

Novo x convencional
Na forma convencional, o tratamento dos cânceres sanguíneos é feito com quimioterapia. Já no caso de câncer com órgãos sólidos, de acordo com o oncologista Márcio Paes, pode-se pode fazer uma cirurgia para a retirada do tumor e também usar a radioterapia.

"Realmente é um tratamento ainda muito tóxico. Cai o cabelo, causa fraqueza, náuseas. A radioterapia pode dar uma sensação de queimadura e fadiga", explica, sobre os métodos convencionais.

Por outro lado, o médico diz que o mecanismo das novas terapias pode causar um efeito inflamatório, porque o corpo "luta" contra si mesmo.

"Para os tratamentos novos há uma expectativa muito boa de que possam causar poucos efeitos colaterais. Mas há riscos, pode haver reações graves que podem levar o paciente à UTI. O efeito é uma reação inflamatória grave, mas sem queda de cabelo, por exemplo".

"É um tratamento menos tóxico e com uma taxa de resposta positiva maior", completa.

Regulamentação
A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) informa que não houve um pedido formal para o uso da terapia genética no Brasil. Com isso, as terapias celulares seriam aplicadas em caráter experimental – nesse caso, sob a supervisão do Conep (Comitê Nacional de Ética em Pesquisa), que deve aprovar o protocolo em que cada terapia será utilizada.

Para deixarem de ser experimentais, os serviços deverão pedir aprovação na Anvisa e também passar pela Comissão de Novos Procedimentos do Conselho Federal de Medicina.

Além disso, mesmo quando aprovadas, as terapias celulares só serão usadas em pacientes que não responderem aos tratamentos tradicionais, já que se trata de um processo mais invasivo e extremamente complexo.

Preços e o desafio para o SUS
Os preços para terapia celulares fora do país estão avaliados em US$ 300 mil (cerca de R$ 945 mil) em média -- um valor que tem por base o preço do transplante de medula óssea.

Segundo Martin Bonamino, do Inca, apesar de aparentemente altos, os custos da terapia não estão tão fora do conjunto de terapias mais modernas para o câncer -- medicamentos como o "Trastuzumabe", por exemplo, terapia biológica usada para o tratamento do câncer de mama, tem por custo uma variaçao de preço entre R$ 20 a 30 mil mensais. O medicamento geralmente é usado por 18 meses. Já a maior parte das terapias celulares em andamento tem potencial para serem utilizadas uma única vez.

Bonamino indica que o maior desafio será a chegada dessas terapias no sistema público. Para serem ofertados no SUS, diz ele, uma alternativa seria a fabricação dessas terapias no Biomanguinhos (laboratório público ligado à Fiocruz). "É fundamental que a gente tenha a capacidade de também produzir essa terapia por aqui", diz.