quarta-feira, 21 de junho de 2017

Tratamento atóxico poderá reduzir a quimioterapia contra o câncer

Pesquisadores espanhóis estão testando o uso de de nanocápsulas inteligentes para o tratamento do câncer de pulmão
Por Da Redação
access_time23 mar 2017, 23h40


Eva Martín del Valle, professora de engenharia química e coordenadora do projeto, o tratamento em estudo poderá reduzir a toxicidade dos medicamentos convencionais. (Hemera/Thinkstock/VEJA/VEJA)
Um novo tratamento atóxico pode ser uma alternativa à quimioterapia no combate ao câncer, de acordo com pesquisadores da Universidade de Salamanca, na Espanha. O estudo tem como base o uso de nanocápsulas inteligentes capazes de reconhecer células cancerosas agindo diretamente sobre elas, especificamente em casos de câncer de pulmão.

 “O que estamos tentando é abolir a dependência do paciente que passa duas horas em uma sala, submetido a tratamento, enquanto está recebendo a quimioterapia”, disse Eva Martín del Valle, professora de engenharia química e coordenadora do projeto, em comunicado publicado nesta quarta-feira.

experimento in vitro consiste no desenvolvimento de um inalador aerossol que funcione de forma convencional, sem gerar reações adversas ao entrar em contato com o tecido pulmonar.

Segundo Eva, a técnica em estudo promete dar maior autonomia ao paciente em relação à administração do ciclo convencional dos medicamentos. O objetivo do experimento é diminuir a quantidade de fármacos reduzindo a toxicidade e melhorando seus efeitos. “80% do fármaco administrado não é utilizado, mas tem que ser metabolizado ou expulso pelo organismo”. A pesquisadora calculou, ainda, que em até dois anos os testes poderão ser realizados em ratos.

Câncer em impressões 3D
Por enquanto, para garantir a aprovação do uso deste tratamento, a equipe espanhola tem desenvolvido espécies de “tumores” utilizando impressoras 3D em compartimentos que permitem o crescimento das células tumorais de forma estruturada, para que os resultados sejam mais próximos da realidade e demonstrem maior segurança antes de começarem os testes em animais. “Sempre há um salto extremamente grande entre os testes in vitro em comparação com a experimentação in vivo. Não há nada no meio. E é aí que estamos, tentando desenvolver tumores em três dimensões, para ver como crescem e validar o que estamos desenvolvendo”, concluiu a cientista.
(Com EFE)


quarta-feira, 14 de junho de 2017

Hereditariedade do câncer de mama: o papel de Paul Broca

Há mais de 100 anos, Paul Broca, um dos maiores gênios da medicina, concluiu que o câncer de mama pode ter um caráter hereditário
 Por Bernardo Garicochea  abr 2017, 

Pierre-Paul Broca foi um dos maiores gênios da medicina. Entre outras descobertas, ele concluiu que o câncer de mama tem caráter hereditário. (SSPL/Getty Images)

A foto, tirada por volta de 1880 pelo retratista mais ilustre de Paris, Nadar, é uma obra-prima. O senhor que nos olha apresenta costeletas desgrenhadas e volumosas e cabelo muito ralo, disposto de forma bizarra no alto da cabeça, tornando a fronte ainda mais proeminente, o que acentua um olhar agudo, irrequieto: obviamente trata-se de um homem de movimento, possivelmente inundado de ideias enquanto aguardava irritadiçamente o lento processo de impressão na placa de prata dos primórdios da fotografia e, bem com pouco tempo, para perder com asseio pessoal.
Paul Broca, um dos maiores gênios da medicina, foi imortalizado com esta foto antes de morrer prematuramente, aos 56 anos. Uma vida curta, mas absolutamente fascinante. Ele é parte dos poucos membros de nossa espécie que são incondicionalmente aclamados como gênios durante a vida e que a fama só fez crescer na posteridade. Ele fez contribuições fundamentais para a neurologia (descobriu a área da fala, no cérebro), oncologia, psicologia, patologia e teve tempo e energia para fundar a Sociedade Francesa de Antropologia.
Talvez se não fosse um cérebro tão disciplinado e privilegiado para observar padrões na natureza, destes que passam à nossa frente despercebidos todos os dias, a descoberta que o câncer de mama tem uma forte relação com hereditariedade tivesse que esperar mais um século. E ele fez esta descoberta motivado por uma história bem desagradável.
Caso familiar
A sua esposa estava morrendo de câncer de mama aos 36 anos, em 1866, quando ele publicou um trabalho científico em que demonstrava que em seis gerações da família da esposa, 15 em 30 mulheres morreram de câncer de mama e quatro de câncer de fígado. É uma das árvores genealógicas mais extensas de câncer descritas até o início do século XX. E nos conta muitas histórias.
Uma delas está testemunhada nas cartas de Broca a colegas do Hospital Bicetre, em Paris, descrevendo o sofrimento excruciante da esposa, em uma época sem analgésicos minimamente decentes, e em que centros cirúrgicos lembravam mais sucursais de açougues – a anestesia tinha sido inventada poucas décadas antes e ainda engatinhava na metade do século XIX. Sem quimioterapia, sem radioterapia, sem hormonioterapia.
Qualquer unidade de saúde no Brasil hoje, por mais precária ou remota que seja, fornece medicina infinitamente melhor do que as pessoas mais ricas ou famosas, da cidade mais importante do mundo poderiam receber em 1866. Não surpreende que o personagem de Woody Allen abandona relutantemente seus heróis, os grandes artistas que viviam em Paris nos anos 1920, para retornar ao seu tempo, no século XXI, que ele tanto despreza pela vulgaridade, pois é impensável viver sem antibióticos e anestesia dentária.
Broca, ao perceber que familiares da esposa se referiam com alguma insistência a outros casos semelhantes de câncer de mama em parentes jovens, coletou meticulosamente estas informações: tipos de câncer, graus de parentesco, idade. E, descontando a grande quantidade de pessoas que morriam na infância ou juventude, coisa comum na época, percebeu que a proporção de casos de câncer de mama nesta família era assombrosa. Além disso, havia uma clara transmissão direta entre estes familiares para seus descendentes. Ele concluiu o seu trabalho afirmando que câncer de mama era uma doença com transmissão familiar, o que ele chamou de atavismo (o termo hereditário ainda não era utilizado).
Felizmente, casos como os da esposa de Broca são muito raros, mesmo hoje em dia, em que se vive muito mais e que os diagnósticos são muito mais confiáveis. Mas a conclusão dele segue incontestável.
Hereditariedade é rara
Do que sabemos hoje, em cerca de 10% dos casos de câncer de mama há a presença de genes doentes que podem ser transmitidos entre gerações, tanto pelo pai como pela mãe. Há um número bem maior de casos em que a hereditariedade é mais sutil e complexa, portanto, menos previsível. No nosso estágio de conhecimento atual, já conseguimos identificar com muita precisão a vasta maioria destes genes de câncer de mama (e são vários, acredite) por meio de um exame feito no sangue ou na saliva. Encontrado o gene defeituoso, pode-se estimar que outros tipos de câncer esta família corre mais risco de apresentar.

O risco pode ser reduzido
Pode-se também descobrir quais são exatamente as pessoas da família que têm o mesmo gene defeituoso e – aí vem a melhor parte – o que fazer para proteger estes portadores. No caso de câncer de mama, mesmo pessoas com mutações muito graves, como a da esposa de Paul Broca, conseguem reduzir seu risco de câncer de mama de 90% para 5% a 10%. Claro, com o bônus de que quase todos estes poucos tumores serão descobertos em etapas tão iniciais, que virtualmente todas as pacientes que seguirem estas medidas de prevenção vão se curar.
É um paradoxo: mulheres que sabem que têm genes para câncer de mama passam a ter muito menos chance de morrer de câncer de mama do que qualquer mulher da população geral que não tem genes para câncer.

A capacidade analítica de Broca, mesmo no auge da angústia da perda que experimentava, nos iluminou, mais de 100 anos depois, para que produzíssemos conhecimento suficiente que resultou em prevenção e cura. E a esposa de Paul Broca, sabendo da sua ancestralidade para câncer, teria feito seu teste genético e teria sido protegida do desfecho triste desta história, muito provavelmente.

terça-feira, 6 de junho de 2017

É possível preservar a fertilidade após o câncer?

A infertilidade é um dos principais efeitos colaterais do tratamento do câncer, mas técnicas modernas já permitem a preservação da vida reprodutiva
http://veja.abril.com.br/blog/letra-de-medico/e-possivel-preservar-a-fertilidade-apos-o-cancer/
Por Edson Borges

Fertilidade (iStock/Getty Images)
câncer é uma das principais causas de morbidade e mortalidade em todo o mundo, responsável pelo óbito de mais de 8,8 milhões de pessoas no ano de 2015. O Dia Mundial de Combate ao Câncer, celebrado todo 8 de abril por iniciativa da Organização Mundial da Saúde, foi criado para atrair a atenção da população mundial para o aumento no índice de câncer no mundo e também as ações de prevenção e combate à doença.

Tratamentos e efeitos colaterais
A ciência avança na cura de diferentes tipos de câncer, propiciando a sobrevivência a longo termo para diversos pacientes. De fato, tratamentos quimioterápicos e radioterápicos têm permitido taxas de sobrevivência de aproximadamente 80% entre crianças e adolescentes.
A meditação sobre os tratamentos e sobrevida deve incluir a qualidade de vida e, assim, a possibilidade do paciente se tornar pai ou mãe, acomodando-se aos desejos de fundar uma família, próprios da natureza humana. Dessa maneira, chama a atenção a questão da preservação da fertilidade, pois efeito colateral sabido dos tratamentos do câncer é a infertilidade.
Um estudo publicado há alguns anos pelo nosso grupo (Int Braz J Urol. 2009) constatou que 86,9% dos pacientes com câncer tinham preocupação com a fertilidade futura e a criopreservação de seu gametas os deixava mais confortáveis para enfrentar a doença e o tratamento.
Há esperança
Técnicas e estratégias para preservação da fertilidade vêm sendo estudadas e desenvolvidas, sendo que o método mais seguro e eficaz hoje é o congelamento de espermatozoides, óvulos ou embriões, anteriormente à terapia gonadotóxica.
criopreservação de espermatozoides é simples e pode ser feita imediatamente antes do início da terapêutica oncológica. No caso de óvulos e embriões, o congelamento requer estímulo medicamentoso dos ovários, procedimento que pode levar de três a seis semanas, o que nem sempre é possível. Quando possível, as estratégias incluem regimes de estímulo ovariano modificados para prevenir o potencial efeito deletério das altas concentrações hormonais.
Quando não é possível esperar o estímulo ou preservar os espermatozoides antes do tratamento, a alternativa é o congelamento do tecido ovariano ou testicular, técnica também adequada para preservação da fertilidade no delicado caso de crianças e pré-adolescentes. O tecido ovariano é uma fonte de gametas, que podem ser criopreservados e, após o final do tratamento oncológico, a paciente tem possibilidade de reestabelecer os ciclos reprodutivos.
O congelamento de pequenas partes do ovário humano é ainda um grande desafio da medicina, pela complexidade das células envolvidas. Porém, avanços nessa área e estudos têm permitido o desenvolvimento de diversas técnicas de preservação da fertilidade, trazendo a possibilidade de maternidade antes impensada.
Aproveitando a data e a atenção mundial, fica o alerta: pacientes com diagnóstico de câncer devem ser informados a respeito da possível perda da fertilidade e, principalmente, das opções para sua manutenção, esperança de paternidade futura que auxilia, sem dúvida, no tratamento da doença.