segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Como a oncologia de precisão promove avanços no tratamento do câncer

 Terapias genéticas inovadoras prometem um cenário cada vez mais otimista na luta contra tumores malignos, mas ainda estão longe de significar a cura da doença. Entenda

·         MARÍLIA MARASCIULO

30 ABR 2020 - 13H27 ATUALIZADO EM 30 ABR 2020 - 13H27

 

Se o corpo humano fosse um castelo em guerra contra a invasão e disseminação de células cancerígenas, os tradicionais métodos de combate — a quimioterapia, a radioterapia ou a cirurgia — seriam o equivalente a uma bazuca: até conseguem eliminá-las, mas podem provocar danos irreparáveis à estrutura do castelo. Como se não bastasse, é difícil saber exatamente por onde os invasores tentarão entrar para ganhar o controle do castelo — enquanto a mira está na porta, pode ter outra tropa prestes a entrar pela janela.

Mas, nos últimos anos, um novo campo de estudo da medicina começou a mudar este cenário. Na chamada oncologia de precisão, desenvolvida a partir dos anos 2000, saem as bazucas e entram os snipers. A ideia é saber exatamente quando, como e onde atacar o tumor para ter os melhores resultados com os menores efeitos colaterais. Uma das estratégias mais promissoras é a das terapias genéticas. Como o nome sugere, elas miram nas mutações genéticas das células defeituosas para eliminá-las.

Para entender como os novos tratamentos funcionam, é preciso compreender o que é e como surgem os tumores malignos, ou câncer, termo que engloba um conjunto de mais de 100 doenças causadas pelo crescimento desordenado das células. Em nosso corpo, existem 10 trilhões delas, e no DNA de cada uma existem instruções de como devem crescer e se multiplicar.

Às vezes, pequenas mutações podem alterar essas ordens — em geral, o sistema imunológico consegue identificar as falhas e eliminá-las antes que se espalhem. Mas isso nem sempre acontece: nossa imunidade tem mecanismos para evitar reações exageradas que podem ser prejudiciais ao organismo. E o câncer se aproveita justamente disso, seja se escondendo dessas defesas, seja usando táticas para enganá-las e inibir um ataque. Assim, as células defeituosas se proliferam e replicam as informações erradas, crescendo desenfreadamente e invadindo os tecidos e órgãos.

 

A primeira geração dessas novas estratégias de combate ao câncer são as terapias-alvo. Trata-se de um ataque às moléculas essenciais para o funcionamento das células cancerígenas, freando sua expansão. A ideia é antiga: o bacteriologista alemão Paul Ehrlich, vencedor do Prêmio Nobel de Medicina em 1908, já havia sugerido naquela época a possibilidade de desenvolver um remédio que combatesse os mecanismos específicos de doenças infecciosas. Mas foi só a partir de 2000 que tais remédios se tornaram realidade — não para infecções, e sim na luta contra contra o câncer.

 

A ideia é atacar células específicas de tumores específicos. Por exemplo: existem diferentes tipos de mutações para câncer de mama, e a terapia foca em uma delas. Portanto, não serve para todos os pacientes. Por serem extremamente precisos, têm taxa de resposta alta e menos efeitos colaterais. O problema é que o tratamento depende de um “match” perfeito, e nem todo tumor tem o alvo ou a mutação específica para as quais os medicamentos funcionam.

 

Atualmente, existem terapias-alvo disponíveis para câncer de pulmão, tireóide, rim, pele, melanoma, sarcoma, fígado, cólon, reto, ovário, mama e leucemias e linfomas. No entanto, elas costumam ser mais recomendadas somente para esses três últimos tipos de câncer.

Quando o corpo é o melhor remédio
Um passo à frente da terapia-alvo, a imunoterapia usa nossas próprias células de defesa contra o câncer. É mais um método que, embora tenha evoluído só nos últimos cinco anos, vem sendo testado há pelo menos 100 anos.

 

Tudo começou no século 19, com o cirurgião americano William Coley. Ao observar que uma vítima de câncer se curou após uma grave infecção, ele desenvolveu a teoria de que, se super ativado, nosso sistema imunológico seria capaz de acabar com um tumor. O cirurgião chegou a fazer experimentos infectando propositalmente pacientes com câncer, sem sucesso.

Os anos passaram e os cientistas descobriram que a teoria de Coley não estava incorreta. Os maiores responsáveis por provar isso foram os imunologistas James P Allison, dos Estados Unidos, e Tasuku Honjo, do Japão, que venceram o Prêmio Nobel de Medicina em 2018 pela descoberta. Eles mostraram que é possível, sim, estimular o sistema imunológico para combater as células cancerígenas: basta bloquear o mecanismo utilizado por elas para enganar nossas defesas. Ele consiste na liberação de proteínas que se encaixam em receptores dos linfócitos T — o “cérebro dinâmico” do sistema imunológico e o responsável por reconhecer a célula danificada e emitir a ordem para que outras células a destruam — e bloqueiam o sinal de alerta.

 

Os remédios imunoterápicos atuam impedindo a liberação dessas proteínas ou obstruindo os receptores dos linfócitos T. Sem serem enganados, eles comandam o ataque. Apesar de também provocar efeitos colaterais, o método é menos agressivo e mais eficaz que os tratamentos tradicionais.

Super-heróis feitos sob medida
Dentro da imunoterapia, um método ainda mais moderno e inovador tem sido desenvolvido. O tratamento com as chamadas células CAR-T consiste na modificação genética em laboratório dos linfócitos T para que desenvolvam um receptor capaz de identificar as células tumorais. “Eles se transformam em super-heróis direcionados para o câncer”, exemplifica o oncologista Bernardo Garicochea, membro do Comitê de Oncogenômica da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC). Os linfócitos são então reinseridos no corpo do paciente para realizarem a missão.

 

Parece coisa de ficção científica, mas o tratamento já foi aprovado nos Estados Unidos para casos raros de câncer de sangue (linfomas e leucemia) resistentes aos métodos tradicionais. No fim de 2019, foi testado pela primeira vez na América Latina por pesquisadores brasileiros.

 

Feito na modalidade de tratamento compassivo, que permite o uso de terapias não aprovadas no país em casos graves sem outras opções disponíveis, o teste ampliou a expectativa de sobrevida de um paciente que sofria com linfoma não Hodgkin. Além disso, reduziu os sintomas clínicos e a necessidade de remédios para dor. E o método desenvolvido por aqui custa bem menos que o oferecido nos Estados Unidos — R$ 150 mil, em vez dos US$ 400 mil (mais de R$ 2 milhões) necessários por lá.

Entusiasmo cauteloso
O alto custo não é o único desafio para esses novos tipos de terapias, nem o mais difícil de se contornar: no Brasil, por exemplo, fica levemente acima do valor de um transplante de medula óssea (R$ 110 mil é o repasse do SUS). Há também a expectativa de que os preços diminuam à medida em que os tratamentos se tornem disponíveis para mais gente.

 

A parte mais complicada é identificar as mutações ou particularidades que possam ser usadas como alvos, na visão de especialistas. “São muitos passos até desvendar o quebra-cabeça de um tumor”, diz o oncologista Ramon Andrade de Mello, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e consultor científico da Escola Europeia de Oncologia.

Mello é o responsável por uma pesquisa para sequenciar o código genético dos tumores de pacientes não fumantes com câncer de pulmão. “Nós queremos identificar quais os genes mais responsáveis pelo câncer e, a partir disso, desenvolver medicamentos que inibam esses genes”, explica de Mello, que acredita que a pesquisa deve durar dez anos. O desafio é que os tumores no pulmão de pessoas que não fumam são minoria: entre os 1,5 milhão de casos de câncer de pulmão diagnosticados a cada ano no mundo apenas 15% se dão entre não fumantes.

 

Na explicação de Garicochea, para identificar todos os possíveis alvos, seria necessário um atlas do genoma humano e dos tumores para compará-los, e entender o que está errado. Uma tentativa neste sentido foi divulgada em fevereiro deste ano, na revista Nature. Durante uma década, 1,3 mil pesquisadores do consórcio Pan-Cancer Analysis of Whole Genomes, mais conhecido como Pan-Cancer, analisaram 2,6 mil tumores de 38 tipos de câncer. Eles mapearam o genoma destes tumores e apontaram quais falhas no DNA levaram ao desenvolvimento da doença.

 

Entre as descobertas que mais chamaram a atenção são as diferenças entre o câncer de um paciente e outro, e a interrelação entre os diferentes genes. “Existe comunicação cruzada dentro do próprio tumor, a chamada cross-talk, então às vezes quando você descobre como consertar uma pecinha [do quebra-cabeça], o danado vem e desmancha outra para atrapalhar”, diz o oncologista da Unifesp.

 

Esses são alguns dos motivos pelos quais os cientistas são receosos em anunciar as terapias como potenciais curas para o câncer. “Elas não são a salvação da pátria, são mais um passo dessa caminhada, vão falhar em muitos pacientes, vão curar algumas vidas, nós vamos aprender a melhorá-las e aprender muitas coisas com elas”, diz Garicochea.

Mesmo assim, elas entusiasmam não só pelo potencial de tratamento, mas por também incentivarem avanço nas pesquisas que trazem descobertas importantes também para a prevenção. O especialista da Unifesp não esconde o otimismo: “estamos em uma nova era, o câncer está cada vez mais se tornando uma doença crônica quando bem abordado. Em 2040 talvez o câncer seja tratado como hoje é o diabetes.”

https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Saude/noticia/2020/04/como-oncologia-de-precisao-promove-avancos-no-tratamento-do-cancer.html

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Vacina contra câncer tem sucesso em testes com animais



Vacina obteve sucesso em testes pré-clínicos com animais. Pesquisadores da Austrália acreditam que proteção pode funcionar para diversos tipos da doença
Por Tamires Vitorio
Publicado em: 09/07/2020 às 17h06

Cientistas do Translational Research Institute e da Universidade de Queensland, ambos na Austrália, tiveram sucesso em um estudo pré-clínico de uma vacina contra o câncer. Segundo a líder da pesquisa, Kristen Radford, a expectativa é que a vacina possa ser usada para o tratamento de doenças sanguíneas, como a leucemia mielogênica aguda, bem como linfomas não Hodgkin, mieloma múltiplo, câncer de mama, renal, de ovários e de pâncreas.

A vacina foi feita com anticorpos humanos e proteínas dos tumores. Agora, o estudo busca pesquisar a capacidade de ela atingir as células humanas para ativar a memória das células. Um estudo pré-clínico acontece antes das fases 1, 2 e 3 de uma vacina e é realizado com animais para testar a toxicidade e os efeitos gerais de uma provável proteção. Os pesquisadores afirmam estar prontos para iniciar os testes em humanos.

O estudo foi publicado na prestigiada revista científica Clinical and Translational Immunology.


quarta-feira, 24 de junho de 2020

Covid-19 atrasou o tratamento de 43% dos pacientes com câncer Motivos vão de risco de contágio à priorização de pacientes, mas apenas aqueles com neoplasias hematológicas são considerados grupo de risco


Aline Chalet, do R7*
 24/06/2020 - 02h00


Doenças que afetam células sanguíneas, como leucemia, estão no grupo de risco

Cerca de 43% dos pacientes com câncer tiveram o tratamento impactado pela pandemia de covid-19, como cancelamento ou adiamento de procedimentos, segundo uma pesquisa online realizada pelo Instituto Oncoguia. Na região Norte, 63% dos participantes da pesquisa afirmaram ter tido impacto no tratamento. A região Sul foi a menos atingida, com 32% pacientes afetados.

A pesquisa foi realizada com 566 pacientes oncológicos e seus familiares, desses 429 estão em tratamento no momento.

Dos pacientes do SUS (Sistema Único de Saúde), 60% tiveram impacto no tratamento, contra 33% que utilizam serviço privado de saúde.

Entre esses 43%, os cancelamentos ou adiamentos de tratamentos ocorreram devido a decisões institucionais, ou seja, tomadas pelo hospital ou clínica. Os motivos fornecidos pelas instituições de saúde são: risco de contágio, priorização de pacientes, redução de equipe e impacto na infraestrutura.

Cerca de 12% dos pacientes tomaram a decisão por conta própria e 3% tomou a decisão em conjunto com o médico.

"O ideal seria a personalização dessa fase, ou seja, que médico e paciente determinassem juntos a melhor forma de continuar realizando o tratamento minimizando ao máximo os riscos em relação ao coronavírus", afirma Luciana Holtz, presidente do Instituto Oncoguia.

Dentre os pacientes que tiveram alterações em seus tratamentos após o início da quarentena, 34% fazem quimioterapia, 31% hormonioterapia, 9% radioterapia e 9% terapia-alvo.

Segundo o oncologista Rafael Kaliks, do Hospital Albert Einstein e diretor científico do Oncoguia, a conversa com o médico é fundamental para o tratamento oncológico não ser prejudicado. “Existem exames, consultas e até cirurgias que podem ser adiados por algum tempo, mas isso tem que ser uma decisão médica após a avaliação de cada caso individualmente.”

A pesquisa mostrou que 70% dos pacientes oncológicos se consideram grupo de risco para a covid-19.

Segundo Kaliks, dos pacientes com câncer, apenas os que apresentam neoplasias hematológicas (doenças que afetam as células sanguíneas como leucemias e linfomas), que passaram por transplante de medula óssea e que estão em tratamento com quimioterapia são considerados de grupo de risco.

Os pacientes que possuem outras doenças associadas como diabetes e doenças do coração também são do grupo de risco.

“Pacientes oncológicos que trataram um câncer e estão apenas em acompanhamento não são considerados imunodeprimidos e ex-pacientes oncológicos que estão sem evidência de câncer e que não estão em tratamento oncológico têm o risco aproximado de uma pessoa da mesma idade que não teve câncer."

Segundo dados da pesquisa, 52% dos pacientes sentiram impacto da pandemia de coronavírus na área emocional de suas vidas, 46% na área social, 33% na saúde e 32% na área financeira.

"A área emocional já é a mais afetada diante do câncer e curiosamente temos isso novamente diante da covid-19. Os pacientes estão sim muito mais frágeis e inseguros diante dessa doença que, além de tudo, também impede o contato, as relações e os abraços tão necessários para o enfrentamento do câncer", completa Luciana.

*Estagiária do R7 sob supervisão de Deborah Giannini
https://noticias.r7.com/saude/covid-19-atrasou-o-tratamento-de-43-dos-pacientes-com-cancer-24062020

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Pandemia de coronavírus provoca redução de até 90% de outros exames no Brasil


Estimativa é de que 50 mil pessoas deveriam ter sido diagnosticadas com câncer em um mês. Mas, com a falta de atendimento e a queda no número de biópsias, não descobriram a doença.
Por TV Globo
14/05/2020
Um levantamento das Sociedades Brasileiras de Cirurgia Oncológica e de Patologia mostram que, por causa da pandemia do novo coronavírus, houve redução de até 90% de exames que deveriam ser oferecidos em hospitais. Pacientes oncológicos, gestantes e doentes crônicos não estão sendo atendidos.
De 11 de março a 11 de maio de 2020, pelo menos 50 mil brasileiros deixaram de ser diagnosticados com câncer por falta de exames, segundo os órgãos. Nessas semanas, na cidade de São Paulo, foram feitas 5.940 biópsias na rede pública. No mesmo período do ano passado, foram 22.680.
A mesma redução é observada em um centro de referência em saúde do Ceará: o número de biópsias caiu de cerca de 18 mil, em 2019, para menos de 5 mil, em 2020.
Segundo Clovis Klock, médico da Sociedade Brasileira de Patologia, o diagnóstico tardio provocado pela redução do número de exames pode prejudicar não só a saúde do paciente, mas também a economia, já que tratamentos mais complexos e caros serão necessários futuramente.
Além da questão oncológica, consultas para gestantes estão sendo canceladas, por causa da pandemia. A dona de casa Karina Picoli teve o bebê há 5 meses - e, até agora, não conseguiu fazer o acompanhamento do pós-parto. "Tinha consulta agendada com ginecologista e clínico geral em abril, mas, quando estava próximo da consulta, ligaram e cancelaram", diz.
A secretaria municipal de saúde de São Paulo afirma que apenas as cirurgias eletivas devem ser desmarcadas. De acordo com o secretário Edson Aparecido, as unidades de saúde que não estão atendendo a população serão cobradas para que mantenham seus serviços.


segunda-feira, 6 de abril de 2020

Como os pacientes com câncer devem agir diante do coronavírus

A colaboração de todos é vital para preservar quem está no grupo de risco do coronavírus, caso dos pacientes oncológicos, e aliviar o sistema de saúde
Por Dra. Clarissa Mathias, oncologista*
access_time30 mar 2020, 17h40 - Publicado em 30 mar 2020, 12h35
Não saia de casa desnecessariamente. Evite multidões. Lave as mãos e punhos por mais de 30 segundos. Use álcool em gel. Cubra com o antebraço o nariz e a boca ao tossir ou espirrar. Se for extremamente necessário sair, não cumprimente as pessoas como de costume: nada de aperto de mão ou beijo no rosto. Mantenha distância das pessoas.
Com a rápida disseminação da Covid-19, doença relacionada ao coronavírus (Sars-CoV-2), todo mundo já decorou essas recomendações. Então, o que a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) pode acrescentar de relevante para a população?
Visto que os pacientes oncológicos costumam ter queda na imunidade devido à doença ou por causa dos tratamentos aos quais são submetidos (quimioterapia, radioterapia, uso de corticoides, entre outros), é indispensável manter o cuidado redobrado durante esse momento. Uma pessoa que contrair o coronavírus tem maior risco de sofrer complicações se estiver enfrentando um tumor.
Como parte do compromisso da SBOC em promover e ampliar o bem-estar dos pacientes com câncer, o ponto mais crucial a se destacar é que todos eles conversem com sua equipe médica sobre como prosseguir com o tratamento.
Em casos específicos, o número de atendimento presenciais pode ser reduzido. Uma consulta de seguimento (que serve para acompanhar a evolução da pessoa e do tratamento) pode ser reagendada. O mesmo vale para as consultas de hormonioterapia, voltadas para tumores de mama e próstata. Assim, o paciente circula menos, ficando menos suscetível à infecção pelo Sars-CoV-2.
O que deve ser mantido normalmente são as consultas para indivíduos em tratamento com quimioterapia. Já pacientes que estejam com quadro sintomático de coronavírus precisam de auxílio médico para definir a urgência do tratamento contra o câncer.
Fazendo um recorte, a maior probabilidade de complicações por Covid-19 é entre os portadores de cânceres no sangue (leucemias, linfomas e mieloma múltiplo) que passaram por transplante de medula óssea ou estão em tratamento com quimioterapia. Porém, adotando as medidas preventivas listadas abaixo, os riscos associados ao coronavírus diminuem significativamente.
Aos pacientes com câncer ou em acompanhamento:
·         Não interrompa seu tratamento oncológico
·         Caso haja suspeita de infecção, a consulta deve ser priorizada e o paciente, enquanto aguarda, precisa usar máscara cirúrgica e ficar em ambiente arejado
·         Se estiver na fase de seguimento, contate sua equipe médica para avaliar se é seguro adiar seus retornos para um período com menor disseminação do coronavírus
·         Evite contato com qualquer pessoa que tenha sintomas gripais, que esteja em investigação para possível infecção Covid-19, ou que tenha chegado do exterior (com ou sem sintomas gripais)
·         Se apresentar quadros como, febre, coriza, tosse seca, falta de ar, contate seu médico
·         Permaneça somente o tempo necessário em ambiente de clínicas e hospitais. Dentro do possível, evite contato físico direto, mesmo com o seu médico e a equipe de saúde
·         Só leve, no máximo, um acompanhante para um centro de tratamento oncológico. Essa pessoa não pode apresentar qualquer sintoma respiratório ou febre
·         Restrinja visitas hospitalares ao que for estritamente necessário

https://saude.abril.com.br/blog/cancer-em-pauta/pacientes-cancer-coronavirus/

Coronavirus: recomendações aos pacientes com câncer


INCA contra coronavírus
Instituto toma medidas duras, mas necessárias, para garantir a integridade de pacientes, familiares e servidores durante a pandemia

Publicado: 16/03/2020 | 16h24
Última modificação: 17/03/2020 | 16h31
A pessoa com câncer é mais propensa a desenvolver sintomas graves caso seja contaminada pelo novo coronavírus (Covid-19), classificado pela Organização Mundial da Saúde, como pandemia. Por isso, o INCA teve que tomar medidas duras, temporariamente, para reduzir a velocidade de propagação do vírus por meio da redução de circulação de pessoas em suas unidades.
Os pacientes internados com acompanhante não podem mais receber visita. Aqueles que não têm acompanhante poderão receber apenas uma visita por dia. Durante os atendimentos ambulatoriais, o paciente, mesmo o pediátrico, só poderá estar acompanhado de uma pessoa. Todas as consultas de controle dos ambulatórios dos próximos 30 dias serão desmarcadas e reagendadas futuramente. Nesse período, novas consultas não serão agendadas. As visitas a pacientes no CTI estão suspensas. Para impedir a concentração de pessoas, o horário de visita será restrito.
Os exames de imagem do radiodiagnóstico, assim como os exames laboratoriais de rotina e os exames eletivos da endoscopia digestiva, colonoscopia e broncoscopia serão cancelados e reagendados posteriormente.
O INCA recomenda que pessoas com mais de 60 anos, por comporem a faixa etária mais sujeita a apresentar sintomas graves causados pelo coronavírus,  e crianças evitem fazer visitas aos pacientes internados. Há ainda a forte recomendação para que os acompanhantes sejam adultos com menos de 60 anos que não apresentem sinais da doença (os mais comuns são febre, cansaço e tosse seca; mas há casos de dores no corpo, coriza, congestão nasal, dor de garganta, diarreia e dificuldade para respirar). A distribuição de tíquetes de almoço para acompanhantes do ambulatório foi suspensa para reduzir o fluxo de pessoas nos refeitórios.  Acompanhantes devem evitar ao  máximo possível os revezamentos.
Eventos internos do Instituto também estão suspensos por tempo indeterminado assim como os cursos presenciais de curta duração (atualização e aperfeiçoamento). Da mesma forma, as atividades de voluntariado dentro das unidades hospitalares serão restritas.
Preventivamente, é importante seguir as recomendações do Ministério da Saúde. As principais são: lavar as mãos com água e sabão, na sua ausência, usar álcool em gel; cobrir nariz e boca com lenço ao tossir ou espirrar – quem  não o tiver, deve usar o antebraço como barreira, e não as mãos, para evitar tocar em locais que possam contaminar outras pessoas; evitar aglomerações; manter os ambientes bem ventilados; e não compartilhar objetos pessoais.

Coronavírus, COVID-19 e câncer: o que sabemos até o momento?
Recomendação do Centro de Oncologia Lydia Wong Ling para os pacientes com câncer em tratamento no Hospital Moinhos de Vento
O mais recente coronavírus identificado, um beta-coronavírus do tipo RNA, causa a infecção chamada de Coronavírus Disease 2019, ou COVID-19. Na literatura médica, também pode-se encontrar a doença denominada de síndrome respiratória aguda do coronavírus 2, e o nome do vírus como SARS-CoV-2. Pessoas com hipertensão arterial sistêmica, diabete mélito, doença cardíaca, doença pulmonar, câncer e outras condições que causem diminuição da imunidade tem maior risco de desenvolver a forma mais grave da infecção.
Sintomas da COVID-19: o mais comum é ocorrer febre, cansaço e tosse seca; os sintomas geralmente são leves e iniciam gradualmente. Pode haver também dores no corpo, congestão nasal, nariz correndo, dor de garganta e diarreia. Na maioria dos casos (80%), há recuperação espontânea da pessoa infectada, sem necessidade de tratamento especial. Quando houver febre, tosse e dificuldade de respirar, o paciente deve procurar atendimento hospitalar; os demais casos não devem ser tratados no hospital, mas sim, mantidos em casa até recuperação.
Como a COVID-19 se espalha:
·         contato de pessoa a pessoa: por gotículas do nariz (espirros, nariz correndo) e boca (tosse, respiração com gotículas);
·         superfícies com as gotículas das pessoas infectadas (tocar e depois colocar a mão na boca, nos olhos ou no nariz).
Risco nos pacientes com câncer
Os pacientes com câncer em tratamento oncológico parecem ter maior risco de infecção grave, embora o número de casos de infecções nesses pacientes seja pequeno. A frequência de pacientes com câncer e COVID-19 varia de 0,9% a 1% na literatura. Recomenda-se que todos os pacientes oncológicos em tratamento tenham cuidado redobrado para não adquirir a infecção, evitando contato com pessoas com sintomas e com pessoas que tenham viajado para áreas com a epidemia, evitando viagens desnecessárias e também locais com aglomerações de pessoas. Atenção: os pacientes não devem interromper seu tratamento oncológico!
Como se proteger da infecção:
·         primeira e mais importante medida: LAVAR AS MÃOS frequentemente com água e sabão ou higienizar com álcool-gel – essas 2 medidas simples matam os vírus que estiverem em suas mãos;
·         manter pelo menos 1 metro de distância das pessoas, de uma forma geral (especialmente das que estiverem tossindo e espirrando, pois pode haver partículas virais nas gotículas provenientes da tosse e do espirro de pessoas infectadas);
·         evitar tocar nas mucosas dos olhos, do nariz e da boca (nossas mãos podem tocar em superfícies infectadas pelo vírus e levar as partículas virais para nossas mucosas; a partir daí, o vírus pode entrar no nosso organismo);
·         seguir uma adequada higiene respiratória: ao tossir e/ou espirrar, cobrir sua boca e nariz com seu braço ou antebraço (e não com suas mãos); após usar lenços de papel para limpar as secreções do nariz e da boca, colocá-los imediatamente no lixo;
·         ficar em casa se não estiver se sentindo bem, mesmo que os sintomas sejam leves, como dor de cabeça, febre baixa e nariz correndo (para não contaminar outras pessoas, caso você esteja com o vírus);
·         evitar viajar para ou frequentar locais onde há casos de COVID-19;
·         buscar informação em fontes confiáveis – não espalhar nem acreditar em notícias falsas (fake news).

Recomendações para os pacientes com câncer no Hospital Moinhos de Vento:
·         Não se recomenda adiar tratamentos oncológicos já em curso;
·         Quem já terminou o tratamento oncológico há mais de 1 mês deverá ter os mesmos cuidados que a população em geral, lembrando dos grupos de risco citados no texto acima;
·         Quem tem consulta de revisão de rotina agendada deve falar com sua equipe médica para avaliar se a consulta pode ser postergada.
No Hospital Moinhos de Vento, os serviços de quimioterapia e radioterapia estão considerando a necessidade de ajustes na sua rotina para maximizar a segurança dos pacientes, sempre discutindo caso a caso, à semelhança do que está ocorrendo em todo o hospital. Estamos trabalhando bem próximos ao Serviço de Controle de Infecção e recebendo informações atualizadas diariamente, sobre a repercussão do COVID-19 no nosso meio.


quarta-feira, 25 de março de 2020

Mapeamento do genoma do câncer pode abrir portas nas áreas de prevenção, diagnóstico e tratamento


Trata-se de um primeiro passo para, no futuro, transformar o câncer em uma doença crônica, controlável com medicação, analisa médico da Santa Casa
06/02/2020 - 15h47min
Camila Kosachenco

Anunciado como a maior análise do genoma do câncer feita até hoje, o Pan-Cancer Analysis of Whole Genomes (PCAWG) project, ou apenas Pan-Cancer, é visto por especialistas como um passo importante no desenvolvimento de novas terapias para um melhor controle da doença. Hoje, o câncer mata mais de 8 milhões de pessoa por ano em todo o mundo, conforme a Organização Mundial de Saúde (OMS), e a tendência é de que esses números se multipliquem nos próximos anos.

Para elucidar os segredos dessa doença, o Pan-Cancer reuniu 1,3 mil pesquisadores e analisou 2,6 mil tumores, totalizando 38 tipos de câncer ao longo de uma década. Com isso, conseguiu mapear o genoma dos tumores e apontar como falhas no DNA podem levar ao desenvolvimento da doença.

Maior estudo genético sobre câncer revela como os tumores se formam
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Como uma doença genética, o câncer cria uma espécie de "competição" no organismo, fazendo com que as células com algumas mutações se tornem mais aptas à sobrevivência do que as células normais. Assim, se proliferam mais e acabam crescendo.

— Essa foi a primeira vez que conseguiram mapear esses genes de maneira sistemática, usando a mesma metodologia. Mais: eles tentaram identificar as chamadas "driver mutations", que são mutações do DNA de genes específicos que levam o tumor a ter "vantagens" em relação às células normais do organismo. Simplificando: se o desenvolvimento do câncer estivesse ligado a várias chaves, essa estaria ligada e seria a alteração celular que daria vantagem de crescimento, por exemplo, para a evolução do câncer — explica o oncologista Rafael José Vargas Alves, do Grupo Oncoclínicas e do Hospital Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.

Mesmo que não tenha aplicação terapêutica concreta no curto prazo, as lições teóricas do artigo são numerosas: melhor conhecimento das mutações genéticas que provocam a multiplicação das células cancerígenas, similaridades às vezes surpreendentes entre diferentes tipos de câncer, ou variedade extrema de tumores de um indivíduo para outro.

  O conhecimento acumulado sobre a origem e evolução dos tumores pode permitir o desenvolvimento de novas ferramentas para detectar cânceres mais cedo, bem como terapias mais direcionadas, a fim de tratar os pacientes com mais eficácia — espera Lincoln Stein, um dos cientistas que lideraram o projeto, em uma declaração do Instituto de Ontário para Pesquisa do Câncer (Canadá).

Outro destaque do estudo é a grande variedade de genomas para tumores cancerígenos, explica à AFP outro cientista envolvido no projeto, Peter Campbell, do Instituto Wellcome Sanger.

— A descoberta mais impressionante é a diferença que pode haver entre o câncer de um paciente e o de outro — afirmou.

Isso se deve ao grande número de possíveis mutações genéticas para cada tumor, que às vezes podem depender de fatores ligados ao estilo de vida do paciente, como o tabagismo.

— Uma só mutação, às vezes, não é suficiente para desencadear o câncer, pois ela se inter-relaciona com diferentes genes, e o estudo mostrou melhor essa relação. Esses genes se manifestam de acordo com o comportamento: quem tem mutação em determinado gene tem maior probabilidade de ter a doença, porém há fatores conhecidos e desconhecidos que fazem o gatilho ser acionado — justifica Vargas.

Diagnóstico precoce
Outro ponto em destaque do artigo é o fato de que o processo de desenvolvimento de certos tipos de câncer pode começar anos antes do diagnóstico, às vezes até na infância.

— Isso mostra que a janela para intervenção precoce é muito maior do que pensávamos —  disse Campbell.

De acordo com Vargas, até o momento, se tinha apenas uma compreensão empírica desse processo.

— Hoje, por exemplo, para que uma pessoa fumante seja considerada livre do risco de câncer de pulmão ela precisa ficar abstinente por 15 anos. Isso porque algumas mutações induzidas pelo tabaco podem vir a se manifestar muito tempo depois, como um câncer — acrescenta o médico, que também é professor da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).

Cronificação
Ao conhecer com mais profundidade os tumores e seu processo de desenvolvimento, abrem-se portas para a criação de tratamentos mais precisos e assertivos. É o que os especialistas chamam de medicina personalizada. Carlos Eugênio Escovar, chefe do serviço de Oncologia e diretor médico do Hospital Santa Rita, unidade de câncer da Santa Casa, lembra que, atualmente, um paciente com diagnóstico da doença passa, geralmente, pela quimioterapia. A grande questão é que o tratamento atua sobre diversas células, as boas e as ruins.