quinta-feira, 30 de junho de 2016

Diagnóstico preciso para tratamento caro: biópsia líquida chega ao país

Novidade muda combate ao câncer, mas preços restringem acesso a terapias
POR ANA LUCIA AZEVEDO
20/06/2016 4:30
Células de tumor de câncer no pulmão: estratégia como opção para casos em que não há tratamento disponível - Latinstock

RIO - Começa a chegar ao Brasil um tipo de exame que promete melhorar o tratamento do câncer. Acena com mais eficácia e menos sofrimento. A chamada biópsia líquida é simples e indolor. Basta uma coleta de sangue convencional. Diferente é a análise molecular sofisticada, capaz de identificar fragmentos de DNA de tumores na corrente sanguínea e indicar sua presença antes mesmo destes se tornarem visíveis em análises convencionais, numa fase em que podem ser bloqueados.

A novidade livra pacientes de procedimentos mais caros e invasivos, as biópsias tradicionais, que demandam internação, participação de vários profissionais e têm riscos. Porém, a biópsia líquida é indicadora de terapias caras, inacessíveis para a esmagadora maioria das pessoas com câncer. O exame informa ao médico que droga pode combater determinada mutação genética ligada ao câncer do paciente. São drogas chamadas de terapias-alvo. Têm menos efeitos colaterais justamente porque são específicas.

A biópsia líquida não substitui a biópsia convencional para o diagnóstico inicial do câncer, explica o geneticista Mariano Zalis, diretor técnico da Progenética e pioneiro na técnica no Brasil. Sua aplicação hoje é no acompanhamento do tratamento e no controle do tumor.

Nas palavras do oncologista clínico Carlos Gil, a biópsia líquida é uma potencial revolução tecnológica, com desdobramentos da terapia quase inexplorados.

— Muda a perspectiva de melhora e sobrevida do paciente. E estamos só no início. Todavia, também é uma caixa de Pandora. O custo do exame em si nem é o ponto principal. A grande questão é que, ao revelar mutações, leva o médico à indicação de drogas específicas, muitas ainda experimentais. Esses remédios são impossíveis de pagar — comenta Gil, coordenador do grupo Neotórax e diretor institucional da Oncologia D’Or.

— O Brasil, como os outros países, terá que entrar na discussão. Buscar saídas. Ou teremos um sistema de castas na saúde, em que o câncer será tratável somente para os ricos. Só quem tiver muito dinheiro viverá mais e melhor. Condição financeira não pode ser critério de sobrevida. É um cenário assustador que precisa ser debatido agora.

O médico já viu alguns de seus pacientes se defrontarem com essa situação. Gil é um dos maiores especialistas do país em câncer de pulmão, justamente o único tipo de tumor para o qual a biópsia líquida está disponível no Brasil (existe a expectativa de chegar, em breve, o mesmo exame para outros tumores, como melanoma e cólon).

Como funciona a biópsia líquida, que chega ao Brasil - Editoria de arte/O Globo

Drogas custam milhares de reais
Um desses pacientes é uma profissional liberal de 42 anos, mãe de filhos pequenos. Ela respondeu bem ao tratamento inicial. Porém, após alguns meses, o tumor começou a apresentar resistência e voltou a crescer. Por a mulher nunca ter fumado, o médico supôs que ela poderia ter uma forma de câncer associada a uma mutação chamada T79M. Essa mutação é agressiva, mas responde bem ao tratamento com uma droga nova, uma terapia-alvo.

Inicialmente, Gil a encaminhou para uma biópsia convencional. A mulher se submeteu à internação e à anestesia para a retirada de mais uma amostra do tumor. O exame, no entanto, não encontrou alterações.

— A paciente ficou desesperada. Ela já havia se submetido a um processo sofrido de biópsia, teve complicações e estava com medo da quimioterapia. Porém, na mesma época a biópsia líquida chegou ao Brasil. E esse exame identificou e analisou fragmentos realmente ínfimos de DNA do tumor. Tivemos sorte, o resultado foi positivo — conta o médico. — Esse caso foi particularmente feliz porque houve tempo de incluir a paciente num programa de doação do medicamento pelo laboratório. E só isso viabilizou o tratamento, pois ela não teria condições de pagar. Essas drogas custam milhares de reais por mês e muitas vezes nem chegam ao Brasil.

Outro paciente, um homem de meia-idade, também se beneficiou do mesmo exame. E do tratamento.

— Mas esse caso é diferente. Além de não haver tanto tempo para esperar, se trata de uma família com condições de pagar R$ 75 mil por mês por caixa de remédio. Por tempo indeterminado. Quase ninguém, ninguém mesmo, tem condições de fazer isso. Para mim, como médico, é muito difícil. Por um lado, tenho recursos novos e promissores. Mas corro o risco de dizer a uma pessoa com câncer que o caso dela teria remédio, mas não há dinheiro para pagar porque custa uma fortuna — destaca o médico.

Ele frisa que está mais do que na hora de pensar em meios de democratizar e viabilizar o uso não apenas dessa classe de drogas, mas de outros tratamentos que surgem no horizonte, como as imunoterapias, também extremamente caras.

— Acho que há excessos nos preços, mas não é só isso. Há sempre uma nova droga. Então, é preciso não apenas da negociação de casos isolados, mas de uma política de saúde que reduza os custos e viabilize o acesso. A China tem experiências interessantes nesse sentido. Só recorrer à Justiça para obrigar o SUS ou os planos a pagarem não funciona, porque resolve casos isolados, mas não o problema. Precisamos buscar nosso caminho — afirma Gil.

Fusão de várias técnicas
A biópsia líquida é resultado de décadas de pesquisa sobre a genética do câncer. Ela é uma fusão de técnicas que identificam pedaços muito pequenos de DNA em circulação no sangue. A elas se soma o conhecimento de um número progressivamente maior de mutações associadas a tumores.

— Cada pessoa tem uma forma própria de câncer. Nenhum tumor é igual. A biópsia líquida é capaz de perscrutar essas especificidades. Ela é o avanço mais recente da chamada medicina personalizada. Estudos nos EUA já identificaram mais de 50 tipos de tumores que podem ser analisados dessa forma — explica Mariano Zalis.

A técnica começou a ser usada nos EUA há cerca de um ano e na Europa há seis meses. Hoje, o exame custa, no Rio, cerca de R$ 900 — uma biópsia convencional de pulmão pode chegar a R$ 15 mil, mas tem cobertura. A líquida não é ainda coberta por planos de saúde.

— Essa biópsia é um avanço muito importante, era um sonho antigo dos médicos, um instrumento valioso de acompanhamento. Mas e agora? A tecnologia continua a avançar, mas não as políticas de saúde. O abismo entre a medicina de ponta e o acesso da população a esta aumenta em escala logarítmica. O SUS hoje está cerca de dez anos atrasado em relação ao que existe de moderno no tratamento do câncer. Se nada for feito, esse atraso só vai piorar — alerta Carlos Gil.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

"Renasci", diz Sabrina Parlatore após vencer o câncer de mama

Paulo Pacheco
Do UOL, em São Paulo 21/06/201617h14


Sabrina Parlatore durante viagem nos Estados Unidos, em abril deste ano

O telefone de Sabrina Parlatore não parou de tocar nesta terça (21), após ter revelado no programa "Morning Show", da rádio Jovem Pan, que retirou um câncer de mama. A apresentadora optou por contar publicamente depois de terminar o tratamento e esperava a repercussão pelo assunto estar em evidência por causa de Edson Celulari, que anunciou um linfoma não-hodgkin na última segunda.

"Eu até imaginava [o tamanho da repercussão] pela importância do assunto, e essa minha entrevista estava agendada havia muito tempo. Edgard já sabia, é meu amigo. Fiquei feliz de falar isso pela primeira vez em público para um amigo tão sensível como ele", comemora Sabrina Parlatore ao UOL.

Aos 41 anos, Sabrina realiza exames regularmente, porém descobriu o câncer "sem querer", em maio de 2015: "Estava coçando meu colo e senti um caroço que me chamou a atenção". Após a biópsia, veio a confirmação de um tumor maligno no seio esquerdo.

Sabrina revelou que teve câncer em entrevista ao programa "Morning Show"

"É um baque, um susto danado, principalmente por não saber o que é, em que estágio está, mas o médico me tranquilizou", conta a apresentadora, que não tem casos na família. Sabrina submeteu-se a uma cirurgia para retirar o tumor e rapidamente voltou para casa, e em seguida fez quimioterapia preventiva para não sobrar resquícios do câncer.

"Foi o período mais difícil de todos, porque os efeitos colaterais são muito, muito fortes", relembra Sabrina, que se assustou quando soube que teria de fazer quimioterapia: "Fui procurar saber sobre perucas, porque a droga para a mama derruba todos os pelos do corpo".

Dias antes de começar o tratamento, Sabrina foi apresentada a um novo aparelho, recém-aprovado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que "congela" a cabeça e impede que a química penetre no couro cabeludo. "Dói muito, mas me ajudou psicologicamente", recorda. Ela perdeu 30% dos fios.

Fora da TV, Sabrina trabalha como mestre de cerimônias em eventos corporativos e cantora em bares e empresas. Ela manteve a rotina e cancelou trabalhos apenas no fim do tratamento, porque se sentia "esgotada" pelo tratamento. Em janeiro deste ano, após seis meses, concluiu a químio e realizou 33 sessões de radioterapia.


Em 15 de março, Sabrina concluiu definitivamente o tratamento contra o câncer, uma data especial para ela: "Simboliza voltar a vida, renascer, porque a gente se sente 'morto'. Brinco que 'dei uma morridinha e voltei', porque a químio arrasa com o corpo. Eu me sinto renovada, renascida, com uma sensação de que o melhor está por vir. Estou positiva, otimista. Venci uma p... de uma batalha. Sou f...!".

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Edson Celulari é diagnosticado com câncer: "Foi um susto, mas estou bem"

Do UOL, em São Paulo
20/06/2016
  • Reprodução/Instagram/claudiarreal


Edson Celulari com a filha, Sophia, em foto postada por Claudia Raia

Aos 58 anos, Edson Celulari foi diagnosticado com um linfoma não-Hodgkin, tipo de câncer que afeta o sistema linfático. 

"Reuni minhas forças, meus santos, um punhado de coragem...Coloquei tudo numa sacola e estou indo cuidar de um linfoma não- Hodgkin. Foi um susto, mas estou bem, ao lado de pessoas amadas. A equipe médica é competente e experiente. Estou confiante, pensando positivo e com fé sairei deste tratamento ainda mais forte. Todo carinho será bem-vindo. Obrigado. #VidaQueSegue", escreveu em seu Instagram. 

Em nota enviada pela assessoria de comunicação da Globo, o ator mantém a atitude positiva em relação ao tratamento: "Vida que segue. Estou organizando a rotina, sem nenhuma reação significativa por conta do tratamento. Tenho certeza que vou sair dessa mais forte e com cabelos encaracolados". 

Celulari, reservado para a novela "À Flor da Pele", escrita por Gloria Perez para o horário nobre em 2017, está longe da TV desde o fim de "Alto Astral", em 2015. Em abril, ele terminou de rodar um filme, "Teu Mundo Não Cabe nos Meus Olhos", de Paulo Nascimento. Ele tem dois filhos, Enzo e Sophia, frutos de seu casamento com Cláudia Raia. Atualmente, ele namora a atriz Karen Roepke.

No Instagram, Raia postou uma foto da filha Sophia dando um beijo no pai. "Amor dos filhos, isso cura", escreveu a atriz na rede social.

O linfoma não-Hodgkin é o mesmo com o qual o ator Reynaldo Gianecchini foi diagnosticado em 2011. Esse tipo de câncer também acometeu a presidente afastada Dilma Roussef e o governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão.

De acordo com o Inca (Instituto Nacional do Câncer), existem dois tipos de linfomas: o Hodking e o não-Hodking. Mas cada categoria abrange inúmeros outros subtipos mais específicos e com comportamentos biológicos e prognósticos diferentes. São mais de 40 variações.


Dado o diagnóstico, a doença pode ser tratada com quimioterapia, radioterapia ou ambas. Em certos casos, os médicos podem indicar também a imunoterapia.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

A forma como células do câncer se espalham é mais assustadora do que se pensava


Por: Jennifer Ouellette
19 de abril de 2016 às 10:58

As células do câncer têm uma maneira aterrorizante e engenhosa de passar até mesmo através dos menores vasos sanguíneos e se espalhar por todo o corpo humano, de acordo com um novo estudo realizado por pesquisadores do Massachusetts General Hospital (MGH). Descobrir como impedi-las de fazer isso pode ajudar a conter esta doença mortal.

O câncer se espalha por todo o corpo – em um processo conhecido como metástase – quando determinadas células se rompem do tumor primário e entram na corrente sanguínea. A metástase está associada à maior parte (90%) das mortes relacionadas ao câncer.
Cientistas achavam que os aglomerados dessas células eram grandes demais para passar através de vasos capilares ultrafinos. Os pesquisadores do MGH descobriram que este não é o caso.
Esta é a parte aterrorizante: os aglomerados podem se reorganizar no formato de um fio, como esferas encadeadas, quando se deparam com um gargalo. Depois de passarem por vasos finos, as células simplesmente retomam o formato de aglomerado. A equipe publicou as descobertas no Proceedings of the National Academy of Sciences.

“Esta informação muda a narrativa padrão de como a metástase [começa], e nos permite desenvolver formas melhores de combatê-la”, diz o autor Sam Au em um comunicado.

De acordo com Au, este comportamento estranho parece estar ligado à interação entre as células de câncer no aglomerado. Células interagem umas com as outras o tempo todo; neste caso, as ligações são tão fortes que o aglomerado pode facilmente se reconfigurar, sem danificar as células individuais ou impedi-las de se proliferar no futuro.
Separando os aglomerados
Os cientistas já suspeitavam que os aglomerados de “células tumorais circulantes” (CTCs) têm papel fundamental na propagação do câncer. Por exemplo, estudos anteriores mostraram a presença de aglomerados bem grandes nas veias dos braços de pacientes falecidos, longe do local do tumor original.
Isso significa que os aglomerados devem ter passado até mesmo pelos menores vasos sanguíneos, conhecidos como capilares. Mas os cientistas não tinham ideia de como os aglomerados – muito maiores do que esses vasos – conseguiam esse feito.
O motivo: essas células são muito raras, e é extremamente difícil separá-las dos bilhões de outras células flutuando na corrente sanguínea. É o velho problema da agulha no palheiro, dificultando estudá-las de perto.
Para separar os aglomerados, a equipe do MGH contou com avanços recentes na microfluídica, área da ciência que lida com o comportamento de fluidos em canais microscópicos. Ela permite criar “laboratórios em um chip” que podem processar rapidamente grandes volumes de sangue.
Com estes chips microfluídicos, é possível identificar aglomerados de câncer através de um processo chamado de “esgotamento negativo”. Você remove sucessivamente 999 bilhões de células, depois 999 milhões de células, depois 999 mil células, e assim por diante, até chegar ao um punhado de células tumorais.
Estudo
No ano passado, o coautor Mehmet Toner usou um chip desses para determinar que os aglomerados eram mais comuns na corrente sanguínea do que se acreditava anteriormente.
Para o estudo mais recente, a equipe usou duas abordagens. Primeiro, eles gravaram canais no chip que se afunilam em pontos-chave, formando gargalos mais ou menos com a mesma largura de vasos capilares. Em seguida, eles filmaram o movimento dos aglomerados de CTC dentro desses canais:
Em segundo lugar, a equipe do hospital injetou aglomerados de células humanas de câncer nos vasos sanguíneos de peixes-zebra embrionários. Eles foram escolhidos porque seus vasos transparentes facilitam a obtenção de imagens, e também porque têm vasos aproximadamente do mesmo tamanho de capilares humanos.
Em ambos os casos, os aglomerados simplesmente se desdobraram em uma cadeia longa para passar através do gargalo, e depois se reorganizaram em um aglomerado de novo. Isto acontecia mesmo com grandes grupos com mais de 20 CTCs.
A boa notícia: isto fornece uma pista para possivelmente limitar a sua propagação. “Se nós pudermos mudar essa força entre as células, seja quebrando aglomerados ou impedindo-os de se desdobrar, poderíamos controlar a sua capacidade de passar por vasos estreitos”, diz Au.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

'É preciso aprender a falar sobre câncer', diz criador de ONG que ajuda pacientes

 (...) Depoimento a 
MICHELLE HEYMANN 
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM TEL AVIV
Benjamin Corn, 55, moldou sua vida ao redor do câncer depois que o pai foi vítima da doença quando ele tinha 11 anos. Decidiu ser oncologista e criou a ONG Life's Door para ajudar pacientes com câncer e seus familiares.
Quando eu tinha 11 anos, minha vida mudou. Meu pai morreu de câncer de próstata e foi muito traumático para mim. Era a década de 70 e meus pais esconderam a doença. Diziam que ele estava em viagens de trabalho toda vez que ia ao hospital.
Ele ficou doente por cerca de dois anos. Mais ou menos uma semana antes do fim, eles perceberam que a morte estava próxima e sabiam que tinham que contar para mim e meus irmãos.
Meu pai sempre foi um homem atlético, mas quando o vi no hospital, estava desfigurado. Seus braços e pernas pareciam palitos frágeis, porque ele perdeu muito peso.
Recebemos a notícia durante o Pessach, a páscoa judaica. O telefone começou a tocar sem parar no meio do jantar e já sabíamos que era o hospital ligando para falar que meu pai morrera.
Minha mãe atendeu e lhe disseram: "Senhora Corn, seu marido faleceu, podemos fazer a necropsia?". Foi tudo o que falaram. Só queriam saber se podiam remover os órgãos para os patologistas analisarem. Foi extremamente traumático. Eu me senti abandonado.
Não sabíamos o que fazer. Meu pai teve um tratamento excelente no Hospital Memorial Sloan, mas lá ninguém sabia como se relacionar com ele emocionalmente.
Ninguém sabia o que fazer, porque não se falava de câncer. Até hoje não se fala muito de câncer. Vivemos em uma sociedade onde não se fala de doenças. Nos filmes e novelas, todos são saudáveis e criamos uma expectativa de que precisamos ser assim. É um tabu na nossa sociedade.
Então, aos 11 anos, pensei: isso precisa ser consertado. Eu achava que o problema era só o câncer. Então, decidi virar um médico especialista em câncer de próstata.
Fui para a faculdade de medicina da Universidade de Boston, fiz residência na Universidade da Pensilvânia e fui treinado para ser um oncologista. Comecei a publicar e fazer pesquisas na área. Até que percebi que o problema não era o câncer, mas as pessoas. O que me interessava era por que os pacientes eram tratados com frieza e distância.
Temos que moldar nosso discurso para a nossa audiência. Não se deve falar com um paciente como se fala com outros médicos. Mas a maioria dos médicos não entende a necessidade dessa adaptação de discurso. Precisamos ajustar o tom, as palavras que usamos. E é preciso escutar.
Ninguém quer estar no departamento de oncologia. Mas estão aqui. E estão assustados. Então temos que ajudar. No hospital, mantemos um ambiente aconchegante e temos que ser sensíveis. O paciente precisa saber que temos o conhecimento de como tratá-lo, mas precisa também saber que nos preocupamos com ele, porque ele tem medo. Medo de morrer, da dor e de ser abandonado.
Eu acho que o modo de solucionar o medo dos pacientes é criando esperança. Quando eu digo esperança, não é para a cura. É para ajuda-los a superar seus medos, pensando em como atingir metas que eles criaram para a vida.
Eu até diria que a esperança é uma emoção muito mais humana que o amor. O amor dá para encontrar no mundo animal, ao ver como eles se relacionam. A esperança requer que pensemos sobre o futuro. E só humanos conseguem pensar adiante, planejar o futuro.
Logo depois que viemos para Israel, eu e minha mulher, Dvora, -que é terapeuta familiar- criamos o Life's Door. O objetivo da ONG é discutir com todos do círculo social do paciente como acrescentar significado à vida deles e à dos doentes.
Se as pessoas fossem treinadas para conversar em 1972, a primeira coisa que teriam me ensinado seria que não há motivo para a vergonha, porque eu não fiz nada de errado. Mas eu era envergonhado e fechado. Eu fazia de conta que nada tinha acontecido, meus amigos faziam de conta que nada tinha acontecido, e não falávamos sobre isso. O maior problema ainda é que ficamos desconfortáveis com essa notícia e não se fala sobre câncer.


sexta-feira, 15 de abril de 2016

Curandeirismo agora é lei

Na postagem anterior havíamos falado que iríamos colocar um ponto final nessa história da "pílula do câncer", Contudo, como foi sancionada uma lei sobre o assunto resolvemos voltar ao tema.

Para cientistas, decisão de Dilma de liberar 'pílula do câncer' foi política
Sanção que autoriza substância dias antes de votação do impeachment é 'populista', dizem
POR O GLOBO

RIO - Horas depois de sua publicação no Diário Oficial da União, cientistas já criticam a lei sancionada pela presidente Dilma Rousseff que libera a fabricação, a distribuição e o uso da fosfoetanolamina sintética, a chamada "pílula do câncer". A substância nunca passou por testes em seres humanos e nem pelo crivo da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), órgão do Ministério da Saúde encarregado de avaliar e aprovar (ou não) o uso de medicamentos no país.

Na opinião do médico Carlos Gil, pesquisador do Instituto D'Or e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, Dilma tomou a decisão de sancionar a lei às vésperas da votação sobre o seu processo de impeachment, neste domingo, para angariar apoio do Congresso, que havia aprovado o projeto de lei, e de parte da população que acredita na eficácia da substância.

- Foi um momento delicado para tomar essa decisão. Chama a atenção essa medida dias antes da votação no Congresso. Não tem como não pensar que foi uma decisão política, populista - criticou o oncologista. - Como médico e pesquisador, só tenho a lamentar. Mais uma decisão que fere o fluxo científico e regulatório padrão no mundo para a aprovação de medicamentos. Continuo apoiando os estudos em curso no Brasil sobre a fosfoetanolamina, que poderão, de forma legítima, demonstrar ou não se a substância pode se tornar um medicamento anticâncer.

A sanção da lei 13.269, de 13 de abril, foi publicada no Diário Oficial da União desta quinta-feira. Segundo o texto, "a lei autoriza o uso da substância fosfoetanolamina sintética por pacientes diagnosticados com neoplasia maligna", ficando claro que os pacientes que optarem por usar a pílula deverão apresentar laudo médico comprovando o diagnóstico de tumor maligno, assim como um termo de consentimento e responsabilidade assinado pelo próprio enfermo ou por um "representante legal".

Já na época da aprovação do projeto de lei pelo Congresso, no mês passado, cientistas e órgãos de saúde do governo foram unânimes em criticar o texto, que libera o uso de uma substância que nunca passou pelos testes adequados, em laboratório, animais e humanos, para avaliar sua eficácia.

Na opinião do neurocientista e especialista em células-tronco da UFRJ e do Instituto D'Or Stevens Rehen, um dos pesquisadores mais respeitados do Brasil, líder do estudo brasileiro de maior repercussão dos últimos anos, sobre zika, publicado esta semana na revista "Science", a votação do processo de impeachment também influenciou na decisão a presidente Dilma.

- Foi uma decisão totalmente política, que ignorou a medicina e a ciência e a segurança dos pacientes. Autorizar uma substância cuja segurança e eficácia não têm qualquer comprovação científica e ir contra o parecer da Anvisa não é o que se espera da Presidência do Brasil. É uma mensagem muito ruim para a sociedade brasileira, uma irresponsabilidade. Você entende que um paciente desesperado tome qualquer coisa. É totalmente diferente que o governo faça isso em vez de proteger a saúde da sociedade. Não é o que se esperava de um país como o Brasil. Lembra o caso do presidente sul-africano que negava que o HIV causasse Aids - condenou o cientista.
© 1996 - 2016. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.  pesquisador  sem ética da USP. Contudo foi sancionada uma lei sobre 

sábado, 2 de abril de 2016

Pílula do Câncer


Vida com Câncer está colocando um ponto final sobre esta "pílula do câncer" criada por um pesquisador  sem ética da USP. Quem conhece um pouco de câncer sabe que é impossível um único remédio contra a doença, porque ela se manifesta de muitas formas. Assim, vamos publicar estes dois artigos sobre o assunto e não ficar mais perdendo tempo com indivíduos que tentam enganar ou dar falsas esperanças à pessoas doentes de uma terrível doença. Isso é um atentado contra a dignidade dos doentes e seus parentes.

Sociedades médicas rejeitam pílula do câncer como suplemento: 'é camuflar'

16

Lucas Rodrigues*
Do UOL, em São Paulo
02/04/201606h00

Após a afirmação do ministro de Ciência e Tecnologia, Celso Pansera, de que iria sugerir que a fosfoetalonamina, mais conhecida como pílula do câncer, fosse legalizada como suplemento alimentar, sociedades médicas criticaram a solução que, na visão delas, seria uma forma de "camuflar" a substância, que acabaria sendo usada como medicamento por pacientes.
"Compreendo que o ministro e o próprio legislativo estejam sofrendo uma pressão muito grande, mas liberar um remédio como suplemento alimentar é uma forma de tentar passar ao largo de toda a experimentação científica a que essa substância tem de se submeter", diz Mauro Gomes Aranha de Lima, presidente do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo).
Ainda não foram feitos testes em humanos para saber se a fosfoetalonamina sintética é eficiente no combate ao câncer, o que impede seu registro como medicamento pela Anvisa. Os primeiros resultados de pesquisas encomendadas pelo MCTI, ainda em laboratório, apontaram que a molécula não tem efeito no tratamento.
"A fosfoetalonamina sintética não passou por fases de pesquisa que são necessárias para que se tenha uma grande possibilidade de determinar a eficácia da substância e ao mesmo tempo dar segurança ao paciente, em termos dos efeitos colaterais", avalia o presidente do Cremesp.
Como a fosfoetalonamina sintética em pequenas doses não é uma substância tóxica, a aprovação dela como suplemento alimentar pela Anvisa seria mais fácil --já que não precisa provar efeitos medicinais. Assim, bastaria um laboratório pedir o registro para a agência nacional, que avaliaria apenas se ela é prejudicial à saúde. 
"Vai sair no rótulo como suplemento. Mas vão utilizar como um? Acredito que não. Liberar a substância dessa maneira é liberar o medicamento", analisa Gustavo Fernandes, presidente da SBOC (Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica).
Se aprovada como suplemento, a pílula poderia ser vendida sem prescrição médica em estabelecimentos como os que vendem a famosa Whey Protein. No rótulo do suplemento, é proibida qualquer expressão que se refira ao uso para prevenir, aliviar ou tratar uma enfermidade. 
O pesquisador Marcos Vinícius de Almeida, um dos detentores da patente da fosfoetanolamina sintética, já havia comentado a possibilidade da substância ser aprovada como suplemento. 

Entidades pressionam veto à pílula do câncer

Apesar de resultados que apontam para a baixa eficiência da pílula, o Congresso aprovou no dia 22 um projeto de lei que permite o uso da substância mesmo sem registro da Anvisa por pacientes de câncer que queiram testá-lo. Dilma deve decidir se sanciona ou veta o projeto ainda na primeira quinzena de abril.
"O Senado foi populista. Liberou a substância contra todos os pareceres técnicos e todos os órgãos oficiais", analisa o presidente da SBOC.
A preocupação dos médicos é de que pacientes deixem o tratamento formal para usar a substância.
Onze entidades e pacientes enviaram na última segunda (28) um ofício à presidente Dilma Rousseff pedindo o veto ao projeto de lei. O documento é assinado pela ONG Oncoguia, pela Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama, pelo Hospital Albert Einstein e pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, entre outras
"É decepcionante este esforço político para aprovar algo que não tem segurança, regulamentação, nada comprovado, só estudos feitos em ratinhos. Queremos que os estudos clínicos comecem porque todos temos esperança que a fosfoetanolamina mude a vida das pessoas, mas antes temos que ter dados científicos que comprovem, senão todas as nossas brigas serão jogadas por água baixo", afirma Luciana Holtz, presidente da ONG Instituto Oncoguia.

MCTI quer evitar venda ilegal do produto

Em resposta às críticas da proposta de liberar a fosfoetanolamina como suplemento alimentar, o ministro da Ciência e Tecnologia, Celso Pansera, afirmou que essa seria uma forma de evitar a venda ilegal do produto --que acontece atualmente.
"Nós só queremos que isso chegue às prateleiras das lojas, seja legalizado, com certificado de origem e orientações de uso. Isso não substitui os tratamentos já comprovados para o câncer, nem a orientação do médico", disse.
Para ele, a comunidade científica "precisa ver que pessoas estão consumindo o produto há mais de vinte anos, sem nenhuma segurança de higiene e do que está dentro das cápsulas".
O ministro, contudo, não respondeu quem será responsável pela regularização como suplemento alimentar tampouco se a proposta seria enviada à presidente como indicação de veto ao projeto de lei.
A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), responsável pela regulação de medicamentos e suplementos alimentares, também foi procurada, mas não se manifestou sobre o caso até o fechamento desta reportagem.
* Com Camila Neuman


USP denuncia criador da 'pílula do câncer' por curandeirismo

ESTADão Rene Moreira
Em Franca
31/03/201619h15
Gilberto Chierice, pesquisador que desenvolveu a fosfoetanolamina sintética, a chamada "pílula do câncer", prestou depoimento nessa quarta-feira, 30, na Polícia Civil. Ele foi denunciado pela Procuradoria da USP (Universidade de São Paulo) por curandeirismo. Chierice teria prescrito, ministrado ou aplicado a substância para a cura de doenças.
Ele foi citado ainda por crime contra a saúde pública e compareceu à delegacia de São Carlos (SP) acompanhado de dois advogados. A substância vem sendo motivo de polêmica por, supostamente, combater o câncer.
Apesar de os primeiros testes oficiais não apontarem nessa direção, um projeto de lei foi aprovado no Congresso liberando a fórmula no país --e aguarda aprovação presidencial. A fosfoetanolamina pode até virar suplemento alimentar.

Até quatro anos de prisão


Os crimes denunciados pela USP, levando em conta o Código Penal, se somados podem resultar em até quatro anos de prisão. Um inquérito foi aberto na Delegacia Seccional de São Carlos e outros pesquisadores também serão ouvidos.

A USP, que vem se manifestando contra o fato de ser obrigada por liminares a distribuir as pílulas, não comentou a denúncia apresentada inicialmente à Polícia Federal, que remeteu para a Polícia Civil.

A fosfoetanolamina sintética ainda não possui o registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).